FORA DA CURVA

Por Marina Pagliari

É possível que você não se lembre muito bem das vezes em que chamou aquela colega da escola de gorda. Nem se recorde do rosto, da cor do cabelo ou do nome dela, só que uma coisa eu posso garantir: ela se lembra, mas bem que preferiria esquecer. Essa é a história de uma amiga minha muito querida, a Carol. E, assim como existem milhares de “Carois” por aí, existem também milhares de relatos semelhantes ao dela.

Foto: Thinkstock

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Carol foi uma criança um pouco acima do peso e seus pais, naturalmente preocupados com sua saúde, sempre a levaram em endocrinologistas e tentaram incentivar que a menina fosse um pouco mais atenta com seus hábitos alimentares. Criança como qualquer outra, Carol deixava de lado a preocupação e continuava sua rotina, feliz da vida, comendo o que sempre quis e sem ligar para o que os outros pensassem ou falassem sobre isso.

Até que o inconveniente acontece. Era uma disputa interclasses e a Carol, então aos 14 anos, era capitã do time de vôlei que venceu o campeonato. Foi tudo só alegria – até o momento em que alguém do outro lado da rede (literalmente, por mais que isso soe poético), decidiu gritar: “meu time perdeu para o daquela gorda! Gorda! Gorda!”. Não culpo a rival por essa atitude. É possível que ela já tivesse sido instruída a pensar que existe um padrão de corpo a ser seguido e que os que estão dentro dessa curva – que, ironicamente, é composta por pessoas bem retas – são melhores do que os outros.

Aquele dia foi decisivo para que tudo começasse a mudar. Carol procurou um endocrinologista, agora por conta própria, entrou na dieta e iniciou exercícios físicos, tudo de maneira saudável. O emagrecimento se tornou aparente, os elogios vieram e a auto estima cresceu. Assim como peso em excesso pode ser prejudicial à saúde, a magreza também. Os elogios se transformaram, mais uma vez, em preocupação: “agora já está bom de emagrecer, né, Carol?”.

A busca pelo corpo reto era interminável. Cada número a menos na balança, uma pequena conquista. Diferente do que se possa pensar, o reflexo daquilo não era nada agradável. “Eu tinha fome, queria comer as coisas, mas era uma sensação de culpa tão grande depois que me martirizava”, ela lembra.

Aos 15 anos, Carol confrontou a anorexia e iniciou os devidos cuidados: intenso acompanhamento psicológico em conjunto com medicamentos antidepressivos. Nesse período, também voltou para o ballet, que havia parado há anos. Os professores foram alertados para não acentuar o problema, já que a dança, por muitas vezes, procura impor certos estereótipos. Por sorte, a escola de dança desprezava a ideia de que era necessário um padrão físico para ser bailarina.

Foto: Acervo pessoal de Carol

Foto: Acervo pessoal de Carol

Mesmo enquanto estava anormalmente magra, como ela mesma descreve, Carol não se sentia confortável para a dança clássica. Seu tipo de corpo inclui curvas, coxas grossas e quadris largos, comumente considerados fora do padrão longilíneo do ballet.

A anorexia foi vencida e o longo tempo que passou se restringindo de tudo que gostava de comer transformou-se. O que antes era visto como problema, se tornou algo prazeroso.

Consequentemente, a nova realidade trouxe alguns quilos a mais, que nunca deixaram de incomodar. “Apesar de ter me curado da anorexia, o que foi uma vitória pessoal, eu nunca consegui me sentir completamente satisfeita com meu corpo. Esse foi um fantasma que sempre me assombrou”.

Anos depois, o grupo de dança que Carol participava foi convidado para um festival na Alemanha e o que deveria ser motivo de alegria, aflorou o trauma. O organizador do evento desprezou as meninas por não se encaixarem no parâmetro julgado necessário, chegando a criar obstáculos para os ensaios. Dessa vez, em conjunto com as sensações de desconforto e tristeza, vieram os questionamentos. “Eu sentia que fazia uma coisa que gostava, mas como eu ousaria fazer isso com o físico que tinha?”.

A saída foi procurar um novo ambiente, uma nova escola de dança, em busca de outras oportunidades e melhor tratamento. Uma amiga foi junto e ambas figuram lado a lado nos palcos e salas de aula há anos, de forma que a técnica e empenho das duas é bastante semelhante. Passaram a praticar aulas de jazz e ballet clássico, o que as levou a serem convidadas para participar de um seleto grupo de alunos mais avançados.

Foto: Acervo pessoal de Carol

Foto: Acervo pessoal de Carol

Com o tempo, a coreógrafa pediu que Carol não ensaiasse mais com aquela classe, apenas treinasse “de fora”, ao lado dos bailarinos. Em seguida, solicitou que ela parasse de ensaiar, apenas participasse dos momentos de aula. Por fim, retirou-a da turma alegando que ali era necessário manter alguns padrões físicos. Os corpos precisavam ser homogêneos, já que as apresentações deles costumam ser indicadas para competições e festivais de dança. Carol se viu de novo do outro lado da rede, de fora da curva, enquanto alguém a definia apenas pelo tamanho de seu collant – não por seu esforço.

Mais uma vez, tudo que ela pôde fazer foi sair dali, como se nada tivesse acontecido e secar as lágrimas. Sua atitude de não discutir não foi um ato de fraqueza, mas de exaustão. Viver enfrentando o padrão, brigando por espaço, precisando provar sua própria capacidade é desgastante até para a mais forte das paixões. “Não sei nem se daqui para frente voltarei para o ballet ou para o jazz, apesar do gosto pela dança, porque eu tenho me sentido esgotada. Eu estou cansada de não gostar de mim mesma do jeito que eu sou, estou cansada de tentar sempre buscar um padrão”.

O que entristece é o quanto o mundo da dança pode ser injusto. Dança é liberdade de expressão, é ser você mesmo. São diferentes seres humanos se movimentando dentro de seu próprio espaço, com suas facilidades e limitações, e é belo por isso! Não vou a espetáculos procurando corpos homogêneos, isso podemos encontrar em batalhões de exército facilmente. Olhamos para o palco em busca das diferenças que se completam.

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