UNIDAS POR UMA HASHTAG

Por Giovanna Tedeschi

Em tempos em que a internet parece pura fonte de ódio, pode ser difícil acreditar que a rede foi protagonista na mudança de olhar ocorrida recentemente em relação à violência contra a mulher. Com a disseminação do feminismo em sites, blogs e mídias sociais online, a militância conseguiu atingir outros espaços mais tradicionais, como programas de TV, e o mundo parece cada vez mais conscientizado das pautas que exigem igualdade e respeito entre homens e mulheres.

Exemplo recente é o caso José Mayer em que a figurinista Susllem Tonani publicou no blog #Agoraéquesãoelas, da Folha de S. Paulo, texto denunciando episódios de assédio cometidos pelo ator. A funcionária da Rede Globo relatou diversos ocasiões em que Mayer a teria constrangido, durante as gravações da novela A Lei do Amor.

Foto: Reprodução / Instagram de Cissa Guimarães

A declaração gerou grande repercussão, com acusações tanto direcionadas à Tonani quanto ao ator, que primeiramente negou as acusações. A polêmica gerada fez até mesmo com que a publicação em forma de denúncia fosse retirada do ar. Mesmo assim, a pressão de internautas gerou novas consequências. Quase imediatamente, começou a circular na internet o boato de que a Globo teria afastado o ator de uma nova novela, o que foi confirmado pela emissora poucos dias depois. Além disso, diversas profissionais publicaram imagens com os dizeres “mexeu com uma, mexeu com todas” como forma de apoio à figurinista e outras vítimas de assédio. O caso ganhou, inclusive, destaque na mídia internacional, sendo mencionado no jornal norte-americano The New York Times.

Após tamanha efervescência, Mayer emitiu uma nota admitindo o assédio. No texto afirmou responsabilidade pelos acontecimentos: “Mesmo não tendo tido a intenção de ofender, agredir ou desrespeitar, admito que minhas brincadeiras de cunho machista ultrapassaram os limites do respeito com que devo tratar minhas colegas. Sou responsável pelo que faço”, em palavras do ator.

Outro caso que gerou bastante repercussão na web e fora dela, envolveu dois participantes do reality show Big Brother Brasil, também exibido pela Rede Globo. O participante Marcos Harter foi acusado de agredir física, moral e verbalmente sua então namorada Emily Araújo. As agressões televisionadas foram responsáveis por tornar pública a discussão sobre relacionamento abusivo e diferentes tipos de violência contra a mulher.

Foto: Reprodução / Rede Globo

Em um primeiro momento, a emissora não se posicionou sobre o caso, apenas advertiu os participantes, afirmando que o relacionamento “os preocupava”. A omissão da direção do programa não impediu que dias depois uma equipe da Polícia Civil comparecesse ao local onde é realizado o reality, colhendo depoimentos e exames de corpo de delito tanto de Marcos, quanto de Emily. A partir das informações coletadas pelas autoridades, constatou-se que houve abuso. Harter foi expulso do programa e denunciado por agressão física e terror psicológico.

O caso continua em investigação, mas trouxe frutos positivos. Além da repercussão e discussão do problema em diferentes meios, impulsionou a criação da hashtag #EuViviUmRelacionamentoAbusivo, que deu espaço a inúmeros relatos e possibilitou apoio e reconhecimento a vítimas que estiveram expostas à violência contra a mulher em suas diferentes formas.

INTERNET E FEMINISMO: ESSA HISTÓRIA NÃO É DE HOJE

Utilizada com espaço alternativo em relação à grande mídia, a internet já vem sendo ferramenta importante na luta feminista antes mesmo de ter interferido nos dois casos de notoriedade televisiva ocorridos nos últimos meses. Nesse contexto, o ano de 2015 se destaca como o boom da popularização online de discussões feministas.

Nesse ano foi criada a página “Vamos Juntas?”, iniciativa da jornalista Babi Souza. O objetivo do projeto é divulgar situações diárias de assédio, além de motivar mulheres a apoiarem umas às outras. A ideia se ampara no conceito sororidade, que incentiva a união ou aliança feminina, e deu tão certo que gerou uma empresa que pretende impulsionar negócios geridos por empreendedoras, um livro de nome homônimo à fanppage e uma parceria com a 99 (antiga 99 Taxi), que a partir de então promove ações contra o abuso conscientizando taxistas.

Na tag #AskHerMore, também utilizada em 2015, as internautas reivindicavam perguntas mais relevantes às atrizes que participaram de premiações como o Oscar. A iniciativa questionava a diferença entre as perguntas direcionadas às atrizes e outras profissionais do cinema, majoritariamente ligadas à esfera privada ou a seus vestidos, maquiagem e acessórios, e as questões elaboradas para os homens, que proporcionam a oportunidade de atores, diretores e produtores discorrerem sobre seus projetos atuais e futuros na profissão.

Já a tag #primeiroassedio ganhou força após Valentina, participante do programa Masterchef Jr, da Rede Bandeirantes, e com 12 anos na época, ser alvo de diversos comentários de cunho sexual. Para discutir o assunto, o coletivo feminista Think Olga criou a hashtag, estimulando o desabafo de mais 82 mil mulheres, que relataram experiências de assédio na infância e pré-adolescência. A ação também gerou um livro de mesmo nome.

Outro caso de sucesso ocorrido em 2015 foi a palavra-chave #meuamigosecreto. A iniciativa se aproveitou do período de festas e brincadeiras natalinas para denunciar atitudes machistas de colegas e familiares, sem citar seus nomes. As práticas, muitas vezes consideradas naturais, foram colocadas em evidência por meio dessa hashtag.

O mesmo ano foi data de nascimento do aplicativo SaiPraLá, criado pela estudante Catharina Doria para facilitar e catalogar denúncias de abuso. O app está disponível para sistemas Android e iOS, para utilizá-lo é só inserir a localização, o período do dia e o tipo de ocorrência, tudo de forma anônima. Segundo as criadoras, além de conscientizar a população, “o intuito do aplicativo é mapear o assédio e atuar na prevenção, pressionando os órgãos responsáveis pela nossa segurança e mostrar para as mulheres quais são os locais onde mais ocorrem assédios”.

Estatísticas do app Sai pra Lá (Foto: Divulgação)

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