RAINHAS DE DENTRO PRA FORA

Por Giovanna Tedeschi

Quando se ouve falar em drag queen, geralmente, a imagem quase automática que irrompe em nossas mentes é a de uma pessoa caricata e repleta de maquiagem pesada, enchimentos pelo corpo e roupas extravagantes. Isso significa que um dos principais objetivos dos artistas que se dedicam a essa arte foi atingido: chamar tanta atenção quanto possível, já que a gênese desse movimento vem justamente do show business.

O que raramente se considera quando o assunto é drag queens, é a forma como as transformações corporais constantes exigidas por esta manifestação artística afetam aqueles que a praticam. Na busca por um pouco de compreensão desse universo a partir de um ponto de vista interno, a Nós conversou exclusivamente com alguns artistas dedicados ao drag – estrangeiros e brasileiros.

Finalista da sexta temporada (2014) do reality show “RuPaul’s Drag Race”, fenômeno de audiência em todo o mundo, o australiano Shane Jenek interpreta Courtney Act – drag queen, cantora e apresentadora de TV. Tendo feito sua primeira aparição pública no ano de 2003 em outro reality show – o “Australian Idol” –, foi a participação em “Drag Race” que a alçou ao sucesso mundial e a levou a ser um dos nomes mais importantes do movimento drag da atualidade. No corpo da personagem, Jenek já performou ao lado de outras drags e da cantora Miley Cyrus no palco do “Video Music Awards” em 2015, além de ter se consagrado como o primeiro artista drag da história a cantar ao vivo com a Orquestra Sinfônica de São Francisco e um dos três primeiros (ao lado de Willam Belli e Alaska Thunderfuck) a se tornarem garotas-propaganda da gigantesca grife “American Apparel”.

Foto: Mitch Fong / Divulgação

Courtney Act – Foto: Mitch Fong / Divulgação

Para o performer de Courtney Act, a contínua batalha entre o feminino e o masculino afeta bastante as drag queens. Jenek lembra que, em certos momentos de sua história como Courtney, a prática chegava a instaurar uma batalha dentro de si – que ele acredita já ter sido superada. “Uma vez que eu percebi que praticar o drag era importante para ser autêntico a quem sou, eu compreendi que posso ser ‘feminino como um garoto’ e não há nada de errado com isso”.

Shane ainda reflete sobre o desconforto frequente diante da impressão da supervalorização do conceito de masculinidade – difundido, para ele, inclusive entre indivíduos LGBT. “Eu acho que o drag exaltava isso e por um período de tempo eu o culpei. Depois, eu notei que isso tem mais a ver com minha percepção de mim mesmo e as influências da sociedade em mim”.

Sempre versátil, o drag se mostra cada vez mais mesclado a outros movimentos, como o queer, em uma relação mútua de complementação na luta por uma aceitação crescente do chamado genderfluid: um gênero que varia com o tempo, ora masculino, ora feminino ou, até mesmo, ora outras identificações não-binárias de gênero.

Influenciado pelo reality show que levou Courtney Act ao triunfo, o paulistano Daniel Garcia deu vida à Gloria Groove – drag queen e cantora que ganhou destaque nacional ao participar da nona temporada (2016) do programa de auditório “Amor & Sexo”, da Rede Globo de Televisão e apresentado por Fernanda Lima. Gloria cita figuras e identidades não-binárias da contemporaneidade que considera como influências criativas, como xs cantorxs Liniker e MC Linn da Quebrada e x youtuber Hugo Nasck, para ponderar sobre a ressignificação de gêneros e a importância que o movimento drag vem conquistando. “Drag significa uma série de coisas como experimentar, exagerar, ousar, levar muito a sério, não levar nem um pouco a sério, ser você mesmo, ser outra pessoa que só existe no seu imaginário… Acredito que o movimento queer consegue se alimentar muito da nossa cultura e vice-versa. Isso é muito bom! Significa que aos poucos vão entendendo o quanto somos iguais, mesmo tendo vivências e influências diferentes”.

Foto: Fernando Cysneiros / Divulgação

Gloria Groove – Foto: Fernando Cysneiros / Divulgação

“MONTAÇÃO” NA PRÁTICA

Para alternar a assimilação do público entre os gêneros, uma ferramenta é fundamental na hora de transformar um corpo socialmente tido como masculino para um tido como feminino: a maquiagem. Em todo o mundo, há histórico de grandes nomes da indústria da beleza profissional sendo ocupados por homens – como o francês Tom Pecheux, o belga Peter Philips e o brasileiro Celso Kamura, apenas para citar alguns. Para alcançar o renome de que dispõem atualmente, esses maquiadores precisaram nadar contra a corrente, já que, culturalmente, a arte da maquiagem não é ensinada aos meninos da mesma forma que às meninas.

Alma Negrot, influente drag queen no cenário brasileiro que, em uma outra entrevista ao site da Melissa se define como “nem homem, nem mulher, apenas ser”, contou à Nós que até mesmo a ilustração foi uma atividade proibida em sua infância, por ser um trabalho sensível e considerado feminino. “Para a sociedade, quando um homem faz ‘coisas de mulher’, ele abdica de poder. Acontece que essa cultura ocidental misógina e binária que vivemos não pode domar nossos desejos. Somos uma imensidão de pessoas que não se identifica com essa lógica ignorante, obviamente”, afirma o intérprete de Alma, Raphael Jacques, que não se deixou abalar pelas críticas e, adulto, tornou-se um artista plástico cuja revolta culminou na criação do alter ego que representa atualmente e em “um artista de olhar apurado”.

Foto: Guilherme Alonso / Divulgação

Alma Negrot – Foto: Guilherme Alonso / Divulgação

Raphael relembra que conheceu a maquiagem em aulas de “Performance” e se encantou com sua possibilidade de transformação, passando a se dedicar à experimentação autodidata do ofício em fusão com sua estética de pintura. Hoje, o artista plástico acredita que a maquiagem deveria estar em um patamar totalmente diferente daquele que ocupa na atualidade. “Para os homens a maquiagem precisa parecer inexistente. Para as mulheres, é a obrigação da beleza, da delicadeza, dos traços finos, tudo aquilo que deve agradar o homem. Eu não acredito nisso, eu não me maquio para mostrar beleza. Eu quero me mostrar do avesso e contar histórias”.


UM PASSEIO PELA HISTÓRIA DO DRAG

O termo drag queen tem origem incerta. Há a teoria de que o termo seria uma abreviação de “dressed as a girl” (vestido como uma garota, em tradução livre). Assim, os chamados drag kings, mulheres que incorporam personagens masculinos, seriam drab: “dressed as a boy” (vestida como um garoto). Se a hipótese for realmente verdadeira, a segunda gíria não aderiu ao vocabulário da maioria da comunidade queer.

Apesar de muitos acreditarem também que o termo tem relação com dragões e sua feiura, a maioria das fontes afirma que a expressão nasceu da tradução de drag no inglês, “arrastar”, uma vez que os homens que se vestiam como mulheres no início do movimento costumavam utilizar vestidos muito pesados. O costume de travestir-se vem principalmente do teatro. Como as mulheres eram proibidas de participar do espetáculo, os homens incorporavam também as figuras femininas.

No século XIX, os atores Frederick Park e Ernest Boulton começaram a sair às ruas de Londres vestidos como Fanny e Stella, provocando um impacto tão grande que a polícia abriu uma enorme investigação, acusando-os de “conspirar e incitar pessoas a cometer ofensa não natural”. Porém, a promotoria falhou ao tentar provar a homossexualidade dos atores (um crime na época).

Já nos anos 1920, o movimento drag começou a ser cada vez mais associado com a comunidade LGBT, uma vez que foram criados os drag balls: eventos nos quais dezenas de homens participavam como personas femininas. Na década de 30, muitas drags realizavam shows, principalmente inclinadas ao lado cômico e ainda no teatro. A profissão se tornava cada vez mais cara, uma vez que era necessário um investimento para adquirir maquiagens, roupas e perucas femininas.

Fotos: Acervo histórico

As drag queens mais parecidas com as que conhecemos hoje surgiram nos anos 50 e 60, principalmente nos Estados Unidos. Nessa época ainda eram bastante excluídas da sociedade, estourando apenas em 1980, quando a cultura LGBT começou a conquistar maior aceitação social.

Para comemorar os 103 anos de drag queen em 2016, a revista norte-americana Vanity Fair convidou quatro ex-participantes do “RuPaul’s Drag Race” para um vídeo que mostra a evolução da moda e da arte drag ao longo das décadas, desde 1920 até hoje em dia. Assista:

Fonte: Vanity Fair

A CORRIDA DAS DRAGS

Nos anos 1990 surgiu uma das mais relevantes personalidades drag do mundo na atualidade: RuPaul – homônima de seu criador. Uma das peculiaridades de RuPaul é sua indiferença em relação ao gênero, como citado em sua autobiografia. “Você pode me chamar de ele. Você pode me chamar de ela. Você pode me chamar de Regis e Kathie Lee; eu não me importo! Contanto que você me chame”.

No entanto, uma das maiores conquistas de RuPaul foi a criação do reality show “RuPaul’s Drag Race”. Nele, drag queens competem em desafios inusitados e são eliminadas uma a uma até que a última recebe uma coroa e é declarada a próxima estrela drag americana. Por meio deste programa de TV, diversas drags alcançaram o estrelato.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

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