
Tessa Moura Lacerda
Durante o primeiro semestre letivo de 2025, ministrei, no Departamento de Filosofia da FFLCH-USP, a disciplina optativa Filosofia Geral III, que trazia por título “O feminismo afro-latino-americano de Lélia Gonzalez”. Foi um acontecimento: as turmas da tarde e da noite, cada uma à sua maneira, foram tomadas pelo vigor do pensamento de Lélia Gonzalez. As discussões coletivas, intensas, fazia com que as aulas do noturno acabassem muito mais tarde do que havíamos combinado e, a turma da tarde, por sua vez, resolveu produzir como trabalho de extensão um samba enredo[1] sobre Lélia Gonzalez!
O curso se norteava, como dizia a ementa, por dois pontos principais: 1. a ideia de que as pessoas negras, que foram postas na lata de lixo da História brasileira, podem assumir seu lugar de sujeito e deixar de ser objeto ou infans, conceito lacaniano que indica aquele que é falado. Autora de uma escrita irônica, Lélia Gonzalez afirma que “o lixo vai falar e numa boa!”
2. a categoria político-cultural de amefricanidade, ligada ao que a filósofa chama de “pretuguês”, isto é, a língua que falamos no Brasil não é português, mas pretuguês, pois é um português enegrecido: adotamos muitos vocábulos e modos africanos de falar sem saber. Eis por que, afirma a filósofa, a batalha discursiva, em termos de cultura, foi ganha pelo negro. Somos amefricanos, pois a cultura que construímos aqui é algo único, que nos liga à África, mas é uma produção singular das Américas.
Estes conceitos foram importantes para que refletíssemos, na sala de aula, com Lélia Gonzalez, sobre o enegrecimento da cultura brasileira, entendendo que a resistência ao racismo pode se dar de maneira ativa, através de revoltas, quilombos, etc., mas pode se dar através da cultura.
Parte da riqueza das discussões que fizemos em sala está presente aqui nestes belos artigos produzidos por alguns dos estudantes.
Boa leitura! Axé!
[1] O processo de feitura do samba-enredo pode ser visto neste vídeo produzido por Pietra Sábia: https://www.youtube.com/watch?v=t34QiXfSyhM&t=3s (consultado em 28/05/26).
Keywords: Memory; Archive; Fabulation; Performance; Photography.
