A MORADA DE CLARA

Por Laura Máximo

“Eu prefiro dar um câncer a ter um”
– Sônia Braga em “Aquarius”

Pôster promocional: Divulgação

Pôster promocional: Divulgação

Quando entrei no auditório para assistir à exibição de “Aquarius” em uma sessão do cineclube da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), achava que já sabia muito sobre o filme. Algo sobre uma senhora – cujo nome eu não lembrava, mas sabia que era interpretada por Sônia Braga – que morava em um prédio antigo e bem localizado, muito visado pelos barões da especulação imobiliária no Recife. Algo sobre a relação dessa mulher com o apartamento que foi seu lar por anos, algo sobre uma idosa que provavelmente teria muito a ver com a ideia de velhice feminina a que eu já estava habituada, tudo sob a direção de Kleber Mendonça Filho.

Errei, eu não sabia de nada. As críticas que li não me prepararam para o que estava por vir. As polêmicas (políticas) nas quais o filme se envolveu, não davam conta da grandeza e, ao mesmo tempo, simplicidade da narrativa. Clara era muito maior que os críticos anunciavam. Clara era maior que o Edifício Aquarius.

O título da primeira parte do filme, “O Cabelo de Clara”, já me dava pistas de que eu não interpretaria a história apenas como uma crítica econômico-social, em que as relações entre o velho e o novo entram em questão no sentido material da coisa. Não somente uma crítica aos novos modos de construção das cidades. Não uma narrativa que apenas ilustrasse os meandros da especulação imobiliária. Segundo o meu olhar, já na primeira cena, tratava-se de um filme sobre uma mulher. E mais: uma personagem feminina de mais de 60 anos.

Ainda nos títulos, as outras duas partes de “Aquarius” dão pistas do entrelaçamento da protagonista, seu corpo e vida, à história do edifício em que construiu grande parte de sua história. “O Amor de Clara” e “O Câncer de Clara”, falam tanto sobre a moradora quanto a respeito da construção, mas, ao mesmo tempo, não reduzem a personagem a uma vítima da especulação imobiliária, colocando-a como indivíduo lúcido e não restrito ao ambiente doméstico, como geralmente são colocadas as personagens femininas, principalmente as mais velhas.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

O filme rompe as barreiras que restringem a mulher idosa à vida privada já em suas primeiras cenas. Na Parte 1, que se passa algumas décadas antes da história central, a personagem Tia Lúcia nos é apresentada. Sentada em um sofá e com seus cabelos brancos reluzentes, a tia recebe homenagens pelo seu aniversário de 70 anos. Pelo seu modo de se colocar e representar a própria sexualidade, a primeira das mulheres idosas representadas pelo filme já quebra o que se espera desse tipo de personagem. A senhora de postura firme, demonstra uma velhice sem medo de ser, que, certamente, influenciaria o modo com que Clara enxergaria a si mesma em idade semelhante.

É também na primeira parte que conhecemos Clara. No filme, a personagem aparece com pouco mais de 30 anos e cabelos recém-raspados devido ao tratamento de um câncer. A imagem contrasta com a primeira cena da segunda divisão do filme: a protagonista, já com 65 anos, se mostra arrumando madeixas longuíssimas e negras em um coque.

O corpo de Clara está em evidência, assim como sua força pessoal se destacará nas próximas cenas. Ela se alonga, aquece os músculos e sai para um mergulho e exercícios em grupo na praia de Boa Viagem, localizada bem em frente ao seu prédio. Não é bonito, não é gracioso e chega a ser engraçado. Apesar de interpretada por uma das mulheres de beleza mais celebradas do Brasil, a personagem não está ali para agradar aos olhos masculinos.

Sua sexualidade não está renegada. Do alto de suas seis décadas vividas, o desejo continua presente e pulsante e não deixou de existir conforme os anos foram passando. O prazer é tratado com naturalidade em conversas com as amigas e não parece fetichizado. A impressão é de proximidade com a personagem e familiaridade com as temáticas de suas conversas de bar.

O enfraquecimento do corpo de Clara, que já sofreu os abalos de um câncer e com a ação do tempo, não representa o encolhimento da sua independência e da expressão de sua personalidade, mas demonstra uma metáfora entre a carne e a casa. A personagem e sua casa são um só. Ela não quer ser tratada como decrépita, caduca e gagá, não pede licença ou escolta para ser quem é, e exige que o lugar que escolheu para viver seus dias receba o mesmo respeito.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Na luta pela manutenção do Edifício Aquarius, trava não só uma batalha pessoal, mas política contra as grandes corporações, em oposição à especulação imobiliária e a favor da manutenção da história e memória de Boa Viagem, em Recife. No âmbito público, é uma jornalista cultural de destaque, autora de livros aclamados, mulher que se afirmou como profissional, mesmo que isso significasse abrir mão das tradicionais funções de mãe durante determinado período de sua vida.

Em entrevista à Folha de São Paulo, Sônia Braga afirma sua identificação com a personagem, reflete sobre o corpo e a sexualidade durante a velhice. Em 2015, ao completar 65 anos e logo após ter lido o roteiro de “Aquarius”, a atriz postou em seu Facebook: “65. It’s just the beginning” (“65. É só o começo”, em tradução nossa). Claro, para a maioria não é tão simples. Ainda que a expectativa de vida das mulheres brasileiras chegue aos 79 anos de idade – segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) –, é justo questionar tal afirmação levando em consideração que tanto a atriz, quanto Clara estão em uma posição privilegiada da sociedade. Pertencentes à mais alta classe social, podem se dar ao luxo de viver a idade idosa em condições confortáveis com relação a saúde, qualidade de vida, aspectos financeiros e sexuais.

Reservadas as peculiaridades sociais da personagem principal, “Aquarius” continua merecendo destaque pela originalidade da história que apresenta. Ao impor sua individualidade, Clara prefere dar um câncer a ter um. Ela representa uma velhice para além do crochê e cuidado com os netos, uma velhice – e vida – feminina voltada para si. Um corpo idoso livre, que traz marcas de uma caminhada, mas não deixa de olhar para o presente e futuro.

Anúncios