Entre a loucura e a razão

Por Ana Eliza Barreiro

A luta antimanicomial dá o tom para a obra cinematográfica “Bicho de Sete Cabeças” (2000), dirigido por Laís Bodanzky e roteirizada por Luiz Bolognesi. A sensibilidade com a qual é tratada a temática de abusos e precariedade em hospitais psiquiátricos fez com que o filme fosse aclamado pela crítica e premiado diversas vezes, conquistando inclusive o Grande Prêmio Cinema Brasil. A história é baseada no livro “O Canto dos Malditos”, de Austregésilo Carrano Bueno.

A narrativa conta a trajetória de Neto, adolescente com conflitos familiares, interpretado por Rodrigo Santoro. Ele é um jovem pobre que, na tentativa de escapar da autoridade forte em casa, busca caminhos nas ruas, onde se diverte pichando muros ou fumando maconha. Certo ar de inconsequência rodeia esse personagem no início, como nos momentos em que, perdido, pede dinheiro pelas ruas e chega a ser detido em uma delegacia após ser encontrado pichando paredes.

Essa passagem na prisão traz a carga de tensão que muda a vida do personagem principal. O pai, Sr. Wilson (Othon Bastos), que vai buscar Neto na delegacia, fica nervoso e tem uma grande discussão com o filho. Depois, ao encontrar um cigarro de maconha de Neto, fica desesperado, sem saber o que fazer na tentativa de encaixar o menino naquilo que considera normal. A solução, em sua ignorância, é afastar o moço de casa e da família para fazê-lo “melhorar” na marra em um manicômio distante.

Nessa hora, todo o contexto muda. Agora, Neto, antes um jovem rebelde, se torna vítima de um sistema abusivo dentro de um hospital psiquiátrico. Lá, entre choques na cabeça, agressões físicas e emocionais, remédios fortes e incapacitantes vão o levando para o limite da razão e o deixando a um passo da loucura. A única ponte com o mundo lá fora são as cartas que o jovem envia à família e dão todo o clima ao filme, que se passa relatando suas histórias.

O tempo todo é mostrado esse ponto frágil entre loucura e normalidade. Quem são os doentes? As pessoas jogadas à própria mercê, num antro de violência e censura, as famílias que preferem “esquecer” quem não se adequa à rotina de trabalho e intimidade exigidos pelos padrões normativos ou os médicos e enfermeiros que se fazem deuses narcisistas detentores do poder sobre a liberdade dos pacientes-detentos?

Imagem: Divulgação

Neto consegue sair graças aos apelos de sua mãe, interpretada por Cássia Kiss, em outra atuação brilhante do filme. Mas essa saída é curta. O jovem tenta se encaixar nos moldes e começa a trabalhar, como é o desejo do pai. Para o Sr. Wilson, o filho, embora calado e distante, havia se transformado em “homem”. Mas logo as mágoas e traumas o engolem e, num surto em pleno ato sexual com uma moça desconhecida, é novamente encarcerado em outro manicômio. Lá, ele ultrapassa novamente a linha tênue da razão.

Machucado, violentado, adoecido, revoltado, Neto amarga a solidão em meio a quartos imundos. A trama do filme se passa rapidamente, como se o que o personagem visse fossem resquícios de um presente insignificante. Não há foco nos rostos e movimentos observados dos outros pacientes, somente no nervosismo e ansiedade em destruir tudo aquilo e fazer justiça aos próprios modos, mesmo que com uma tentativa desesperada.

Essa obra é um importante marco do cinema brasileiro por tratar da polêmica envolvendo tanto a luta antimanicomial e da reflexão sobre o que é a loucura na sociedade moderna, se ela não está presente em todos, além dos muros dos hospitais, que não enxergam modos de sair do senso comum.  E como no conto “O Alienista”, de Machado de Assis, vemos as entranhas da vaidade e egoísmo humano quando paramos para analisar o que é ser louco ou não.  

A relação de poder entre pai e filho é exposta diante dos olhos do espectador, levando ao questionamento sobre quem é imaturo e quem é certo. Afinal, o Sr. Wilson, em desespero, comete um crime contra o filho, com quem não dialogava. Uma real situação em que se encaixa o termo “bicho de sete cabeças”, quando um pequeno ocorrido, que poderia ser resolvido com calma e carinho, toma proporções gigantescas e excessivas. Afinal, como os filhos estão sendo criados para serem os homens de amanhã? A obra também expõe a fragilidade masculina e demonstra como o patriarcado adoece a todos.

Vale a pena assistir e ainda escutar uma trilha sonora de tirar o fôlego, recheada com obras de Arnaldo Antunes e incluindo uma canção que parece ter sido criada especialmente para o filme, chamada “Bicho de Sete Cabeças II”, interpretada por Zeca Baleiro, Zé Ramalho e Geraldo Azevedo. 

 

 

 

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