NOS PORÕES DO DOI/CODI

Por Rodrigo de Azevedo
Ilustração: Paulo Brabo

Ilustração: Paulo Brabo

Uma sala isolada. Um capuz na cabeça. Gritaria, discussões e muito barulho. A apreensão, a incerteza, o medo. O medo de falar as palavras erradas. O medo de morrer sem nenhuma explicação, sem ter a possibilidade de se defender. O medo, de forma geral, era o principal sentimento no coração dos presos políticos durante a Ditadura Militar no Brasil, que se desenrolou de 1964 a 1985.

O clima durante o período era de total insegurança por parte de quem não simpatizava com o governo. Este, por sua vez, se encontrasse qualquer resquício revolucionário ou de oposição em alguma pessoa, o criminalizava, perseguia, interrogava e, se fosse necessário, até matava para calar as vozes contrárias. Qualquer indivíduo que demonstrava discordar do regime era considerado comunista, o mal que deveria ser combatido.

Além do medo de correr riscos ao expressar seus pensamentos, a insatisfação de viver em uma sociedade injusta foi o que motivou diversos brasileiros a exilarem-se. Sobretudo políticos, músicos e intelectuais encontraram, como única alternativa, abandonar o país enquanto esperavam não serem mais tratados como criminosos. Enquanto aguardavam o retorno da democracia.

Caetano Veloso, Chico Buarque de Holanda e Gilberto Gil foram exemplos de cantores e compositores que deixaram o Brasil durante o período de repressão. O exílio era uma forma que os militares usavam para afastar do país os opositores. Essa estratégia intensificou-se com o surgimento do lema “Brasil, ame-o ou deixe-o”, durante a gestão de Emílio Garrastazu Médici (1969-1974).

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Mesmo exilados, ou quando já haviam retornado, muitos cantores denunciaram abertamente o regime militar nas letras de suas canções, mas o governo não deixava barato. Apenas enquanto o Ato Institucional número 5 (AI-5) estava em vigor, mais de 500 letras de músicas foram censuradas.

O curioso é que os responsáveis por fiscalizar o conteúdo das composições, muitas vezes, deixavam passar despercebidos detalhes que condenavam e denunciavam aquele momento. Um exemplo é a música “Apesar de Você”, escrita por Chico Buarque e lançada no ano de 1970, no decorrer do governo Médici. A canção chegou a passar pelos olhos dos censores, mas não foi barrada, por se considerar que a letra tratava de uma briga entre namorados. Apenas em fevereiro de 1971 o regime se deu conta de que o conteúdo da letra expressava uma discussão entre o eu-lírico e o presidente. A canção acabou sendo, finalmente, também censurada.

Os veículos de imprensa também sofreram forte censura no que diz respeito à imagem que passavam ao público sobre o Brasil daquele período. Por exemplo, a Revista Visão foi uma grande referência no período por abordar, de maneira crítica, conteúdos políticos, culturais e sociais que conflitavam com as abordagens dos grandes veículos da época. Lá foram reunidos grandes jornalistas do momento, como Rodolfo Konder, Fernando Morais, Anthony Christo, Vladimir Herzog e outros. Muitos destes, depois, chegaram a ser perseguidos, interrogados e torturados.

Herzog, que acabou por se tornar um dos principais símbolos da tortura e da violação dos direitos humanos impostos pela ditadura, nasceu na antiga Iugoslávia, em 1937. Durante a II Guerra Mundial, mudou-se com sua família primeiro para a Itália, fugindo da ameaça nazista, tendo vindo para o Brasil logo em seguida.

No ano de 1972, Herzog tinha sido convidado para trabalhar como editor de um novo telejornal, o “Hora da Notícia”, na TV Cultura, criado por Fernando Pacheco Jordão. O programa buscava mostrar os problemas da realidade brasileira, tal como o governo não queria que fosse divulgado. Depois de ser preso, em 1975, foi assassinado nas dependências do DOI/CODI, um centro de triagem e investigações, torturas e assassinatos do governo militar na cidade de São Paulo.

No documentário “Vlado: 30 Anos Depois”, produzido por João Batista de Andrade em homenagem à Herzog,  Jordão conta que a censura nascia da própria diretora de cultura da emissora, que atribuía a reclamação como vinda do II Exército. “O jornal da TV Cultura, segundo ela, era um jornal pessimista, ela usava a expressão ‘negro’. Quando você ligava a televisão à noite e assistia os telejornais, o Brasil era um país feliz, só na TV Cultura era um país triste”, relembra o jornalista às câmeras do documentário.

Se um jornalista contrariasse as ordens superiores e publicasse suas matérias ou reportagens, ele era perseguido. A maioria das prisões eram secretas. Os representantes do exército chegavam em suas casas ou no trabalho, os convidava a acompanhá-los para prestar depoimento e daí não se tinha mais notícias. “Na realidade eu não fui preso e acredito que todo mundo foi sequestrado. Os caras chegaram lá no meu trabalho e sequer admitiam para meu chefe naquela época que eu estava sendo preso. ‘Ele vai nos acompanhar, ele vai nos acompanhar’, e não admitiam que ele fosse junto, não admitiam dizer para onde eu estava sendo levado”, conta Frederico Pessoa, também para o filme “Vlado”.

Frederico ainda comenta sobre as práticas de torturas que foram executadas com ele dentro do DOI/CODI. “O fato de ouvir as conversas, as ordens dos superiores e você com um capuz preto na cabeça só reforçava o pavor e o medo da tortura. Eu ainda não sabia o que iam fazer comigo. Você fica com mais medo do que vem pela frente do que aquilo que já está passando”.

Como forma de intimidar as vítimas, os agentes utilizavam nos interrogatórios choques elétricos, socos, pontapés, dentre inúmeras e desumanas outras formas, para desestabilizar o torturado e fazê-lo citar nomes de outros possíveis “culpados”, pessoas que seriam membros do Partido Comunista. O tipo de situação que deve ser evitado, a todo custo, em uma sociedade que já tenha passado por ela.

A democracia é um direito fundamental humano e o cerceamento da liberdade na manifestação de opiniões, sejam contra ou a favor do governo, é uma ameaça letal à sua permanência. Em outros tempos, seria possível afirmar que ninguém desejaria viver sondado pelo medo, mas, aparentemente, o brasileiro tem memória curta.


PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES

Quer refrescar a memória sobre o período da Ditadura Militar no Brasil? Confira a linha do tempo desses anos no infográfico produzido com exclusividade para a sexta edição da Nós:

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