O SOLDADO AMARELO

Por David Rodrigues

2 de outubro de 1992. Aproximadamente 320 oficiais da Polícia Militar, além de alguns bombeiros, foram chamados para conter uma rebelião que acontece na Casa de Detenção de São Paulo, mais conhecida por Carandiru. A brutalidade da abordagem policial resulta em uma pilha de corpos. A repercussão é internacional. “Um dos momentos mais violentos e sangrentos da história penitenciária mundial”. 111 detentos assassinados a sangue frio e outros tantos carregando seus corpos para empilhá-los no Pavilhão 9, uma estratégia dos milicos para alterarem as cenas do crime e dificultarem o trabalho da perícia.

O “Massacre do Carandiru”, como ficou posteriormente conhecido, é uma enorme mancha vermelha na história do Brasil, mas não é um caso isolado. Episódios de violência policial têm sido, cada vez mais, tratados como corriqueiros e com normalidade pela grande mídia.

Foto: Drago/SelvaSP/Folha de S. Paulo

Foto: Drago/SelvaSP/Folha de S. Paulo

Ocupações pacíficas de secundaristas, que reivindicam melhor merenda e o não fechamento de suas escolas, são invadidas por policiais e adolescentes são arrastados para fora para serem agredidos. Indo às ruas para protestar contra ações do governo, pessoas perdem um olho e jornalistas têm suas câmeras quebradas. Reintegrações de posse desumanas arrancam cidadãos de suas casas com seus pertences dentro, derrubando as paredes que foram erguidas com muito esforço e suor. E estes são apenas alguns dos exemplos das monstruosidades advindas da abordagem truculenta.

Trata-se de uma ironia de proporções gigantescas. Segurança deveria ser o sentimento transmitido pela presença da polícia. Porém, essa carrega consigo, além de pistolas e cassetetes e bombas de efeito moral, o medo como a maior de suas armas. É imposta a ditadura do medo.

Espancam e matam primeiro.

Costumávamos dizer “e perguntam depois”, mas nem isso mais.

Anúncios