Da cannabis à morte do humor

Por Pedro Henrique Silva

A doença de Alzheimer é maior causa de demência relacionada a perda de memória e mudanças comportamentais em todo o mundo. As causas até então descobertas estão relacionadas à morte de neurônios do tecido cerebral e os tratamentos preveem melhoras, mas, segundo especialistas como o neurologista e especialista em neurologia cognitiva e do comportamento Márcio Balthazar, ainda não há perspectivas positivas a respeito da cura completa da doença.

O Alzheimer é uma doença degenerativa e normalmente diagnosticada após os 65 anos. Contudo, cerca de três quartos dos afetados pela doença no mundo ainda não foram diagnosticados, segundo pesquisa do Alzheimer’s Disease International, órgão de relação oficial com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Segundo Balthazar, a perspectiva para o Brasil não é das melhores. A população está envelhecendo e fatores de risco conhecidos como hipertensão, diabetes, dislipidemia, tabagismo e sedentarismo são muito comumente banalizados em nosso país.

Os sintomas são vários e vão desde o esquecimento rápido de ações simples e aumento da agressividade até sensação de perseguição. De acordo com a classificação do Ministério da Saúde, a doença é dividida em estágios de evolução, partindo do inicial, que compreende aumento da perda de memória, até o terminal, no qual o paciente perde completamente a memória e se torna dependente de terceiros para realizar tarefas cotidianas como se alimentar ou tomar banho.

“A ATV é uma das responsáveis por distribuir dopamina para a área de gratificação do cérebro, indicando alto grau de relação com o Alzheimer e a depressão. Terapias que elevam a substância aumentam a motivação e a memória.”

O avanço da medicina, felizmente, tem permitido novas expectativas a respeito do Alzheimer. Pesquisas sobre a causa da doença e o surgimento de tratamentos alternativos não só colaboram para o progresso em direção à cura da patologia, como ajudam a promover uma melhora significativa no bem-estar dos pacientes diagnosticados.  

Uma pesquisa italiana dirigida pelo professor Marcello D’amelio, na Universidade Campus Biomédico de Roma, afirma que o Alzhiemer está ligado à morte de neurônios do humor . Diferente do que se pensava antes, a doença não surge na área do cérebro responsável pela memória. A pesquisa foi publicada na revista Nature Communications no dia 3 de abril deste ano.

O estudo evidencia que a doença surge na Área Tegmental Ventral (ATV), onde são produzidos neurotransmissores como a dopamina, responsável pelo humor. D’amelio classifica esse transtorno como uma reação em cadeia: com a degeneração dos neurônios do humor, o índice de dopamina que chega no hipocampo é reduzido, o que causa sintomas como a perda de memória. Inicialmente, os testes envolvem apenas animais.

A ATV também é responsável por distribuir dopamina para a área de gratificação do cérebro, o que pode indicar o alto grau de relação entre o aparecimento do Alzheimer e a depressão. Nos testes de D’amello, foi verificado certo aumento da motivação e da memória em animais que passaram por terapias para elevação do nível de dopamina nessas áreas do cérebro.  

A pesquisa traz mais uma possibilidade dentre muitas outras conhecidas e, no longo prazo, pode indicar novas perspectivas para o tratamento da doença. Mesmo sendo testada apenas em animais até então, a descoberta pode contribuir para traçar o caminho da cura do mal. E quem sabe ela não esteja na tão temida e estigmatizada maconha?

A discussão sobre o uso da Cannabis para fins medicinais foi reacendida recentemente. Em abril deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) autorizou a utilização do óleo de cânhamo Real Scientific Hemp Oil (RHSO), produzido pela farmacêutica americana HempMeds. Trata-se de um medicamento à base de canabidiol para pacientes em tratamento da doença de Alzheimer.

O óleo de cânhamo disponibilizado pela HempMeds seria responsável por frear os sintomas do Alzheimer. Segundo a empresa, que é estadunidense, ainda não existe nenhuma instituição brasileira autorizada a vender em solo nacional produtos derivados do canabidiol, mas oferece suporte para que pacientes importem o canabidiol.

Porém, no Brasil, o uso da maconha medicinal ainda é um tabu para representantes de órgãos responsáveis e até mesmo para uma parcela da população. O caso de Anny Fisher, em 2014, nos ensinou muito sobre o poder benéfico da maconha, mas parece que não o bastante para romper barreiras arcaicas.  

Os estudos sobre a Cannabis sativa tiveram um salto em 1964, em Israel, quando o pesquisador Raphael Mechoulan, da Universidade de Tel Aviv, extraiu da planta o que foi chamado de delta-9-tetraidocanabinol, o THC, responsável pelo efeito da planta no corpo. Veja matéria completa na Superinteressante.

Desde então, estudos voltados a novas descobertas a respeito dos efeitos e possibilidades no uso da erva têm sido desenvolvidos para que o que conhecemos como maconha também pudesse ser usado como remédio para tratamento do Alzheimer, por exemplo.

A Cannabis medicinal no Brasil. Infográfico: Bianca Félix

O óleo de cânhamo pode ter um papel benéfico para parte dos pacientes, mas isso deve ser mais bem estabelecido por pesquisas com níveis de evidência mais altos. Ainda com tantas restrições, as novas permissões a respeito dos derivados da maconha já significam um avanço relevante em um país onde a discussão sobre drogas ainda é tão conservadora.

É preciso pensar: até que ponto esse tabu irá continuar? Pesquisas foram desenvolvidas, o avanço foi prometido, mas persiste um preconceito aceso. O Alzheimer pode ainda não ter cura, mas a solução pode estar onde muitos não querem mexer. O critério é nosso. Ou nos mata ou nos matamos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: