A ansiedade curou a minha vida

Por Maísa Melo

Quando digo que a ansiedade curou a minha vida, as pessoas ficam, no mínimo, curiosas e chocadas. Elas sempre me questionam. Como poderia uma doença com sintomas tão difíceis de serem combatidos, capaz de limitar seres humanos a ponto de impedi-los de ter uma rotina normal, transformar a vida de quem quer que seja? Explicar é ainda mais complicado que entender.

A ansiedade chegou até mim como chega até a maioria dos jovens e adultos, eu imagino, independentemente da intensidade. Não é à toa que é conhecida como o mal do século. De mansinho, sem pedir licença e sem que percebamos, ela deixa de ser aquilo que já conhecíamos e que é natural, como a vontade de antecipar os dias para ter logo aquele encontro com alguém especial, para chegar mais rápido o dia de uma viagem ou para saber o resultado de uma prova. Ela passa a ocupar todo o espaço ao redor, nos sufoca até que notemos algo diferente, e, assim, nos vemos obrigados a compreendê- la por um novo ponto de vista.

Perspicaz, a ansiedade da qual estou falando tem múltiplas faces e nos faz implorar para ter de volta apenas aquele frio na barriga por querer antecipar o futuro. A “versão dos adultos” é mais que isso, é falta de ar, dor no peito, formigamento pelo corpo, é sensação de desmaio, de perigo constante… Isso quando não traz consigo vestígios de algumas de suas amigas, como a depressão e, principalmente, a síndrome do pânico.

Ela me encapsulou de forma tão dominadora, que, por anos, me sentia vítima de minha própria mente. A sensação era que os meus pensamentos possuíam vida própria e que eu viveria para sempre presa em um verdadeiro martírio. Nada mais fazia sentido, nem mesmo os meus pensamentos. Nada tinha graça. Quando cheguei a pensar que estava enlouquecendo, tudo isso despertou em mim uma pergunta. “Espera, mas quando é que algo teve graça? Quando foi a última vez que algo me encantou?”

Perceber o meu olhar sobre o mundo antes de ter sido aprisionada pela ansiedade foi o primeiro passo de um longo e inacabado caminho de cura, no qual ainda estou. Não me  vejo totalmente livre dela, às vezes ela aparece com mais força, outras vezes está mais tímida, quase invisível, mas o que ela me ensinou foi que, o mais difícil de tudo é me livrar do que me fizeram pensar que eu fosse, das crenças, pesos, culpas que me foram embutidos ao longo do tempo.

É claro que nada é tão simples como parece, mas foi exatamente o percurso, inclusive e principalmente a ansiedade, suas crises, e as marcas que deixou em mim, que me impulsionaram a mudar. É como uma frase que ouvi certa vez, de autoria desconhecida, e que, desde então, carrego comigo como uma ilustração desse processo, “o encontro é a procura”. Ter ansiedade, para mim, foi libertador, foi uma chave para mudanças, foi e é dolorido, mas conseguiu florescer. Sei, infelizmente, que nem todo mundo tem a mesma visão e resultado, mas é preciso buscar romper o casulo e, de alguma forma, seja por meio de remédios, terapia, meditação, ou uma combinação de tudo que fizer bem, se devolver para a vida.

Foto em destaque: Milada Vigerova/Unsplash

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