Laços de Maria Alice

Por Nadja Nobre

“O lugar que eu mais amo é minha casa, aqui tem tudo que eu quero, tem meus livros e internet para pesquisar”. Fui convidada para ir até a casa da historiadora Maria Alice Caputo Romano de 54  Logo que cheguei, me deparei com a pequena sala do seu apartamento, e aos poucos fui entrando em seu mundo. O coração criativo de Maria Alice parecia estar naquela sala. A luz do cômodo estava apagada e só o abajur aceso, onde havia três estantes cheias de livros, clássicos da literatura brasileira, livros sobre pintores famosos, quadrinhos, revistas, grandes pastas com desenhos e dezenas de personagens de plástico de desenhos animados. No centro da sala, uma mesa com o desenho que ela estava terminando de fazer, pincéis de várias espessuras, tintas e algumas revistas.

Maria Alice, apaixonada desde criança por livros de literatura e quadrinhos, nasceu em Anápolis, onde cursou História na Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Morou em outras cidades, que, segundo ela, foram importantes e trouxeram inspiração para seus trabalhos. Em Uberlândia, cursou especialização em literatura comparada na Universidade Federal de Uberlândia. Em São Paulo, fez mestrado em Ciência da Comunicação na Universidade de São Paulo (USP). Mas foi em Florianópolis, logo depois de ter recebido o diagnóstico de bipolaridade pelo Hospital das Clínicas de São Paulo que sua personagem Bipo nasceu.

Maria Alice fazendo a arte do cartão de visitas da sua irmã

Bipo

Maria Alice, começa nossa conversa me relatando de sua dificuldade de vencer as inseguranças e o medo das críticas em relação a suas criações. E disse que foi só a partir dos 50 anos de idade que começou a desenhar mais. Depois de ter passado por momentos difíceis em Uberlândia, com depressão profunda, ela resolveu fazer algo diferente e então se mudou para Florianópolis. “Eu morava, num paraíso, no Campeche, onde Saint-Exupéry pousou”.

Na cidade catarinense ela conta que reencontrou com três amigas e que começaram a pensar em maneiras de ajudá-la em seus trabalhos artísticos e a vencer seus medos. “Uma das amigas me disse: Desenha uma coisa em um segundo.’ Eu fiz uma bonequinha aí ela viu e disse: ‘- Bipo! Bipo de bipolar’. Assim nasceu a minha primeira personagem”, conta Maria Alice. “Eu fui fazendo várias ‘Bipos’, criava histórias com essa personagem. Também fiz camisetas, vendi para os meus amigos e expus em alguns locais na cidade. Montei cinco modelos diferentes de camiseta. Elas tinham a Bipo e uma frase, como por exemplo: ‘Bipo estabiliza o humor’ e ‘Bipo e a propaganda de psicotrópicos’”.  

E ao começar a desenhar “Bipos”, treinar seus traços e dar vazão a sua criatividade com a criação de novos personagens e desenhos, Maria Alice me conta que, aos poucos, foi vencendo seus medos. Depois dessa fase em Florianópolis, ela morou dois anos em São Paulo e retornou para Uberlândia. “Quando eu voltei, consegui ter meu lugar [apartamento] e pude organizar meus livros e meu espaço melhor. Consegui desenvolver meu trabalho, exercitar e criar um traço próprio. Uberlândia para mim, hoje, me deu a oportunidade de desenvolver meus desenhos”

“Gosto de fazer releituras de quadrinhos de outros artistas que geralmente as pessoas não conhecem. Quando desenho, apresento para várias amigas. Penso que sempre foi um universo muito masculino. Hoje é diferente, tem muitas mulheres que fazem quadrinho”, diz Maria Alice.

O primeiro rascunho da personagem Bipo

Laços

E foi há cerca de um ano que começou a dar oficinas de quadrinhos e pintura no Centro de Convivência e Cultura Saúde Mental (CCC) de Uberlândia,  que atende pessoas que tiveram ou ainda têm problemas com álcool e outras drogas.

E ela me relata a história de como foi que começou a dar oficinas no CCC.  Maria Alice conheceu Paulo Roberto, um adolescente de 17 anos, em São Paulo,  no Hospital das Clínicas, que havia sido diagnosticado com esquizofrenia. E “eu quis ajudar esse menino, então comecei a mandar um material de desenho e ele começou a me enviar desenhos e cartas. Me correspondia com ele e a mãe. Enviei algumas histórias em quadrinhos, uma delas eram os contos de Júlio Verne”. Motivada por esse contato com Paulo Roberto e percebendo o quanto a arte e a leitura estavam sendo benéficos para o tratamento mental, Maria Alice conta que procurou a coordenadora do CCC do bairro Santa Mônica de Uberlândia, Marisa Alves, para conversar e mostrar o trabalho que estava desenvolvendo com Paulo Roberto. Foi quando surgiu o convite para ela dar oficinas.

Maria Alice descreve pra mim que gosta de começar as oficinas sempre ensinando sobre um pintor clássico e um quadrinho. “É importante e quero passar esse conhecimento para eles, mesmo só sendo uma aula de desenho livre”. Ela também me fala sobre sua relação com os alunos: “Quando eu estou ali, naquela uma hora de aula, eu quero saber sobre a saúde deles. A aula não é só de desenho, é uma aula do humano e eu me preocupo com eles.”

Ela, então, levanta da cadeira em que estava sentada e pega uma pasta com os vários desenhos seus para me mostrar, rapidamente. E não muito tempo depois e com tanta coisa ainda, para ver e ouvir, Maria Alice me pediu para encerrar nossa conversa, pois precisava ir para casa de seus pais e cuidar deles. Nos despedimos. Em mim, a sensação ficou de que não tinha mergulhado nem 10% em sua história e no que estava naquela sala, o coração criativo de Maria Alice.

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