“Aquilo em que você acredita pode ser a sua salvação”

Por Elaíny Carmona e Iury Machado

A humanidade se desenvolveu tanto cientificamente que conseguiu prolongar vidas, erradicou doenças, criou máquinas capazes de produzir sozinhas mais que a força de trabalho de dezenas de homens juntos, explorou o universo, descobrindo novas galáxias e mapeando planetas distantes. As distâncias foram encurtadas e podemos agora conhecer o mundo com um simples toque em uma tela de cinco polegadas. Desde a tecnologia mais simplória até hoje, a maioria das pessoas acredita e precisa de uma força maior para enxergar sentido na caminhada por esse mundo. A espiritualidade é um meio para conseguir respostas sobre a vida, criar expectativas para o que vem após a morte e para nos proteger no dia a dia.

A cantora Maria Bethânia saúda Deus, Jesus, Ogum, Iemanjá, Erês, Caboclos e figuras de diversas religiões deixando seu recado: “Não mexe comigo, que eu não ando só”, mostrando a força em suas crenças. Já a ciência mostra que a influência da religiosidade na saúde mental tem sido constantemente demonstrada.  Sobre isso, uma pesquisa desenvolvida por professores de Psicologia da Universidade Católica de Pelotas no Rio Grande do Sul, afirma que a religião consegue dar sentido ao caos para o homem e constrói um mundo possível, fazendo com que um sentido para o seu sofrimento seja enxergado.

Já outro artigo, escrito por Karine Cambuy, Mauro Amatuzzi e Thais Antunes, publicado na Revista de estudos da religião em 2006, discute o resultado do censo de 2000, que além de mostrar uma migração de religiões entre os brasileiros, aponta a criação de uma “religião invisível”. “O indivíduo não adere mais a uma religião institucionalizada, e, no lugar desta, exerce sua religiosidade como um sentimento pessoal, íntimo, não necessariamente acompanhado de alguma adesão externa institucional.” Em comparação com o censo de 2000, os dados do censo de 2010 mostram um crescimento de 7,4% para 8,0% no percentual de pessoas que declaram não seguir qualquer tipo de religião.

Sendo um sentimento íntimo e pessoal, podemos expressar nossa fé sozinhos ou em qualquer religião, frequentando ou não a cultos, missas, reuniões ou giras. Se encontrar numa fé, contribuiu para que algumas pessoas consigam lidar melhor com seus problemas, incluindo doenças psicológicas que por muitas vezes são menosprezadas.

Doenças como ansiedade, depressão, transtorno obsessivo compulsivo e transtorno bipolar, por não aparecerem de forma tão explícita como uma fratura, por exemplo, são vistas como algo menor, que dependem apenas de uma “força de vontade” para que sejam curadas. O preconceito e a falta de informação com esses transtornos, fazem com que parte da população considere como algo que não requer atenção e, assim, as pessoas que carregam esses transtornos se sentem desamparadas e sem ter com quem conversar sobre o assunto.  Algumas delas encontram na religião um caminho para cuidar melhor da saúde psicológica, como é o caso de Milena Castro.  

A mulher de cabelos ruivos relata que começou a desenvolver bulimia aos 13 e anorexia aos 15, idade em que teve a sua primeira internação clínica. Passou três longos meses no hospital, onde comemorou o seu aniversário de 16 anos. Foi diagnosticada com Borderline aos 20, um transtorno que causa ao paciente mudanças bruscas de humor e um grande medo de ser abandonado. Além disso, passou por mais duas internações clinicas e três psiquiátricas. Hoje aos 24 anos, Milena conta que após uma busca por diversas religiões e 14 tentativas de suicídio, encontrou conforto e melhora na Umbanda.

Crescendo na igreja católica por influência da família, conta que foi catequista, mas não de forma voluntária, “aquilo nunca fez muito sentido pra mim” acrescenta. Saiu da Igreja Católica e foi conhecer diversas vertentes do protestantismo “eu conheci até uma igreja onde são roqueiros, muito diferente”. Mas por chocar com ideologias, principalmente da comunidade LGBT, Milena começou a achar que não precisava de uma religião institucionalizada para trabalhar sua fé. Começou a estudar o deísmo, algo como crer em um Deus, mas não seguir nenhuma doutrina. No entanto, Milena ainda se sentia incompleta. Após uma das internações, a falta de perspectiva no que viria após a morte começou a ter um peso maior. Milena diz que não conseguia enxergar uma razão para continuar vivendo “Estava muito fácil não estar aqui, era muito fácil não ficar.” E por conta disso, parou de ver sentido no deísmo.

Convidada por uma amiga, Milena começou a frequentar um terreiro de Umbanda, mas pelo preconceito que o senso comum tem sobre a religião, enfrentou certa resistência para acreditar, embora frequentasse assiduamente. “Era uma resistência, estou indo porque o conselho está sendo ótimo, mas não estou acreditando, não estou conversando com gente morta. A morte era o mais concreto que eu tinha, era o fim”, completa.  

Com os olhos marejados pela história que conta e pela gratidão que sente em ter sido apresentada à Umbanda, a mulher fala que não consegue passar um domingo sem frequentar o terreiro e sabe que ainda há muito que evoluir. Milena encara a nova oportunidade de continuar vivendo como uma chance que ela mesma tem se dado e que, a partir da sua religião, começou a ver um sentido na vida. Não só pela doutrina, Milena se sente grata pela forma que a Umbanda a acolhe e pelos laços afetivos que criou.

Entre um credo e outro, nos esbarramos com Davi (nome fictício). O rapaz de cabelos bem cortados e sorriso tímido, conta que cresceu na Igreja Evangélica, por influência da sua família. O ambiente sempre lhe fez bem, até que um dia entrou em um relacionamento em que a sua parceira não seguia a mesma religião que ele. Assim, o jovem se afastou dos cultos durante os anos de namoro.

Três anos e dois meses após se engajar no relacionamento, se viu sem chão quando ele acabou. Perdeu a vontade de sair, não conseguia se concentrar e nem se alimentar direito “emagreci 12 quilos em menos de 2 meses” surpreende. Sem rumo e sem perspectivas, não encontrou melhora curando sua dor de cotovelo nos bares ou em festas, mas sim quando resolveu voltar a frequentar a igreja depois de tanto tempo longe.

“Percebi que não fazia sentido sofrer por conta disso”, o jovem conheceu novos amigos e, bem mais maduro que antes, viu a fase ruim ir embora gradativamente. Davi fala sobre a importância da comunidade e da sua religião. “Acho que independente da religião, a fé é importante pro ser humano e impulsiona para que acredite e corra atrás de coisas que parecem impossíveis”.

Depois de alguns cultos e algumas passagens pela Igreja Católica, Felipe Otéro, um jovem centrado e reservado, conta que aos 15 anos, através da influência do seu pai e irmão, aprendeu mais sobre o espiritismo e foi, pela primeira vez, a uma sessão pública de um centro espírita. O interesse foi tanto que a partir disso o jovem começou a frequentar palestras e a estudar mais sobre a religião.

Para Otéro, a principal virtude do espiritismo está na caridade e fala da máxima do evangelho segundo o espiritismo, “fora da caridade não há salvação”. Já a importância da religião para o rapaz está atrelada nas mudanças morais, éticas e filosóficas que acontecem na sua vida e conta que apesar de se considerar uma pessoa com muitos defeitos, acredita na religião como a base do seu jeito de pensar.

A aproximação dos pensamentos à doutrina religiosa é o elo da transformação da relação entre a sociedade e as instituições religiosas. Em outras palavras, a busca individual por aquilo que mais se aproxima do que pensamos têm sido o meio mais utilizado para buscarmos e exercer a nossa religiosidade, já que o senso comum ainda perpetua preconceitos alimentados pela desinformação sobre doutrinas religiosas não tão popularizadas.

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