Como as tecnologias influenciam a mente humana

Por Samantha Loren

Com as facilidades oferecidas pelo mundo virtual, vem a crescente dependência dos aparelhos e a necessidade de estar conectado o tempo todo. “O celular parece que passou a fazer parte do corpo das pessoas, está o tempo todo com elas no bolso da calça, na bolsa, ou muito próximo. E quando temporariamente a pessoa perde seu celular e não sabe onde o deixou, dá uma sensação subjetiva de desespero e vazio”, afirma a psicóloga Paula Lemes.

Esse é o caso da estudante de Aviação Civil, Luanna Pimentel, 17, que está o tempo todo em contato com algum tipo de tecnologia e conectada à internet. “Quando meu celular não está ao meu lado eu sinto que está faltando algo em mim, o tédio se torna constante e fico inquieta, pensando em outra forma de me comunicar e informar sobre o mundo sem sair de casa”. Por estar sempre conectada, a estudante demonstra preocupação ao contar que consegue se enxergar em vários momentos da série britânica Black Mirror. “A série aborda claramente o reflexo da nossa sociedade, criticando o futuro e ao mesmo tempo o presente. Estamos nos tornando escravos da tecnologia”, desabafa.

A maneira como as tecnologias e a internet influenciam no pensamento e comportamento humano provoca mudanças pessoais e, consequentemente, sociais. Vivemos em uma “sociedade em rede”, como nomeou Manuel Castells, onde o limite entre real e ficção quase não existem mais, a separação entre online e offline está cada vez menor e a vida está sendo vivida tanto no mundo real quanto no mundo virtual.

Já ouviu aquele velho ditado de que “tudo em excesso faz mal”? Com a tecnologia não é diferente. É praticamente impossível imaginarmos um mundo desconectado como nos tempos das nossas avós, onde a comunicação era possível por meio de cartas ou, no máximo, telefones. Mas não é porque temos tudo nas palmas das mãos que precisamos nos tornar reféns dessas facilidades. “Agora que já aprendemos como mexer nas tecnologias, sugiro que a gente aprenda o caminho contrário, de equilibrar o uso com outras experiências fora delas; saber colocar os limites necessários em nosso dia a dia, consigo mesmo e com as outras pessoas”, aconselha Lemes.

“Isso é muito Black Mirror”

A série Black Mirror, citada pela estudante acima, é o exemplo ideal de abordagem sobre a maneira como a tecnologia influencia no comportamento humano. As tramas são criadas de maneira exagerada, porém muitos espectadores afirmam que se trata de cenários possíveis de serem observados na vida real, o que causa sensações de desconforto e angústia naqueles que assistem.

Ainda, tornou-se comum entre os espectadores desejar que a ficção da série se torne realidade, sem se importar com as consequências, também mostradas nos episódios.

Assim como o episódio Shut up and dance de Black Mirror, o filme americano Nerve: Um jogo sem regras mostra os limites – ou a falta deles – entre online e offline. A história gira em torno de um jogo que oferece dinheiro aos jogadores, em troca de desafios que devem ser cumpridos e filmados, enquanto os espectadores disseminam os vídeos pela internet. Porém, uma vez se que entra no jogo, não é possível sair até terminá-lo, mesmo com as tarefas que levam os jogadores a tomarem atitudes extremas.

É possível perceber a linha tênue entre ficção e realidade ao analisar o jogo Baleia Azul, criado posteriormente ao lançamento da série e do filme. Nele, os competidores devem cumprir desafios absurdos, documentá-los em fotos ou vídeos e enviá-los para os “curadores”, que decidem se foram cumpridos corretamente e passam as próximas instruções. Os participantes são recrutados através das redes sociais, recebem as tarefas – que vão desde mutilações corporais até tirar a própria vida – e, se manifestarem vontade de sair, são ameaçados. A semelhança é intrigante e, mais que isso, preocupante.

Segundo a psicóloga Paula Lemes, Black Mirror leva os espectadores a pensar criticamente a respeito das formas de interação das pessoas com as tecnologias, de forma até bizarra em alguns episódios. “Pelos diferentes benefícios e possibilidades que as tecnologias abriram, criamos a necessidade de tentar acompanhar tudo e todos a todo tempo. Isso pode provocar cansaço, fadiga, ansiedade e preocupações mais intensas do que já tínhamos antes”.

Novas meios de apreender informações

A utilização da internet e das tecnologias da informação e comunicação (TICs) modifica a forma como o homem pensa, age e se estrutura dentro da sociedade em que vive. A mente e o comportamento dos indivíduos são moldados desde seu nascimento até o dia de sua morte e as influências das tecnologias em sua construção já são focos de estudos por profissionais das áreas de antropologia, comunicação e psicologia.

Com o surgimento das novas tecnologias, a maneira de apreender novas informações, a velocidade do pensamento e a concentração, entre outros fatores que dependem da mente humana, sofrem modificações em consequência do novo ambiente e dos estímulos que está recebendo, como afirma o escritor Nicholas Carr em sua obra “A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros”.

Na obra, o autor trata sobre os impactos da internet na mente humana e sobre a maneira como o consumo de conteúdos e apreensão das informações vêm sofrendo mudanças com essa nova sociedade modernizada. Carr afirma que a mente linear está sendo deixada de lado por um novo tipo de mente que consome informações de maneira mais rápida, desarticulada e muitas vezes sobreposta.

Em entrevista à PBS NewsHour, o autor comenta que, enquanto escrevia a obra, se deparou com as descobertas sobre neuroplasticidade. Segundo o autor, estudos mostram que, mesmo quando adultos, nossos cérebros estão sempre se adaptando, a nível celular, àquilo para o qual usamos nossa mente, ao nosso ambiente. “Enquanto treinamos nossos cérebros para apreender uma informação muito rapidamente, de forma ininterrupta, como experimentamos online, fortalecemos as partes do cérebro que são boas em múltiplas tarefas, mudando nosso foco muito rapidamente. Em contraponto, não estamos exercitando as partes que estão envolvidas na concentração profunda, na contemplação, na reflexão. Então o que acontece no cérebro é: o que usamos se fortalece e o que não usamos, enfraquece”.

A professora da Universidade Federal de Uberlândia, Aléxia Pádua, desenvolve pesquisas sobre novas TICs e a maneira como essas evoluções influenciam os indivíduos, de um ponto de vista educacional, pedagógico e antropológico. A historiadora explica que as TICs baseadas na linguagem audiovisual apresentam imagens e sons em um ritmo cada vez maior, exigindo dos indivíduos que mudem sua atenção e seu foco rapidamente, o que “estimula os processos mentais de natureza sensorial, intuitiva, emocional e irreflexiva”.

A decodificação da mensagem torna-se praticamente instantânea, automática, baseada na percepção e não na reflexão necessária na leitura de um livro impresso, por exemplo.  “Isso ocasiona uma hiperestimulação sensorial maior do que a possibilidade de assimilação do indivíduo, gerando conhecimentos fragmentados, dispersos, descontextualizados e sem coerência”, explica Pádua.

Outro aspecto que sofre impacto das tecnologias são as capacidades e necessidades que os indivíduos têm de estabelecer contato físico com as pessoas que estão ao seu redor. A comunicação instantânea das redes sociais, as informações em tempo real recebidas nas pequenas telas, tornam possível viver sem a necessidade de sair do conforto de casa. As relações migram do físico para o virtual.

A psicóloga Luane Reis, pós-graduada em Análise do Comportamento, alerta para o esvaziamento das relações que vem ocorrendo, principalmente em decorrência dessa modernização. “A tecnologia está começando no berço e a emoção e afetividade estão ficando em segundo ou último plano. No consultório as queixas são de que ‘Fulano agora só fica no celular, não conversa, não faz tarefa, não me olha’. O que percebo são isolamentos, aumento de doenças psicossomáticas, doenças depressivas ou nível de ansiedade aumentado”, comenta.

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