O gênero também é uma questão política nos consultórios

Gustavo Dias Santiago de Amorim
Mestrando em Saúde Coletiva pela Universidade de São Paulo (USP)
São Paulo, Brasil
gustavodsamorim@usp.br

Bárbara Vukomanovic Molck
Pesquisadora colaboradora da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
São Paulo, Brasil
bavukomanovic@gmail.com


Resumo

O artigo analisa as tensões entre o modelo biomédico, gênero e cuidado, por meio de um ensaio teórico-conceitual qualitativo, com abordagem hermenêutica e análise crítica de literatura no campo da saúde coletiva, examinando como práticas clínicas e tecnologias moldam corpos e subjetividades no contexto das pessoas trans. À luz dos conceitos de Foucault (biopolítica) e de Preciado (regime farmacopornográfico, tecnogênero e potentia gaudendi) discute-se a ambivalência entre autonomia e regulação nas intervenções hormonais e cirúrgicas e os efeitos normativos de protocolos e linhas de cuidado. Inspirado por Espinosa, argumenta-se pela ampliação da potência de agir em encontros clínicos que reconheçam afetos e intersubjetividade. Conclui-se pela necessidade de reconfigurar o encontro clínico como espaço ético e dialógico, valorizando narrativas trans como saberes legítimos e enfrentando desigualdades no SUS, de modo a orientar práticas emancipatórias que ampliem a diversidade dos corpos e das vivências.

Palavras-chave: Serviços de Saúde para Pessoas Transgênero; Acesso aos Serviços de Saúde; Políticas de Saúde; Equidade em Saúde; Identidade de Gênero.

Abstract

The article analyzes tensions between the biomedical model, gender, and care through a qualitative theoretical-conceptual essay with an hermeneutic approach and critical analysis of literature in the field of public health, examining how clinical practices and technologies shape bodies and subjectivities in the context of trans people. In the light of the concepts of Foucault (biopolitics) and Preciado (pharmacopornographic regime, technogender, and potentia gaudendi), the article discusses the ambivalence between autonomy and regulation in hormonal and surgical interventions and the normative effects of protocols and care guidelines. Drawing from Spinoza, the article argues for expanding the power to act in clinical encounters that recognize effects and intersubjectivity. It is concluded that there is a need to reconfigure the clinical encounter as an ethical and dialogical space, valuing trans narratives as legitimate forms of knowledge and addressing inequalities within Brazil’s Unified Health System (SUS), so as to guide emancipatory practices that broaden the diversity of bodies and lived experiences.

Keywords: Health Services for Transgender Persons; Health Services Accessibility; Health Policy; Health Equity; Gender Identity.