11 (apreensivos) minutos

Por Samantha Loren Santos Costa

21:52, foi a última vez que olhei as horas no celular, antes de enfiá-lo no bolso esquerdo da minha calça jeans, pegar minhas chaves de casa e levantar do banco do ônibus, tomado pelo cheiro de álcool que exalava do passageiro embriagado, de roupa surrada e cabeça baixa, logo à minha frente. Agradeci mentalmente por chegar no ponto antes que ele passasse mal, o que, pelo olhar distante e a boca entreaberta, não demoraria muito.

Puxei as mangas da blusa de frio até tampar minhas mãos. Olhei pra baixo – o esmalte vermelho que passei dois dias atrás já estava descascando. Cruzei os braços, abaixei a cabeça, respirei fundo e desci do ônibus quente pra enfrentar o frio cortante da noite.

A distância do ponto até minha casa não era pequena: cinco quarteirões, aproximadamente 11 minutos de caminhada por ruas desertas e postes com luzes queimadas, típicos dos bairros mais afastados da cidade. Eu andava rápido, como de costume, a rua tomada pelo som dos meus passos apressados e minha voz cantarolando baixinho, na tentativa de me acalmar e esquecer o frio na barriga.

Outro ônibus passa ao meu lado e, imediatamente, ouço barulhos de passos. Sinto meus pés suarem dentro do All Star vermelho, as mãos gelarem e o medo tomar conta do meu corpo. Meus batimentos cardíacos estão tão altos que, juro,  se podia ouvi-los na rua silenciosa. Dizem que o medo é criado pelo cérebro quando estamos em uma situação de perigo, mas por que o simples barulho de passos atrás de mim foi suficiente para me desesperar?

As notícias que vejo todos os dias nos jornais, sobre violência contra mulheres e os abusos sofridos por elas enquanto caminhavam por uma rua deserta, são suficientes para colocar minha mente em alerta com o barulho, imaginar situações horríveis semelhantes às que vi no noticiário da noite passada e provocar em meu corpo as sensações tão conhecidas de ansiedade e medo.

Me viro num rompante, já me preparando para correr, mas percebo que os passos são de uma mulher – tão apressada quanto eu, segurando firme com uma mão a bolsa pendurada em seu ombro direito; na outra, suas chaves balançam e fazem barulho. Pelo olhar aflito, seus pensamentos estão tão inquietos quanto os meus. Respiro fundo e desacelero o passo, aliviada de vê-la. Caminhamos juntas pelos cinco quarteirões, quando ela para e abre o portão marrom da casa bege, a alguns metros da minha. Viro pra trás e trocamos um olhar cúmplice e um sorriso discreto, ambas agradecidas por termos nos encontrado.

Já em casa, de banho tomado e deitada na cama, olho pro teto e mergulho em pensamentos. Sou tomada por uma sensação de desamparo e frustração, simplesmente por ser mulher. Quão absurdo é o fato de precisar andar apressada, com as chaves nas mãos, o olhar atento e o coração acelerado? Quão torturante se torna uma caminhada de cinco quarteirões às dez da noite? Quão inquietante é ter a mente tomada por medo e ansiedade só pelo barulho de passos atrás de você em uma rua escura? Quão injusto é me sentir segura quando acompanhada de um homem que confio, mas completamente desprotegida ao andar sozinha? Não pelo medo de perder a bolsa, 20 reais ou o celular que está no bolso esquerdo da minha calça jeans, mas pela possibilidade de aparecer alguém que se sinta no direito de me encostar sem permissão e se apoderar de mim como se eu fosse um objeto; pela apreensão ao virar para trás e poder encontrar um homem pronto para tomar de mim aquilo que tenho de maior valor: meu corpo.

A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. Nessa noite, não fui eu, nem a vizinha que me acompanhou pelos cinco quarteirões e cujo nome eu nunca descobri. Nessa noite, não esbarramos com ninguém e conseguimos chegar no nosso destino. Mas é doloroso e desesperador saber que poderia ter acontecido com qualquer uma de nós e que, de fato, aconteceu com alguma mulher ao redor do país, nos nossos 11 minutos de caminhada de volta para casa.

Foto em destaque: petradr/Unsplash

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