ENTRE A VIDA E A MORTE: A PERDA DE UM VÍNCULO

Por David Rodrigues

Lançada pelo serviço de streaming Netflix em 31 de março e baseada na obra literária homônima do escritor Jay Asher, a série “Os 13 Porquês” (no original, Thirteen Reasons Why) emergiu para o público justamente em um momento em que um jogo chamado Baleia Azul se propagou pelas mídias digitais e tem ganhado espaço nos noticiários por ter como consequência o suicídio – a mesma temática abordada na série.

Na história, uma adolescente de 17 anos chamada Hannah Backer conta os treze motivos que a levaram a tirar a própria vida por meio de fitas que gravou enquanto ainda estava viva. Nessas gravações a personagem deixa claro que todos os responsáveis por sua morte devem ouvir todas as treze fitas e depois passar para o próximo da lista até que cada um deles tenha ouvido e entendido seu papel naquilo. Durante a narrativa, essa coletânea está em poder do personagem Clay Jensen que é responsável pela perspectiva no tempo presente, pós-morte de Hannah, enquanto as fitas ficam incumbidas de inserir o telespectador e até mesmo Clay, nos acontecimentos que induziram o suicídio dessa personagem. Essa narrativa se torna ainda mais interessante quando nos atemos às paletas de cores selecionadas para representar os diferentes períodos de tempo. Enquanto cores quentes predominam no passado quando Hannah ainda estava viva, no presente, as cores frias com ênfase no azul, tecem uma atmosfera de tristeza e melancolia na narrativa após sua morte.

Em Os 13 Porquês, ao contrário de outros programas de entretenimento que já abordaram essa temática, o suicídio é tratado de uma forma muito crua, sem eufemismos. Por causa disso, nos momentos em que os abusos verbais e não verbais sofridos pela protagonista são retratados nas cenas, torna-se muito desagradável assistir àquilo que é exibido na tela. Por um lado, esse tratamento dado é um diferencial importante para a série e para que o telespectador consiga sentir empatia não apenas por Hannah, mas também por outras pessoas que sofrem de depressão, fazendo assim com que ele seja capaz de saber como esses indivíduos se sentem. Por outro lado, essa crueza exposta nos treze episódios que compõem o programa também podem funcionar como um gatilho, que desperta ou intensifica pensamentos ruins em pessoas acometidas por doenças psicológicas ou que já tenham sofrido traumas semelhantes aos dos personagens.

Diante disso, apesar da visibilidade dada a um assunto não muito comentado, até mesmo pela existência de resoluções legais que restringem o tratamento do tema na mídia, a narrativa, além de possuir gatilhos, apresenta uma perspectiva equivocada e maniqueísta, na qual divide seus personagens entre mocinhos e vilões em relação às ações que provocaram o suicídio de Hannah Backer. Tal abordagem alimenta o clichê de apontar dedos para quem possa ter levado a pessoa a tirar a própria vida e não considera que nunca sabemos o impacto que nossas atitudes terão sobre o psicológico e emocional de determinada pessoa.

Mesmo com esse lado problemático, os 13 Porquês teve êxito em expor e alertar seus telespectadores quanto a temáticas presentes em nosso cotidiano, embora invisíveis por causa do medo, como bullying nas escolas, estupro, negligência familiar e suicídio.

Imagem: Divulgação

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