ROTINAS TECNOLÓGICAS

Por David Rodrigues

Nunca pensei muito em como seria ficar impossibilitado de usar meu celular porque, até o momento, não era uma realidade tangível e, muito menos, assustadora. Não era assim até acontecer.

Acordei tateando, ainda deitado e de olhos fechados, em busca de meu celular que eu deixara em cima do criado mudo na noite anterior antes de dormir. Era meu ritual diário checar as notificações de minhas redes sociais para, apenas depois, me levantar e cumprir com minha rotina. Facebook, Instagram, Twitter e WhatsApp. Naquele dia, porém, havia algo errado. A tela estava completamente apagada e apesar de inúmeras tentativas, ela não ligava de jeito nenhum. Pensei que tivesse me esquecido de colocá-lo para carregar, mas esse pensamento durou somente uns poucos segundos. Mais tarde, quando o levei à assistência técnica, descobri que seu problema era um conector de carga com defeito.

Saí e fui para a faculdade. Entre uma explicação ou outra do professor, estendia minha mão até minha mochila procurando por meu telefone por causa do hábito de sempre tê-lo ali. No entanto, no meio do caminho, lembrei que meu aparelho ainda demoraria um bom tempo para sair do conserto. Corei de vergonha por causa disso e jurei para mim mesmo que conseguiria permanecer sem acesso àquela tecnologia por quanto tempo fosse necessário. Porém, fui traído por meus pensamentos ao imaginar quantas curtidas já teria a foto que eu havia postado no Instagram pouco antes de dormir.

Na hora do almoço, como de costume, me sentei à mesa com meus amigos. Tentei conversar com eles enquanto comíamos, mas logo percebi que não seria possível. Todos estavam concentrados no que quer que estivesse na tela de seus celulares e, quando um deles escutava o que eu tentava falar, tinha apenas uma parte quase nula de atenção. Ninguém conversava; só comiam, digitavam e curtiam publicações.

Foto: Sobrevivência Android

Cheguei em casa e cumprimentei a menina que morava comigo. Ela nem me olhou e pronunciou um “oi” distante, inexpressivo. Naquele momento, me lembrei das várias vezes em que eu dissera “bom dia” ao encontrá-la na cozinha todas as manhãs e ela me respondera da mesma forma por estar prestando atenção nas notificações que chegavam em seu aparelho celular.

Dias depois, numa ida ao shopping, percebi que o cenário era mais caótico do que eu pensava. Casais caminhavam juntos, porém estavam com o parceiro apenas fisicamente. Famílias não conversavam entre si, pois seus membros estavam concentrados em partidas de jogos, rolar o feed do Facebook e do Instagram, compartilhar um tweet engraçado e alimentar as infindáveis janelas de conversa no WhatsApp. Eles mantinham contato com outras pessoas, contudo,com aquelas que estavam do seu lado, o contato era escasso. Em outros casos, ele nem existia. E eu sabia que quando tinha meu celular, minha conduta era exatamente a mesma porque conseguia me lembrar de reclamações de meus pais em relação a isso.

Decidi, então, ir até a assistência técnica onde peguei meu telefone, já em perfeito estado. Durante meus primeiros minutos com ele, seu peso me pareceu estranho. Leve demais em comparação às outras vezes em que o carreguei. Era curioso experimentar aquela sensação de estranhamento com algo que estava tão impregnado em meu cotidiano.

Ao ligar o plano de dados móveis, uma infinidade de notificações não parou de chegar pelo que, aparentemente, foi meia hora. Facebook, Instagram, Twitter, Pinterest, Netflix, Spotify, Gmail, Snapchat, Tinder etc. Mais de quinhentas coisas para checar. Tentei guardar meu aparelho no bolso e ignorar aquilo por alguns minutos, porém minha curiosidade, minha vontade de interagir com as pessoas das quais me distanciei sem acesso às redes sociais, me levou a mergulhar nas coisas que apareciam na tela. Voltei para a realidade de ter contato instantâneo com estranhos e conhecidos no mundo virtual. Voltei a não prestar atenção ao que acontecia ao meu redor. Voltei a ser eu mesmo. Meu ritual diário.

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