Cuidado com o que você pensa

Por Halyson Vieira

Na ficha técnica do artista mais frustrado de todo o século XX, são creditadas quase 10 milhões de mortes causadas praticamente por suas próprias mãos. O tenebroso Führer, que atende pelo nome de Adolf Hitler, era um pintor talentoso, no melhor estilo padrãozinho da pintura europeia urbana da época, que vivia um regozijo de vanguardas. Por esse motivo  e pela tradição vanguardista-quase-repressora de toda a academia,  a Arte enquanto disciplina acadêmica não costuma aceitar nada abaixo de mirabolante: uma regra básica para que seja estabelecido um padrão de qualidade sólido para as instituições. Ao tentar se tornar parte de uma delas, Hitler obviamente levou um “não” dos grandes na cara – e esse é um dos motivos aos quais se atribui o massacre.

Mas e se Hitler tivesse sido aceito na academia de artes? Teria acontecido a Segunda Guerra Mundial? Receio que sim, e todos teriam morrido da mesma maneira. Que insensibilidade da minha parte. Não… Não foi só a obsessão, a “loucura”. Não foi o trauma. Não foi a frustração de uma pessoa só, sozinha, que foi esperta o suficiente para “alienar” (ainda usam esse termo?) a população na época. Assim como na música, a guerra funciona como uma orquestra. São várias pessoas envolvidas, que, para executarem bem o que se sentem felizes fazendo, devem compartilhar de valores que sejam minimamente comuns a todos os instrumentistas, mesmo antes de se sentirem dispostas a ensaiar, praticar e devotarem-se à causa. A verdade é que não foi um maestro do caos que motivou as pessoas sozinho com toda sua habilidade de regência, mas – pasme – exatamente o contrário: os cidadãos de bem da alta sociedade alemã, que arrancaram o mato para o diabo desfilar.

Pessoas como Hitler não descem de uma caravana extraterrestre destinada a conquistar a terra e espalhar o mal – se convencionarmos que maus eles são. Antes de tudo eles são pessoas, assim como eu e você, que dependeram, infelizmente, de outras pessoas inseridas em outros sistemas, compostos por pessoas que pensam como pessoas, para serem formados enquanto pessoas. Mesmo sem consciência disso, a culpa da guerra é dos cidadãos comuns que, em diferentes níveis de profundidade, atendiam a um mesmo anseio coletivo purista na época. Soa familiar? Estamos assistindo a um processo semelhante no Brasil atual: Jair Bolsonaro, por exemplo, é o alter ego mais vívido de uma parte da população que já não aguenta mais ver a liberdade que liberta os outros que eles odeiam e impõe valores que a eles foram ensinados por outras pessoas como corretos.

Seria Bolsonaro o novo Hitler? Não é isso que quero dizer. Ambos são minotauros, numa simbiose perfeita de ser humano com bode expiatório de nós mesmos enquanto sociedade. Deles somos comparsas, neles encontramos representatividade para as atrocidades em que, silenciosamente, imaginamos. Eles só têm a coragem de falar publicamente o que, caladinhos, nós já pensamos – e isso torna tudo mais heroico.

Seria Bolsonaro o novo Hitler? Não é isso que quero dizer. Ambos são minotauros, numa simbiose perfeita de ser humano com bode expiatório de nós mesmos enquanto sociedade.

De forma poética, quero dizer que a soberania do povo sempre existiu para a glória e para a escória. O problema é que a nossa falta de cuidado com nossos próprios pensamentos acaricia demônios em potencial, adormecidos até que se peça gentilmente, silenciosamente, para que eles acordem. Se não tivesse sido Hitler, a batata da purificação teria esquentado nas mãos de outro imbecil impetuoso. Se não fosse Bolsonaro, algum outro maluco representaria no Brasil a parcela que conserva a intolerância com formol.

Cuidado com o que você pensa, faz ou fala. Migalha a migalha, podemos estar alimentando o ego de um monstro social capaz de encenar de verdade a parte mais dantesca de nossas mentes, da pior forma possível.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: