30 anos da defesa de um tratamento humanizado

Por Isabela Silveira e Jhyenne Gomes

As cenas de um Brasil que reproduzia, menos de duas décadas depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o modelo dos campos de concentração nazistas. […] Homens vestiam uniformes esfarrapados, tinham as cabeças raspadas e pés descalços. Muitos, porém, estavam nus. Luiz Alfredo viu um deles se agachar e beber água do esgoto que jorrava sobre o pátio e inundava o chão do pavilhão feminino. Nas banheiras coletivas havia fezes e urina no lugar de água. Ainda no pátio, ele presenciou o momento em que carnes eram cortadas no chão. O cheiro era detestável, assim como o ambiente, pois os urubus espreitavam a todo instante.

A situação acima foi presenciada pelo fotógrafo Luiz Alfredo, da extinta revista O Cruzeiro, em 1961, e está descrita no livro-reportagem Holocausto Brasileiro, publicado em 2013 pela jornalista Daniela Arbex. A obra conta a história do maior hospício do Brasil, que ficou conhecido como Colônia, localizado na cidade mineira de Barbacena. O hospital psiquiátrico levou esse nome por ter abrigado atos de crueldade parecidos com os que aconteceram na Alemanha nazista, durante a Segunda Guerra Mundial.

O Colônia foi inaugurado em 1903 e continua aberto até hoje, mas o período de maior barbárie aconteceu entre 1930 e 1980. Segundo o livro-reportagem, cerca de 70% das pessoas internadas não tinham diagnóstico de sofrimento mental. O local foi criado para atender pessoas com esses distúrbios, mas acabou sendo usado como depósito de pessoas indesejadas socialmente, como gays, negros, prostitutas e comunistas.

Em meio ao cenário exemplificado no livro de Arbex, surgiu, nos anos 1980, o Movimento da Luta Antimanicomial. Com o lema “por uma sociedade sem manicômios”, o movimento começou a defender reformas no sistema de atendimento psiquiátrico do país, buscando alternativas que não focassem na internação hospitalar.

Mais tarde, em 2001, foi aprovada a lei 10.216, chamada Lei da Reforma Psiquiátrica ou Lei Paulo Delgado, e fechar hospitais psiquiátricos virou política de Estado. Desde então, o modelo tem sido substituído pelo tratamento em liberdade, numa rede de atendimento psicossocial cujo objetivo é recuperar a cidadania de pessoas com questões de saúde mental e reinseri-las na sociedade.

Arte sim, violência não

Os tratamentos alternativos para pessoas com problemas de saúde mental não foram “inventados” com a lei da Reforma Psiquiátrica de 2001. Na década de 1940, a médica psiquiátrica Nise da Silveira defendia a arte como principal ferramenta de reintegração de pacientes chamados “loucos”, como mostra o filme Nise – O coração da Loucura (2016). Essa mulher se rebelou contra a psiquiatria da época, que aplicava violentos choques para “acalmar” os pacientes, e propôs um tratamento humanizado que usava a arte para sua reabilitação.

Nise percebeu que as artes plásticas eram um canal de comunicação com os pacientes em sofrimento mental, que até então não se comunicavam verbalmente. As obras produzidas por eles davam voz aos conflitos internos que viviam. Ela se tornou o grande nome da Terapia Ocupacional.

http://www.youtube.com/watch?v=UeAUNvcM_xk

Uma abordagem mais humana

Como alternativa para o fim dos manicômios, o governo instituiu algumas medidas como a implantação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), para tratamento de deficientes intelectuais e dependentes químicos. Os CAPS têm como linha de trabalho a redução de danos, realizado através de reuniões de grupos, atividades culturais e oficinas. O tratamento é feito com uma rede de apoio composta por médicos, psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais. Os familiares também constituem parte importante para o processo.

Stefânia Gonçalves, terapeuta ocupacional graduada pela UFSCar e residente do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, conta que os atendimentos realizados pelos CAPS são realizados em grupo, tratando além das questões individuais do sujeito. “Trabalhar as questões do grupo significa construir estratégias para melhorar habilidades sociais, cooperação, empatia e a formação de uma rede de suporte dentro do próprio serviço”, explica.

Joaquim* conta que não acreditava na eficiência de um programa baseado na redução de danos. Ele acreditava que não conseguiria se manter longe do vício apenas indo ao CAPS para participar de palestra e outras atividades. “Eu estava enganado, sinto falta quando não tem. Precisava preservar lugares como o CAPS, porque é melhor do que ficar trancado e depois ter que sair e lidar com a realidade”.

Família e comunidade integradas ao tratamento

O CAPS AD, modalidade do CAPS voltada para dependentes químicos, realiza  duas linhas de acompanhamento, uma com o paciente e outra com a família. Para os pacientes, o tratamento segue a perspectiva de reinserção social, com grupos informativos sobre acesso ao mercado de trabalho, cursos profissionalizantes e assuntos diversos que buscam a reinserção social. A assistente social Márcia Ferreira dos Santos lembra que o CAPS é uma unidade aberta, onde o paciente vai para tratamento mas precisa continuar com seu vínculo na comunidade.

Com os familiares, é discutida a perspectiva da codependência, porque inevitavelmente o familiar acaba adoecendo junto com o paciente.

“O CAPS é uma unidade aberta, então o paciente vem para tratamento mas precisa continuar com seu vínculo na comunidade” – Márcia Ferreira do Santos, assistente social.

Segundo as assistentes sociais Rosimeire Aparecida Costa e Márcia Ferreira dos Santos, a primeira dificuldade encontrada ao lidar com a família dos frequentadores do CAPS é a falta de conhecimento sobre a doença e o preconceito já enraizado, como se tudo fosse questão de caráter. Em seguida, vem a questão de que a família, muitas vezes, já tentou de diversas maneiras que o doente recebesse tratamento, mesmo que de forma forçada, gerando cansaço e desistência após as tentativas frustradas.

São apresentadas histórias, dados e informações sobre a dependência, o que culmina em uma roda de conversa na qual, por vezes, os familiares sentem-se à vontade para compartilhar suas angústias. Esses grupos são divididos entre familiares e pacientes para que suas expressões e compartilhamentos não sejam inibidos.

As assistentes sociais relembram os bons resultados desta abordagem, como o caso do paciente que chegou ao CAPS muito angustiado porque a família não entendia que o vício em álcool é doença. “Trabalhamos isso no grupo de família e a esposa dele começou a entender e a ver ele de forma diferente. Ele veio falar de como é bom finalmente ser compreendido e como isso o motiva a continuar o tratamento.”

 

“Ele veio falar de como é bom finalmente ser compreendido e como isso o motiva a continuar o tratamento”. – Márcia Ferreira do Santos, assistente social.

 

Outro modo de terapia

“Os atendimentos domiciliares são, em sua maioria, individuais, voltados para aqueles pacientes que não conseguem ou não podem deixar o domicílio por diversas razões particulares”, explica a terapeuta ocupacional Stefânia Gonçalves, que atua na cidade de Amparo (SP).   Segundo ela, o tratamento nesse espaço é mais voltado a trabalhar as questões daquele indivíduo propriamente dito, construindo estratégias para que ele possa retornar a realizar suas atividades cotidianas com o melhor desempenho possível.

Gonçalves diz não poder afirmar qual tratamento ambulatorial é mais ou menos eficaz, pois é necessário avaliar cada paciente individualmente a fim de compreender quais as demandas e estabelecer um plano terapêutico que consiga solucionar da melhor forma as questões trazidas pelo usuário.

Apesar dos avanços nos últimos anos, a adesão por tratamentos ambulatoriais, como o CAPS, e mesmo aos atendimentos em casa ainda está “engatinhando”. A terapeuta ocupacional alerta que uma das causas para o fato é, em partes, a mídia. Na opinião da terapeuta, os veículos de comunicação ainda falam muito pouco sobre as questões de saúde mental, dificultando a busca por tratamento. “Temos um crescimento exponencial de afastamentos no trabalho por depressão e ansiedade, além das altíssimas taxas de suicídio. E, mesmo com as campanhas e datas comemorativas como Setembro Amarelo, Abril Azul, 18 de maio, dia da Luta Antimanicomial, ainda acredito que a causa tem baixa visibilidade”, aponta.  Para ela, é necessário que a saúde mental e o sofrimento emocional sejam tratados de forma mais leve, fazendo com que as pessoas compreendam que precisam de cuidados como qualquer outra condição de saúde.

A arte imita a vida

Asilo Arkham. Imagem: Reprodução/Movie Pilot

É comum as histórias em quadrinhos recorrem a transtornos mentais para caracterizar os seus vilões mais memoráveis. Nas HQs do Batman, por exemplo, Coringa, Arlequina e outros criminosos insanos são conduzidos ao hospital psiquiátrico de Gotham City, o Asilo Arkham.

Mais que um manicômio judiciário, o Asilo Arkham existe por necessidade social de separar os “criminosos loucos” com o intuito de proteção da cidade. Tradicionalmente, no imaginário social da vida real, quando alguém comete um crime é comum dizer que a pessoa o fez porque “perdeu a cabeça”.

Até mesmo o uso da palavra “asilo” implica no entendimento de que os considerados loucos são trancafiados sem tratamento e com pouca esperança de voltar a viver em sociedade. A palavra asilo, que vem do inglês asylum, pode também ser traduzida como manicômio.

Cracolândia: brutalidade é a solução?

Domingo, 21 de maio de 2017. Várias fotos da truculência e desespero na ação da Prefeitura de São Paulo e do governo estadual para desmantelar a Cracolândia circulam pelas redes sociais. A ação, que faz parte do programa Redenção, da atual gestão municipal de João Dória (PSDB), foi calcada na ação policial para tentar dispersar os moradores daquele local, queimando barracas e pertences pessoais. Mais de cinquenta pessoas foram presas naquele domingo.

Criticado por médicos, especialistas, figuras públicas e sociedade em geral, o prefeito João Dória divulgou um vídeo em sua rede social para se defender das críticas e falar sobre o programa. Segundo o mestre em Saúde Comunitária e especialista em saúde mental Guilherme Gregório, o grande pecado foi o prefeito Dória querer que o judiciário “bancasse’ uma ação baseada em um atestado em branco que, de antemão, diria que a ação proposta por ele estaria correta. Porém, nem o próprio Estado age assim. A lei 10.216 segue um protocolo pelo qual o caso é avaliado e, se o paciente tiver recomendação de internação, mas não concordar, esta se torna involuntária. Para se tornar involuntária, alguém precisa tomar uma decisão pelo outro. Para fazer isso, é melhor ter a intervenção do Estado em sua outra vertente, que é o judiciário. Assim são resguardados a lei e o direito à cidadania.

“Você não nasceu doente, você está doente”

Psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e residentes de Medicina se reúnem semanalmente para discutir e analisar os casos e o acompanhamento que o CAPS tem realizado.

Pedrinho* perdeu seus pais no começo da juventude, e o único vínculo familiar restante já não o apoia, devido ao desgaste da relação. Jovem, com menos de trinta anos, atualmente vive em situação de rua. A equipe do CAPS relata que ele já passou por mais ou menos dezesseis centros de acolhimento na cidade de Uberlândia e nunca encontrou um tratamento eficiente. Com dificuldades para se adaptar às normas dos locais, optou por viver na rua, e só retorna a buscar abrigo quando precisa de um canto para dormir, uma água quente para o banho ou um prato de comida.  

As passagens de Joaquim* pelo CAPS começaram há quase um ano e meio, com idas esporádicas a procura de um lugar para descansar. Nunca se interessou pelas reuniões ou pelos momentos de socialização. O ponto central da discussão do seu caso era: o que o CAPS está fazendo para ajudar esse homem? A resposta depende de vários fatores, mas os profissionais chegaram a, pelo menos, duas linhas de trabalho para o tratamento de Joaquim nos próximos dias: recorrer ao apoio familiar e a atividades culturais, que voltem a despertar seu interesse pela música, pensando no seu bem-estar.

Contudo, agora a história se escreve diferente. Os recursos são capazes de uma reintegração, uma conquista, a busca de dignidade, de posição junto à sociedade. Afinal, como diz João: “você não nasceu doente, você está doente”.

*Nomes fictícios para proteger a identidade dos personagens

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