ENCARCERADO NA MENTE

Por Lucas Ribeiro

“O seu corpo é a sua casa”, costumam dizer. O que você faria se descobrisse repentinamente que ficou trancado dentro dessa casa? É justamente com essa ideia sufocante que Jean-Dominique Bauby, editor-chefe da revista Elle, precisou aprender a lidar ao acordar de um coma em uma maca de hospital.

Pôster: Divulgação

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A história de Jean-Do – como sempre foi chamado pelos mais íntimos – foi retratada no drama-biográfico “O Escafandro e a Borboleta” (“The Diving Bell and the Butterfly”, no original), de 2007, dirigido por Julian Schnabel. O filme narra o processo de adaptação do jornalista de moda conhecido por sua vida agitada que, subitamente, sofre um derrame cerebral e se vê preso dentro do próprio corpo. Acometido por uma condição neurológica rara intitulada Síndrome do Encarceramento, Jean-Do continua com as faculdades mentais em pleno funcionamento enquanto consegue movimentar apenas os olhos.

Jean-Do, vivido por Mathieu Amalric, aprende a se comunicar piscando os olhos e nos surpreende quando decide escrever um livro de memórias usando essa ferramenta de comunicação. A partir daí, a trama nos leva pela aventurosa vida do personagem e, de acordo com o próprio, “uma sucessão de erros”.

Ao conhecer os antecedentes de Bauby, vamos acompanhando a evolução e aceitação do jornalista quanto à sua nova condição, que passa, cada vez mais, a mergulhar em sua própria história e encontrar disposição para vencer o desafio de escrever sua biografia naquele estado.

Na empreitada, Jean-Do recebe a ajuda de Claude, a funcionária designada pela editora para transcrever as memórias do jornalista. Nosso protagonista nutre um sentimento especial por Claude e chega ao ponto de fantasiar um romance com ela – hábito adquirido na tentativa de escapar do escafandro metafórico em que se encontra trancafiado.

Foto: Divulgação

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Os sentimentos que ficam são os de torcida pelo sucesso do livro e de gratidão pela nossa liberdade de ir e vir. Em contraponto, em momento algum nos deparamos com o sentimento de pena, já que somos embalados pela ironia do próprio Jean-Do com relação à sua condição. Tendo tudo pra ser piegas, o tom com o qual o personagem passa a levar sua nova vida foge completamente do efeito de causar piedade nos telespectadores. Bauby, cada dia mais, sente-se confortável com sua realidade.

Ponto alto da produção é a forma como a direção conseguiu refletir a situação de Jean-Do ao espectador, com uso do recurso da “câmera subjetiva” em boa parte da obra. A lente em primeira pessoa nos leva à posição do protagonista e sentimos na pele sua sensação de impotência, o que nos leva a refletir sobre como o corpo humano é uma máquina misteriosa capaz de se adaptar a diversas situações. “O Escafandro e a Borboleta” mostra-se como um exercício da fragilidade da vida.

Gif: Divulgação

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