Quando a alma adoece, o corpo padece

Idosos praticam hidroginástica

Por Camila Romão e Lucas Daniel

As condições de vida na sociedade pós-industrial melhoram exponencialmente em função dos investimentos feitos em saúde, infraestrutura e, até mesmo, em educação. Resultado disso é o desenvolvimento tecnológico, a difusão da escolarização e da mídia, mas principalmente o aumento da vida média da população. Esse último aspecto pode ser observado nos dados da pesquisa “Envelhecimento no século XXI: Celebração e Desafio”, realizada pelo Fundo de Populações das Nações Unidas (Unfpa), segundo a qual, em 2012, uma em cada nove pessoas no mundo possuíam 60 anos ou mais, totalizando 810 milhões de pessoas na terceira idade.

Essa mesma pesquisa projeta que, em menos de uma década, esse número chegará a um bilhão e então duplicará em 2050, quando os idosos serão 22% da população mundial. No Brasil, seguindo a tendência global, a quantidade de idosos só aumenta. Se em 2010 eles eram 10% da população, em 2050 deverão chegar a 30%, número equivalente a 64 milhões de pessoas.

Se, por um lado, os dados apontam que estamos vivendo mais, por outro, torna-se necessário analisar a qualidade de vida oferecida para a população que envelhece. Nesse sentido, a adoção de algumas medidas como políticas públicas, campanhas de saúde e conscientização e, até mesmo, o sistema de previdência social, tão questionado no Brasil nesses últimos tempos, podem ser tomados como parâmetro para analisar o bem estar social dessas pessoas.

Essa busca abre espaço para discussões como a proposta no Pacto pela Vida, de 2006, no qualo ciclo do envelhecimento é tratado como um tema fundamental na área de saúde. Outro marco dessa mudança de perspectiva é a criação do Estatuto do Idoso, em 2003, que passa a assegurar, por exemplo, o tratamento de saúde e a assistência de um salário mínimo para todo idoso que esteja na linha de pobreza. Outra preocupação considerada no Estatuto é a solidão, tendo estabelecido que mais de 30 dias sem visita configura abandono. Colocação pertinente se levado em consideração o estudo em que pesquisadores da Universidade de York concluíram que a solidão aumenta em 29% o risco de doenças coronarianas e em 32% o de acidentes vasculares.

A psicóloga clínica da Prefeitura  de Uberlândia, Juliana Assunção destaca que “enquanto na idade adulta a participação social e familiar costumam ser intensas e efetivas, no envelhecimento tendem a diminuir, favorecendo o isolamento social e a diminuição gradativa do convívio”. O  isolamento,  associado a outros fatores característicos dessa fase da vida como enfermidades crônicas, sentimentos de frustração, perdas de familiares e abandono do trabalho, pode desequilibrar a saúde emocional e física, impactando diretamente  na  qualidade de vida.

Essas afirmações vão ao encontro dos dados que o médico geriatra e professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Eduardo Ferriolli, relata em entrevista cedida à revista Espaço Aberto, da USP. Segundo ele, a determinação do estado de saúde de uma pessoa até sua oitava década de vida depende apenas 30% de fatores genéticos. Os outros 70% ficam por conta de hábitos, dieta, meio ambiente, atividade física, nível educacional, aspectos sociais e outros fatores modificáveis.

A depressão é um dos distúrbios psicológicos que impactam diretamente a qualidade de vida de idosos. Segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2010, realizada pelo IBGE, cerca de 9% da população apresentava características depressivas. ‘‘A depressão dos idosos está associada a causas endógenas, à dor crônica, à presença de várias moléstias crônicas, à incapacidade, à inatividade, à desestruturação do ambiente, à solidão, a eventos de vida estressantes’’, afirma a professora Anita Liberalesco Neri, que coordena grupo de pesquisa relacionada a terceira idade da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.

Maria de Abreu Dias é um exemplo de como a atividade física pode ajudar a manter a saúde física e mental na terceira idade. Ativa desde que teve complicações na sua primeira gravidez, hoje, aos 77 anos, segue com a rotina de exercícios e conta que já passou por diferentes modalidades, mas que encontrou na hidroginástica os benefícios que procurava.

Maria de Abreu Dias, de 77 anos, faz hidroginástica há mais de 16 anos. Produção: Camila Romão e Lucas Daniel

Um estudo realizado por pesquisadores da Unesp de Rio Claro (SP) e apresentado no artigo ‘‘Depressão no idoso: Diagnóstico, Tratamento e Benefícios da Atividade Física’ ressalta a criação de alternativas ou simplesmente caminhos de se contornar esse quadro, como por exemplo a psicoterapia, intervenção médica e diferentes exercícios físicos. Nesse sentido, a prática de exercícios físicos possui o papel de minimizar o sofrimento psicológico do idoso, propiciando interação psicossocial e, principalmente, elevação da auto-estima, além da prevenção e tratamento de outras problemáticas comuns na terceira idade, como hipertensão, diabetes, e diversas outras doenças crônicas.

A aposentada Olinda Fátima Silva, de 67 anos, após orientação médica, passou a realizar exercícios de alongamento duas vezes por semana e já aponta melhorias em sua qualidade de vida ‘‘Acho muito bom, depois que voltamos de lá a gente se sente novo, mais disposta para encarar o dia. Renova as energias’’. Esse parece ser o caminho encontrado por alguns idosos para contornar problemas de saúde e, consequentemente, melhorias de vida.

Segundo a psicóloga Juliana Assunção, ‘‘ao envelhecer, passamos por situações de sucessivas alterações biopsicossociais. Do ponto de vista biológico, há modificações comuns associadas ao declínio na atividade do corpo como enfraquecimento físico, dificuldades no funcionamento cognitivo, mudança da aparência e comprometimento da autonomia e independência, via adoecimento ou idade avançada’’. O processo de envelhecimento tende a reduzir a capacidade de desenvolvimento de atividades cognitivas e físicas. Porém, é necessário estimular a prática constante de atividades que trabalhem o corpo e a mente destes idosos.

Rosa Helena do Morais Santos, 56 anos, e Ronan Bueno dos Santos,  62 anos, praticam atividade física pensando no bem estar e na saúde. Produção: Camila Romão e Lucas Daniel.

ALIVE INSIDE

Dan Cohen é o fundador da organização sem fins lucrativos Música e Memória. O grupo luta para provar que a música tem capacidade de combater a perda de memória, trazendo identidade para pessoas depressivas ou com problemas de esquecimento. Este documentário, além de contar com depoimentos de especialistas, mostra experiências de vários americanos que testemunharam a diferença que a música faz.

https://youtu.be/fVkrI1R0XjA

 

 

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