Uma aliada no tratamento da saúde mental

Por João Júnior e Lorraynne Oliveira

“Minha terapeuta indicou fazer coisas com as quais eu sentiria prazer. Resolvi praticar musculação e pole dance. Ambos os exercícios me ajudaram a ter disposição e senti que dependeria apenas de mim para alcançar meus objetivos”, conta Gabrielle Santos. A história da estudante de 21 anos é um exemplo de que a atividade física pode ser importante alternativa para a realidade de tantas outras pessoas que sofrem com transtornos psicológicos, como a depressão.

A universitária teve problemas diversos de relacionamento durante a vida e se distanciou de seus amigos e da própria família, acarretando no desenvolvimento de um quadro depressivo. “Foram muitas decepções e perdas. Sentia o mundo cair sobre minhas costas. Eu encontrava uma forma de tentar me sentir melhor na comida. E comia muito”, lembra. Foi então que um dia Gabrielle recebeu a visita de uma amiga que não via há tempos. “Olhando minha situação, ela me levou a uma profissional que me diagnosticou com depressão. A partir daí, eu sabia que não seria fácil, mas iria fazer de tudo para diminuir a dor que tanto sentia”.

Casos como o da estudante são importantes exemplos para destacar que, embora o esporte, de maneira geral, sempre tenha sido bastante atrelado à saúde do corpo, ainda hoje é desconhecido ou até desvalorizado enquanto recurso que auxilia a mente. Por mais que as pessoas sejam capazes de lidar com problemas, superar obstáculos e se adaptar a mudanças sem entrar em sofrimento psicológico ou emocional, em alguns casos, elas desenvolvem quadros como depressão, síndrome de Borderline, esquizofrenia, transtorno bipolar, entre outros. Para auxiliar na melhora desses pacientes, não se deve interná-los, privá-los do convívio social e entupi-los de remédios. Ao invés disso, pode-se introduzi-los a práticas corporais.

Arte: Halyson Vieira e João Junior

 

Terapia farmacológica

Segundo a psicóloga Telma Matos, pós-graduada em Psicologia Esportiva, muitos medicamentos usados no tratamento de doenças como a depressão causam rigidez muscular, lentidão, retenção hídrica, ganho de peso, entre outros fatores. “O exercício físico, então, vem a favorecer a autonomia do paciente, no sentido de reafirmar o seu corpo perante a doença”, aponta Matos, que atualmente desenvolve um projeto de saúde mental e práticas corporais. “O paciente pode readquirir potencialidades que foram perdidas devido a uma psicopatologia. O exercício favorece a pessoa a conseguir a fazer atividades corriqueiras como pegar uma garrafa e retomar o equilíbrio, por exemplo, que pode ser perdido por conta da medicação. Além de reconciliar o vínculo com o outro”, acrescenta a psicóloga.

O uso de remédios ainda é muito comum, embora por vezes ele não seja necessário. Segundo Matos, as práticas alternativas podem ter um efeito muito mais significativo. Gabrielle, por exemplo, conta que começou terapia há cinco meses, mas que não fez ou faz uso de nenhum remédio. “Com a terapia e as atividades físicas, hoje sou independente. Aprendi a administrar diversos âmbitos da minha vida e sou muito grata”, ressalta.

As atividades físicas funcionam como um bom tratamento porque favorecem a liberação das endorfinas, associadas ao bem-estar psicológico da pessoa. É o que conta a psicóloga Nina Bárbara, que atua no Núcleo Tri, uma iniciativa que desenvolve a Psicologia do Esporte no Triângulo Mineiro atendendo atletas e equipes.

 

Intervenção comportamental

Segundo o estudo The Benefits of Exercise for the Clinically Depressed” (“Os Benefícios do Exercício para a Depressão Clínica”, em tradução livre), uma prescrição de exercício de 20 minutos por dia, três vezes por semana, com intensidade moderada é o bastante para diminuir significativamente os sintomas de depressão. Os exercícios atuam tanto na melhoria da autoestima e das funções cognitivas quanto no aumento da resistência de uma pessoa frente ao estresse e ansiedade. Ao se exercitar regularmente, portanto, a pessoa pode tratar estados depressivos e reduzir ou cessar o consumo de medicamentos, uma vez que os exercícios físicos podem agir como poderosos antidepressivos.

A importância da prática esportiva é enorme até para aquelas pessoas que dizem não ter tempo para se exercitar, pois precisam se concentrar nos estudos para a faculdade, vestibular, concursos e outras preocupações, explica a psicóloga Nina Bárbara. Segundo ela, corpo e mente andam juntos e o potencial cognitivo é ampliado quando o corpo está bem. A profissional ressalta, ainda, a importância do exercício físico nesse contexto. “Temos que pensar que o movimento propicia até o conhecimento. Se me movimento fazendo esporte, vou conseguir pensar mais, estudar e aumentar minha capacidade cognitiva”, indica.

Conforme a psicóloga, as escolas têm papel importante na conciliação de esporte com educação. Ela critica, nesse sentido, a eventual ausência da Educação Física na reta final do Ensino Médio. Atualmente, a disciplina é obrigatória até o primeiro ano, mas facultativa nos segundo e terceiro. “A escola tira a Educação Física para treinar os alunos para o vestibular, para eles terem mais tempo para estudar. Porém, se esquece que mais tempo de estudo é mais tempo de cansaço”, salienta a psicóloga do Núcleo Tri, que acredita que a Educação Física deveria ser obrigatória até o fim do Ensino Médio. “Se o aluno não praticar, o corpo não vai aumentar a capacidade cognitiva. Ele vai chegar em um limite e não vai conseguir superá-lo”, acrescenta.

Nina Bárbara destaca ainda que o mais importante é o bem-estar da pessoa, acima de tudo. Para ela, outras atividades que não sejam esportivas também podem auxiliar no tratamento de saúde mental. “Não é só o esporte em si que pode ser programa de melhora. É interessante voltar para aquilo que a pessoa mais gosta de fazer para apresentar uma melhora mais rápida”, ressalta. “Vai ter gente que não gosta de esporte, mas vai gostar de artes. O esporte pode sim liberar mais rápido a endorfina, porque aumenta a circulação sanguínea, mas se você gosta de pintar, por exemplo, também vai liberar”, reforça.

A atividade física tem ajudado a jovem Gabrielle Santos a avançar no seu tratamento há mais de cinco meses e, como visto, pode ser importante aliada para outras pessoas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: