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MULHERES | Viviane Piccoli [1]

A fotografia tem sido, historicamente, um veículo poderoso na construção e difusão de padrões de beleza, comportamento e feminilidade. Ao longo das gerações, esses registros visuais contribuíram para naturalizar determinadas expectativas sobre o que significa “ser mulher”, consolidando imaginários que moldam identidades. A série Mulheres parte da fotografia como matéria e memória. Por meio de rasgos, colagens e costuras, fragmentos de imagens são reorganizados para refletir sobre como a identidade feminina é construída a partir de representações, histórias familiares e heranças culturais. Ao preservar e reorganizar essas imagens, o trabalho também questiona como certos valores são transmitidos – entre eles, a persistente exigência social de que as mulheres estejam sempre belas, cuidadoras e disponíveis.

As obras também dialogam com a memória doméstica. Elementos cotidianos – a casa, o cuidado, os objetos, as flores, os gestos repetidos entre gerações – aparecem como parte de um universo feminino aprendido dentro das relações familiares. Mesmo quando há consciência crítica sobre a rigidez desses papéis, eles permanecem inscritos nas lembranças e nos afetos: nas avós, tias e mães que cuidam da casa e ensinam o valor das coisas. A materialidade dos trabalhos reforça essa investigação. Rasgos de fotografias em prata, impressões fotográficas, cartões-postais e tecidos são reorganizados em composições densas, criando emaranhados de imagens que evocam irmandades, redes de cuidado e a multiplicidade de experiências femininas. Em alguns trabalhos, a costura substitui a colagem, unindo fragmentos descartados de fotografias e criando uma espécie de “falsa colagem”, onde o gesto de costurar também carrega simbolicamente a ideia de reconstrução e pertencimento.

Assim, a série se constrói como um espaço de experimentação – tanto formal quanto pessoal – no qual fragmentos de imagens e memórias são reorganizados para pensar o feminino como um território complexo: feito de imposições sociais, afetos, aprendizados e relações entre mulheres.


[1] Viviane Piccoli (n. 1990, Casa Branca, São Paulo, Brasil) é fotógrafa, artista visual e artista-educadora. Seu trabalho explora temas como identidade, memória e pertencimento, com ênfase nas experiências de gênero. Suas pesquisas e projetos frequentemente partem de histórias pessoais e familiares entrelaçadas às vivências femininas. Por meio da apropriação de arquivos, do uso de técnicas manuais – como colagem, costura e bordado livre – e de processos fotográficos alternativos – cianotipia, antotipia e lumen print –, constrói narrativas visuais que transitam entre o íntimo e o coletivo. Também investiga o cotidiano e os ambientes domésticos, valorizando os aspectos ordinários da vida. Desde 2023, dedica-se ao estudo e à pesquisa da fotografia como prática e linguagem artística. É idealizadora e mentora da A Miúda Coisa, grupo de estudos em fotografia para mulheres fotógrafas. Conduz os encontros, realiza curadoria de conteúdos e orienta portfólios e processos criativos. Além disso, participa de cursos e grupos de estudo em fotografia e feminismo, ampliando continuamente sua prática. www.piccolivm.com @piccolivm.

[1] TÍTULO: Mulheres | DIMENSÃO: 30 x 32 cm | TÉCNICA: colagem em papel com rasgos de fotografia em prata e impressões fotográficas. | ANO: 2024
[2] TÍTULO: Mulheres | DIMENSÃO: 21,5 x 30 cm | TÉCNICA: colagem sobre papel cartão com rasgos de fotografia em prata, impressão fotográfica e cartão-postal. ANO: 2024
[1] TÍTULO: Mulheres | DIMENSÃO: 24,5 x 28 cm | TÉCNICA: rasgos de fotografia em prata costurados sobre tecido. ANO: 2024

Esboço para subverter o subjétil da escrita | Luana Fúncia [1]

Às vezes penso se a escrita é uma forma de representação do mundo. Para mim, não. Imagine só se as letras “a” e “o” seriam ontologicamente representantes, supostas, de mulheres e homens. Ou, ainda, que escrever sem nenhuma letra “e”, como faz Perec em “O sumiço” seria equivalente a sumir com a possibilidade linguística de representar es não-bináries. Não. Eu me forço então a pensar na característica aleatória – não só da linguagem, mas da atribuição socialmente inata de gêneros. Afinal, é também discricionária e, portanto, arbitrária a decisão de quem categorizou gênero como correlato do órgão genital de nascença. Esta é só uma diferença constitutiva se pensarmos que o ser humano busca diferenciar para hierarquizar, então, é dispositivo de poder e nada mais. Volto novamente à escrita e penso que escrever é me livrar, eu me livro com o livro, livre. E essa liberdade de escrita, que, para Perec, seria impronunciável por conter “e”s nas três sílabas, não é – pela via contrária daquela pensada no início – possibilidade de me tornar livre na materialidade da existência. Ou seja, a escrita não representa o mundo, nem pode, sozinhe, transformá-lo. Palavras ao vento, não são. Em alguma margem do impensado, brotam elas, inevitavelmente, livres e nascem sem gênero atribuído nem por órgão genital nem por conterem ao final da última sílaba as letras “o” ou “a”. São, assim, livremente pronunciáveis em sua liberdade, só ela, e não o gênero, constitutiva. Liberar da falsa dicotomia estas palavras que nascem não deixa de ser um exercício de liberdade, sem mesmo cogitar a ligação desta liberdade escrita e desta liberdade de escrita com o mundo real. Assim evito justamente as metafísicas filosóficas que vêm todas juntas com as velhas dicotomias.


[1] Sou Luana Fúncia, pesquisadora e professora de idiomas, nascida da zona norte de São Paulo. Cursei graduação em Direito e em Filosofia na USP, onde também concluí mestrado em Filosofia. Gostaria de ser escritora e, como uma vida é pouco para tantas paixões intelectuais, “escrevo livro no mundo” não é só uma lápide, mas também a antecipação em vida daquilo que em morte não poderei mais fazer. lgoncalvescarvalhofuncia@gmail.com