Um transtorno mais sério do que se imagina

Por Bruna Lie e Lívia Ramos

 

“Acordar de manhã e sentir uma forte angústia durante o dia todo, mesmo brincando com as pessoas durante o trabalho. Sentir um frio na barriga como se a cada momento fosse acontecer algo ruim com você. Sentir intensamente um aperto no coração. Ter calafrios e falta de ar. Perceber que o corpo está adormecido, como se estivesse desmaiado”. A situação descrita por Ana Luísa Gomes de Araújo, de 34 anos, é realidade para muitas outras pessoas que sofrem com o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), uma doença que afeta a mente e prejudica diretamente a qualidade de vida.

Segundo o Atlas de Saúde Mental 2014, publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 450 milhões de pessoas possuem quadros de sofrimento mental. Apesar do grande número, apenas uma pequena minoria procura tratamento, ainda que básico. De acordo com o relatório, o TAG é a doença com índices mais elevados entre aquelas que afetam a mente. 264 milhões de pessoas sofrem com transtornos de ansiedade, ou cerca de 3,6% da população mundial.

Segundo a psicóloga Camila Matias, a ansiedade é como estar em um estado de apreensão ou agitação e pode gerar sentimentos como nervosismo crônico e preocupações excessivas, persistentes, que podem até ser consideradas desproporcionais à realidade. Esses sentimentos normalmente são acompanhados por vários sintomas físicos, como tensão motora, alta vigilância, irritabilidade persistente, dores musculares, disfunções gastrointestinais, sudorese, taquicardia, tontura, boca seca, palpitações, entre outros.

Outra especialista na área de saúde mental, a psicóloga e psicoterapeuta Aline Rosa, aponta que o transtorno de ansiedade pode ser caracterizado como um conjunto de sofrimentos físicos e emocionais. “Às vezes a doença pode atingir níveis mais elevados, acarretando outros quadros ainda mais severos, como a depressão”, esclarece. Segundo Rosa, o TAG pode surgir por diversas causas, entre elas o histórico familiar, a vivência diária de estresse, algum trauma, dificuldade em lidar com emoções, pressão ambiental, etc. A psicóloga destaca ainda que as justificativas variam de pessoa para pessoa e também de acordo com o tipo de Transtorno.

Ana Luísa descobriu o TAG oito anos atrás e conta como o processo de reconhecimento da doença foi longo. “Demorou muito tempo para os psiquiatras me diagnosticarem. Eles achavam que era depressão e fiquei no tratamento por uns dois anos, até que mudei de psiquiatra e ele apontou que eu tinha era ansiedade em excesso”, relembra.

A jovem acredita que os sintomas da doença pioraram após uma tentativa de suicídio, resultado de uma grande decepção: duas gestações que não deram certo. “Depois que perdi os bebês, me sentia angustiada todo o tempo e essa angústia começou a fazer parte de mim 24 horas por dia, mesmo brincando com as pessoas no trabalho”, lamenta.

Já a estudante de Engenharia Química Débora (nome fictício) descobriu há poucos meses, após uma consulta ao psicólogo, que está com Transtorno de Ansiedade Generalizada. A jovem de 21 anos explica que o seu sofrimento acarreta em diversos sintomas como descontrole, insônia, preocupação e até dor de barriga. “Geralmente, quando surgem coisas novas e desconhecidas, como testes e provas, a ansiedade vem com tudo. É uma espécie de nervosismo e inquietação com misto de medo”, afirma.

 

Alívio imediato

O tratamento convencional para auxiliar as pessoas que sofrem de ansiedade consiste em terapia psicológica e, em casos mais graves, é ofertada uma medicação específica que deve ser prescrita por um psiquiatra. Essa, porém, é uma questão delicada, segundo o psiquiatra e médico no Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto, Dr. Edson Scherer. Ele explica que existem pessoas que, no desespero, chegam a se automedicar, pegar remédios com parentes e amigos e até mesmo procurar especialistas de outras áreas para que receitem a medicação. “As pessoas querem evitar o contato com os sofrimentos. Querem alívio rápido e mágico. O que acredito é que estamos em um momento no qual a vontade das pessoas e o conforto imediato encontra ressonância na indústria de remédios que prometem, por vezes falsamente, produzir alívio. Cabe ao médico enfrentar as pressões com uma conduta ética profissional”, ressalta Scherer.

Segundo os entrevistados, as sessões no psicólogo aliadas a abordagens alternativas produzem bons resultados no tratamento de doenças da mente. Debora conta que combina a terapia convencional com outras ferramentas para fugir da medicação. “O yoga e as práticas de respiração têm me ajudado a não deixar o transtorno chegar ao máximo”, destaca a jovem.

Outra possibilidade de complementação ao tratamento médico e psicológico é a terapia holística. A Nós conversou com uma das maiores especialistas brasileiras na área, a psicoterapeuta Myriam Durante. “É necessário buscar formas de levar uma vida mais calma, seja com meditação, relaxamento ou outra técnica. O tratamento convencional, apenas com sessões e conversa, pode durar até anos”, explica a psicoterapeuta e autora do livro “Ansiedade: Aprenda a Controlar Sua Ansiedade e Viva Melhor”, da Editora DVS. Ela desenvolveu um aplicativo, disponível para aparelhos Android e iOS, que ensina técnicas de relaxamento com o objetivo de substituir os remédios para insônia.

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