QUEM ESTÁ NO COMANDO?

Por Marcelo Paixao Almeida
Capas: Editora Abril / Divulgação

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Somos naturalmente obcecados pelo corpo. Quem é o mais rápido ou mais forte? Qual a mais bonita? Qual o jogador mais hábil? Queremos uma pele linda, cabelos, barba, unhas, pernas. Alguns se dizem desapegados das aparências e são focados na saúde. São igualmente obcecados pelo corpo. Alimentos saudáveis, hábitos saudáveis, para um corpo são. É a mente determinando o que o corpo vai ser? Ou é o contrário, o corpo exigindo da mente um padrão de atitudes?

E os instintos? A mente determina por quem o corpo vai sentir atração? Ou os feromônios fazem sua parte e a mente é escrava irresistível da paixão? Escolhemos quem vamos amar de fato, ou somos vítimas dessas escolhas do corpo? A fome, a raiva e as angústias podem ser vistas como estados mentais ou como reações puramente físicas. O mesmo pode ser dito de sentimentos de prazer ou recompensa.

O questionamento dos Smiths na música “Still Ill” permanece. A resposta também: não sabemos. Gostamos de pensar que nossa mente domina o corpo… mas será que é isso mesmo? A história é repleta de exemplos em que o ser humano foi capaz de provar tanto uma como outra possibilidade.

Escalar o Everest, atravessar o oceano remando, quebrar um recorde em uma Olimpíada, são fatos tão impressionantes que é difícil não se render ao argumento que sim, de fato a mente manda no corpo. A mente comanda sacrifícios, dores, e impõe a determinação de ir além dos limites do corpo. Anos intermináveis de treinamento e disciplina, desenvolvimento de técnicas e habilidades impressionantes são pouco para ilustrar o necessário para atingir tais feitos. Claramente, a vontade impera. Nestes casos a mente domina. A mente manda no corpo.

Ao mesmo tempo, os instintos dominam a existência humana. O clamor do sexo, a raiva incontrolável, a ansiedade. Milhões de gestações não programadas são atribuídas ao descuido em um encontro casual. As consequências podem ser desde apenas um filho não planejado, até o extremo de uma criança abandonada. A raiva no trânsito é um problema social, o número de homicídios por discussões fúteis já atinge patamares assustadores. Ao se colocar atrás do volante, muitos se tornam verdadeiros psicopatas. E nossa ansiedade com o desenrolar de nossos dramas cotidianos comumente ultrapassa os limites. Angústias, dramas, expectativas. O que será que vai acontecer? Perda de apetite, irritabilidade acompanham nossa impaciência. O corpo manda. O corpo urge.

É sabido que nosso corpo aparenta ter dois cérebros. O sistema digestivo exerce um papel muito relevante na disposição. Quem é capaz de ficar de bom humor com um desarranjo intestinal? Mudanças súbitas de humor, que nós mesmos não percebemos, são atribuídas ao processo digestivo. Algumas teorias tratam nosso corpo como um apanhado de sistemas que colaboram entre si, a maioria sem nossa intervenção – e temos um controle bastante precário sobre isso.

Em vários dos processos corporais, não temos sequer consciência do que acontece. Não temos influência sobre nossos batimentos cardíacos. Não controlamos o ritmo de nossa respiração na maior parte do tempo. Conseguiríamos sobreviver sem as bactérias que vivem em nosso intestino? O ato de caminhar é consciente ou automático? Quanto realmente mandamos no corpo? Se é o corpo que manda na mente, nós, por sua vez, não mandamos no corpo… estamos à deriva! Seríamos nós, portanto, uma mente… refém de um corpo que não dominamos? O corpo respira; o corpo caminha; o corpo manda.

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Malcolm Gladwell desenvolveu pesquisas fantásticas que revelaram o quanto está oculto de nós mesmos, e ao mesmo tempo exposto à luz do dia, relatadas no livro “Blink – The Power of Thinking Without Thinking“. O resultado de suas pesquisas são representadas na série de televisão “Lie To Me”, na qual o protagonista é capaz interpretar o comportamento de criminosos apenas observando-os, analisando sua expressão corporal, expressões faciais e tom de voz. Obviamente a série traz exageros e hipérboles, mas de fato é possível determinar cientificamente as probabilidades estatísticas de um casal se separar dentro de 5 anos apenas com base na sua interação e na análise cuidadosa das reações de um ao outro, quando filmados e analisados em câmera lenta.

Todos tendemos a piscar duas vezes quando somos surpreendidos. Todos tendemos a responder rapidamente quando falamos a verdade, e a elaborar quando mentimos, ou alterar nosso tom de voz. Estas reações são universais, não variam de cultura para cultura, portanto têm origem remota, antes que o homo sapiens se espalhasse pelo planeta. O corpo fala, quer queiramos ou não. O corpo trapaceia a mente, e revela por meio de sinais sutis aquilo que não queremos mostrar. A mente é impotente para controlar estes sinais.

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A escritora Laura Hillenbrand biografou, em “Invencível“, Louis Zamperini que, de atleta olímpico passou a soldado, foi recrutado na Segunda Guerra Mundial e teve sua carreira interrompida. Seu avião foi abatido pelos japoneses, sobreviveu à metralhadora e à queda, escapou do avião submerso, passou meses à deriva em um bote no pacífico, seu bote foi novamente metralhado por um caça japonês, enfrentou tubarões, teve seu peso corporal reduzido a 36 Kg, foi capturado e torturado durante anos pelos japoneses, pegou diversas doenças tropicais em um campo de concentração japonês e, passando fome, quando acreditava não ser mais possível sobreviver, viu Tóquio ser incendiada por bombardeiros americanos, que decretaram o fim da guerra e de seu cativeiro. Com este histórico de sofrimento, seria de se esperar uma sobrevida curta, e de muitas sequelas físicas. Mas Louis Zamperini viveu até os 97 anos, tendo falecido recentemente. Há registros fartos de Louis correndo aos 70 anos, andando de skate aos 80 e praticando rapel em idade avançada. A mente de Louis jamais deixou sua condição física condená-lo. A mente vence.

Stephen Hawking, uma das mentes mais brilhantes do mundo está, de maneira tragicamente irônica, preso a um corpo inútil. Sua gigantesca capacidade matemática e habilidade de raciocínio lógico são inversamente proporcionais às suas capacidades físicas. A mente se sobrepõe ao corpo. Mas a maior de todas as ironias é que temos a garantia absoluta de que o corpo que habitamos vai nos faltar. Vai falhar. Vai morrer. Não importa quão bem ou mal o tratemos, não há exceções à esta regra. No final, o corpo vai determinar o destino da mente. Não existe mente sem corpo. O corpo rege nosso destino último.

*Marcelo Paixao Almeida é mestrando em Gestão Organizacional
na Faculdade de Gestão e Negócios (FAGEN)
 da Universidade Federal de Uberlândia.

 

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