SARARÁ CRIOULO

Por Giovanna Tedeschi

Era uma vez uma menina que cresceu com cabelos levemente ondulados. Enquanto era criança, a garotinha foi feliz sem precisar se preocupar com preconceitos ou em estar fora dos padrões pré-estabelecidos de beleza. Conforme a puberdade chegava, as transformações corporais atingiram, também, as madeixas e se tornou cada vez mais difícil para ela ser aceita. Alisou e alisou repetidamente em busca de acolhimento. A decisão de dar um basta na química veio da mãe da agora adolescente por mero acaso: o salão que costumeiramente realizava o procedimento fechou.

Aquela garotinha de cabelos levemente ondulados sou eu. Quando cheguei aos 14 anos, não sabia mais como lidar com meus cabelos e fui sucumbindo ao alisamento por partes, até deixar meus cabelos cada vez mais parecidos com o que me foi imposto como padrão.

Não importava o ardor nos olhos ao aplicar a progressiva ou o calor escaldante da chapinha: o indispensável era ter o cabelo mais liso possível. Por isso, quando passei pela transição capilar foi muito difícil ver aquela imagem do cabelo perfeito sendo desconstruída mais a cada dia, perceber a raiz natural aparecendo e sentir quem estava ao redor se perguntando como pude me “descuidar” assim.

Foto: Acervo pessoal de Giovanna Tedeschi

Foto: Acervo pessoal de Giovanna Tedeschi

Eu nunca havia sentido que estar fora dos padrões era algo comum até perceber que vivenciava um tipo de realidade que é normal a tantas pessoas. Para mim, o cabelo liso sempre foi o natural, o que todos deveríamos ter. Isso demonstra a enorme influência da pressão social na aparência.

Apesar de tudo o que quem passa pela transição sofre, o resultado é recompensador. A aceitação, o olhar no espelho e o sentimento de dever cumprido é enorme. Quando aprendemos que o mais importante é a maneira como nos sentimos em relação ao nosso próprio corpo, não importa mais se nosso cabelo é liso, cacheado, colorido ou tem qualquer outra forma.

Com a popularização dos cabelos crespos e cacheados, tenho visto o caminho oposto se tornar, também, uma imposição: mulheres que preferem continuar utilizando a química são constantemente criticadas. Padrões nunca são saudáveis e o que importa é estar bem consigo mesmo e sentir a liberdade de utilizar nosso corpo da maneira que desejamos.


DEBAIXO DOS CARACÓIS DOS MEUS CABELOS

A imposição de padrões sobre os corpos tem chegado ao limite. A Nós traz o relato de mais pessoas que assumiram seus cachos, cansadas de normatizações e químicas. Confira:

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