VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO

Por Marina Pagliari

“Você vai começar a sentir coisas estranhas…
Você sentirá neve no meio do verão, chuva onde não tem uma nuvem no céu.
Você vai sentir raiva e alegria e dor… e prazer, sem nenhuma razão”
– Sense8

Como uma sábia amiga me disse essa semana: “Eu nem entendi a série ainda, e ela já foi cancelada”, esse é o sentimento que fica com o fim de “Sense8″.

Se por acaso você estava vivendo isolado em uma montanha, vou tentar explicar um pouco do que consegui absorver do seriado. Atenção: TEM MUITO SPOILER!

A narrativa gira em torno de Homos Sensoriums, apelidados de sensates.

Os 8 protagonistas fazem parte dessa espécie: Nomi, poderosíssima super hacker nos Estados Unidos; Will, o policial americano que passa vários episódios dopado de heroína (irônico, eu sei); Riley Blue, DJ/hipster/sofredora, originária da Islândia; Kala, a farmacêutica indiana rebelde; Wolfang, o alemão envolvido com a máfia russa; Sun, ex empresária/atual presidiária na Coreia do Sul; Capheus, queniano motorista do transporte público alternativo mais insano da história da televisão; e Lito, o ator mexicano homossexual com emoções a flor da pele.

Sim, os personagens são bem exóticos, e acredite, fui o mais breve possível.

Essas pessoas são capazes de se comunicar apenas com a mente, conseguem teletransportar seu espírito ao redor do mundo para ajudar uns aos outros. Por exemplo, quando a vida de Sun depende de dirigir uma moto, Capheus assume o comando e salva sua irmã sensate.

Foto: Reprodução / Netflix

Durante o segundo ano do seriado é explicado como nascem esses Homos Sensoriums. Cada cluster, como é chamado o grupo de sensates que são conectados, tem uma única mãe ‘espiritual’, que dá a luz à todos eles no exato mesmo momento. Isso é apenas uma, entre várias coisas, que ficam confusas na trama. Há uma cena em que Angélica, a mãe dos nossos protagonistas, está, literalmente, parindo. O que fica subentendido é que o nascimento é, na verdade, um despertar. Os indivíduos já existem, porém como Homo Sapiens, e, depois do parto, se tornam Sensorium.

Se você está achando confuso até aqui, quer dizer que está lendo o texto da maneira certa.

Vamos ao problema central da série, ou pelo menos, o que acho que é. A Organização de Preservação Biológica (OPB), liderada por um Homo Sensorium conhecido como Sussuros (Whispers), que tenta controlar todos da espécie. O homem é capaz de se conectar com qualquer sensate, mas não de maneira bem-intencionada. Quando Will olha diretamente nos olhos de Whispers, este começa a invadir sua mente. É por isso que o policial passa parte da 2ª temporada dopado, é a única forma que encontra de proteger as informações que possui.

Resumindo, e bastante, é isso. Se você entendeu alguma coisa, por favor, me explique, ainda estou em tela azul. Não me leve a mal, sou apaixonada pelo seriado, mas a minha opinião é que a Netflix tentou abraçar o mundo, e caiu de cara no chão no caminho. O problema de uma série tão intensa quanto Sense8 é que quando ela erra, é quase irremediável, mas, quando acerta, é digna de ser aplaudida de pé. E é nos louvores que quero chegar.

Não me lembro de outro conteúdo que seja tão democrático. Todos têm lugar na produção, e o melhor exemplo disso é o namoro de Nomi e Amanita. A primeira é uma mulher trans, o que quer dizer que nasceu do sexo masculino, mas não se sentia representada por ele. Já Amanita é uma mulher cis, que se identifica com o gênero que nasceu, mas sua família é diferente do núcleo ‘pai-mãe’, é composta, na verdade, por três pais e uma mãe.

O relacionamento entre elas é inspirador. Ver aquelas mulheres se apoiando em suas dificuldades, enfrentando preconceitos (devo mencionar que, além de tudo, Nomi é branca e Amanita é negra), compreendendo as diferenças entre si, e até mesmo fugindo de perseguidores que não aprovam essa nova realidade é emocionante. Elas são parte de algo novo, que deve ser aceito e respeitado.

Lito Rodriguez é internacionalmente famoso por seus filmes, em que interpreta homens viris, fortes e toda essa historinha de reafirmação de sua própria masculinidade. Rodriguez tem vergonha de sua sexualidade, por isso esconde seu namoro real com Hernando, por medo de destruir sua carreira, o ator mantém um relacionamento de fachada com Dani.

Na segunda temporada, após toda a mídia descobrir sua homossexualidade, Lito recebe uma proposta para discursar na parada gay de São Paulo. Somente Nomi consegue o convencer de ir. Por meio de sua conexão sensate, a hacker consegue transmitir tudo o que sente, as dificuldades e alegrias que vive por ser assumida e viver sua opção sexual como quiser, sem medo de rótulos e enfrentando julgamentos. O discurso do ator é inspirador, se você não viu, veja:

Enquanto Rodriguez abre seu coração, no momento mais assustador de sua vida, todos os sensates estão ao seu lado. Riley, Will, Capheus, Kala, Sun, Nomi e Wolfang estão em cima do palco, gritando e aplaudindo, dando todo o apoio que ele precisa, mesmo que nem todos façam parte daquela realidade que luta pela causa LGBT.

E essa é a maior lição que Sense8 pode nos dar. Você pode ser parte de um casal hétero, composto por duas pessoas brancas, como Riley e Will ou pode ser um casal lésbico inter-racial, como Nomi e Amanita; pode ser uma asiática que deseja se vingar de seu irmão ou pode ser um africano que luta para manter sua mãe viva; pode ser uma mulher empoderada presa num casamento, ou pode ser um homem que sonha em ser feliz, mas não consegue sair da vida de ladrão; o essencial não é o que o diferencia do outro.

O que realmente faz diferença é estar conectado com alguém, independente de redes sociais e internet. Os Homo Sensoriums nos ensinam melhor do que ninguém, a nos colocar no lugar das pessoas, e abraça-las como se disséssemos: “você não está sozinho”.

Parando para pensar, essa série, que é tão louca, ousada, irreverente e polêmica representa um dos maiores clichês bíblicos: “ame o próximo como a ti mesmo”. Durmam com essa!

Quando se trata de Sense8 é nosso direito de espectador ficar chateado com o cancelamento, devemos criticar todos os enredos confusos cheios de pontas soltas, bem como podemos sentir saudade dos personagens pelos quais nos apaixonamos. Porém, ao menos para mim, o mais importante é que a gente aprenda com essas maravilhosas pessoas ficcionais uma coisa que há muito se perdeu: a empatia.

Obrigada Sense8, por ser uma série de aquecer o coração. E até mais.

Foto: Reprodução / Netflix

“I realized quickly, when I knew I should
that the world was made up of this brotherhood of man.
For whatever that means”
– What’s Up  (4 Non Blondes)

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