“Mãe só tem uma”

Maria Ribeiro
Professora da Universidade de São Paulo (USP) e na Coordenadoria Geral de Especialização, Aperfeiçoamento e Extensão (COGEAE) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)
São Paulo, Brasil
donamariaribeiro@gmail.com

Resumo

O texto é um prefácio escrito por Maria Ribeiro para a obra “O Édipo negro: colonialidade e forclusão de gênero e raça” da antropóloga Rita Segato. O documento analisa a história da maternidade no Brasil colonial e pós-colonial, explorando o fenômeno da “mãe preta” (a mulher negra que exercia a função materna) em contraste com a “mãe cívica” (a mãe biológica branca). A autora dialoga com a tese de Lélia Gonzalez (1980), que argumenta que a mãe negra é a “verdade” da cultura brasileira, enquanto a mãe branca frequentemente ocupava um papel secundário. O texto descreve a transição histórica das “amas de leite” (amas negras escravizadas) para as “amas secas” (babás), impulsionada por discursos médico-higienistas do século XIX que temiam a “corrupção moral” ou transmissão de doenças através do leite materno negro. Maria Ribeiro compartilha uma anedota pessoal quando, em 2015, foi confundida com babá enquanto amamentava seu próprio filho de aparência branca, ilustrando a persistência da misoginia racializada no século XXI. O prefácio demonstra como as estruturas coloniais continuam definindo papéis sociais e íntimos, aplicando conceitos psicanalíticos à realidade racializada da esfera doméstica brasileira.

Palavras-chave: colonialidade; racismo antinegro; gênero; maternidade; forclusão.

Abstract

This text is a preface written by Maria Ribeiro for the book “O Édipo negro: colonialidade e forclusão de gênero e raça” by anthropologist Rita Segato. The document analyzes the history of motherhood in colonial and postcolonial Brazil, exploring the phenomenon of the “black mother” (the black woman who played the maternal role) in contrast to the “civic mother” (the white biological mother). The author engages with Lélia Gonzalez’s thesis (1980), which argues that the “black mother” is the “truth” of Brazilian culture, while the white mother often played a secondary role. The text describes the historical transition from “amas de leite” (enslaved black wet nurses) to “amas secas” (nannies), driven by 19th century medical-hygienist discourses that feared “moral corruption” or the transmission of diseases through black breast milk. Maria Ribeiro shares a personal anecdote from 2015, when she was mistaken for a nanny while breastfeeding her own white-looking son, illustrating the persistence of racialized misogyny in the 21st century. The preface demonstrates how colonial structures continue to define social and intimate roles, applying psychoanalytic concepts to the racialized reality of the Brazilian domestic sphere Keywords: coloniality; anti-Black racism; gender; motherhood; foreclosure.

Key words: crossroads, intersectionality, identity, struggle, feminisms.