Sob as luzes da ribalta, meninos pretos ficam dourados

Por Isadora Ruiz

Melhor roteiro adaptado. Melhor ator coadjuvante. Melhor filme. Essa é a contagem de Oscars de Moonlight – Sob a Luz do Luar, longa-metragem escrito e dirigido por Barry Jenkins, adaptado da peça de Tarell Alvin McCraney. O filme conta a história de Chiron (interpretado por Alex Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes), um jovem negro que cresce na periferia de Miami e convive, desde cedo, com a violência, o mundo do crime e das drogas. Apesar das problemáticas comuns à juventude negra norte-americana, ao longo do filme pode-se perceber a presença de um Chiron que enfrenta dilemas mais subjetivos, como sua própria sexualidade e a construção de sua identidade.

O filme é dividido em três grandes atos e cada um constrói sua narrativa a partir de uma fase da vida da personagem principal. O primeiro, intitulado Little, fala sobre a infância de Chiron, uma criança solitária e introspectiva. É nesse momento que conhecemos as principais figuras da vida do menino – a mãe Paula (Naomie Harris) , o traficante Juan (Mahershala Ali) e sua namorada Teresa (Janelle Monáe), o melhor amigo Kevin (interpretado por Jharrel Jerome na adolescência e por André Holland na fase adulta),  – e sua relação com elas. Sob o título Chiron, a segunda parte retrata a adolescência do protagonista, que passa por dificuldades na escola e que, entre ameaças e bullying, ainda é obrigado a conviver com a dependência química da mãe. O último ato (Black) engloba a fase adulta da personagem principal e é nela que os conflitos de identidade de Chiron ficam mais aparentes. Nessa parte final, também se pode observar um maior desenvolvimento da complexidade dos relacionamentos de Chiron com a mãe e com Kevin, personagens mais emblemáticas da vida do jovem.

Um dos aspectos mais interessantes da narrativa é a forma silenciosa como ela é construída, com diálogos curtos e, ao mesmo tempo, carregados de emoção – traço advindo da própria personalidade introspectiva e quieta da personagem principal. Esse artifício escolhido tanto pelo diretor  quanto pelo autor da peça original contribui para a imersão do espectador no mundo e nas angústias de Chiron.

Imagem: Divulgação

Nessa perspectiva, a ambientação também aparece como um importante componente. A trilha sonora, composta por Nicholas Brittel, preenche com maestria o vazio do silêncio que é recorrente no longa. Em muitos momentos, a trilha transmite mais sobre as emoções presentes nas cenas do que a interferência das próprias personagens. A fotografia estonteante de James Laxton, aliada à trilha sonora, desempenha um papel magnífico de criação de sentido que faz da comunicação verbal uma mera formalidade intrínseca aos longa-metragens. Não é acidental a escolha da paleta de cores de Laxton, que varia entre tons de azul e vermelho. Utilizando esse mix de tonalidades quentes e frias, a narrativa emprega a fotografia para denotar sentimentos e emoções como agressividade, calmaria, introspecção, tristeza etc. A predominância do azul é associada à personagem de Juan, que conta a Chiron uma passagem de sua infância e declama a frase que dá título ao filme: “Sob a luz do luar, meninos pretos ficam azuis” (tradução livre). A cena em que Juan leva o pequeno Chiron para a praia e o ensina a nadar é um espetáculo à parte, o exemplo máximo da harmonia entre trilha sonora, fotografia e um bom roteiro.

E, finalmente, as atuações. Ah, as atuações! O elenco de Moonlight parece ter sido criado especialmente para seu roteiro. Começando pelos “Chirons”, interpretados em ordem cronológica por Alex Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes, que parecem de fato diferentes versões de uma mesma pessoa. Além da semelhança física, todos os três atuam com a mesma quietude e intensidade, características marcantes do protagonista em suas diferentes fases. Naomie Harris, que interpreta Paula, traz para a personagem a complexidade de uma mãe que, apesar de amar e zelar por seu filho, desenvolve uma dependência química que acaba afastando-o. Mais impressionante ainda é o fato de todas as cenas de Paula terem sido rodadas em um só dia. Em menos de 24 horas, Naomie Harris teve de incorporar todos os estágios e sintomas da dependência química no corpo humano. Outro destaque do elenco é a personagem de Mahershala Ali, o traficante cubano-americano Juan. A atuação de Ali, que lhe rendeu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, cria um conflito tanto no espectador quanto no próprio Chiron, que encontra afeto e zelo na figura de alguém que é considerado um criminoso.

Para além de sua grandiosidade cinematográfica e de todos os seus aspectos técnicos, Moonlight é a história não contada da juventude negra e, mais importante, da juventude queer. Os dilemas enfrentados por Chiron em sua caminhada rumo à aceitação são os mesmos de uma população que sofre calada nas periferias mundo afora – os próprios roteiristas do filme afirmaram que se sentiram protagonistas da história que contaram. Em tempos de alt-right, Moonlight – Sob a Luz do Luar é um filme que se faz ainda mais necessário, tratando de temáticas como o racismo, a criminalidade e a LGBTfobia com a leveza e a emoção de quem conta uma história de romance. O filme está disponível na Netflix.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: