ENTRE A ABÓBORA E O CACHIMBO

Por Giovanna Tedeschi

Pode perguntar pra qualquer pessoa que a resposta será unânime: o dia 31 de outubro é marcado no imaginário – nacional e internacional – como o Dia das Bruxas, o Halloween dos estadunidenses. Originalmente britânico, mas atualmente o principal feriado não-cristão dos Estados Unidos, a data é celebrada nas mais diversas culturas, influenciadas, em grande parte, pela hegemonia yankee na globalização.

Acredita-se que o antes chamado “All Hallows Eve” surgiu nas Ilhas Britânicas. Os celtas, antigos habitantes do local, acreditavam que o mundo seria ameaçado por demônios e fantasmas na véspera da Festa de Todos os Santos, comemorada em 1º de novembro. Por isso, a população fantasiava-se de maneira bizarra, pretendendo espantar os monstros que arruinariam a colheita.

Com a ocupação das terras europeias, os povos pagãos trouxeram a tradição mesmo em meio à disseminação do Cristianismo. A data continuou a ser celebrada, mas evoluiu ao longo dos anos e passou a associar-se à figura das bruxas, perseguidas pela inquisição na Idade Média, e dos mortos.

Assim, os irlandeses trouxeram o Halloween aos Estados Unidos, onde a festa se transformou no que conhecemos hoje: “doce ou travessura”, decoração das casas e lanternas de abóbora. Geralmente, as crianças se fantasiam e batem de porta em porta, mantendo a tradição.

Foto: Guiame

Foto: Guiame

No Brasil a coisa se dá um tanto quanto diferente, mas, apesar de ter sido aderido recentemente, celebrar o Halloween à americana já é uma realidade em nossas casas, escolas e cidades. Seja no comércio, nas baladas, na publicidade, entre outras manifestações, o Dia das Bruxas tem sido amplamente difundido entre os brasileiros.

A diversão é sempre garantida, já que não existe quem não goste de aproveitar a data pra se fantasiar e dar uns sustos por aí, festejar ou distribuir doces. Mas o que acontece com o nosso folclore diluído nesse cenário? Apesar de relativamente nova, a apropriação do costume estadunidense pode representar uma ameaça para a relevância das lendas nacionais.

Foi justamente graças a isso que, no ano de 2005, decretou-se o projeto de lei que, com o objetivo de resgatar o folclore brasileiro, instaurava o Dia do Saci, a ser comemorado no mesmo 31 de outubro. A questão-chave da proposta é fazer com que os brasileiros realmente valorizem sua própria cultura, que é esquecida aos poucos quando sobreposta pela gringa.

Um dos males da globalização é o fato de se tornar cada vez mais difícil trazer à tona nosso folclore, uma vez que, desde pequenos, somos acostumados a comemorar um feriado estrangeiro. Como transformar um pensamento adquirido na infância é um processo complexo, não dá pra negar a importância de o Dia do Saci ser celebrado nos ambientes escolar e familiar e que seu significado seja compreendido, principalmente pelos pequenos.

Longe de nós pedir a extinção do Halloween, mas, se as celebrações não anulam-se entre si, não custa muito abrirmos o leque e ampliarmos nossas possibilidades de diversão. Aliás, nesse 31 de outubro é fundamental estar bem atento ao pedir “doces ou travessuras?” por aí. Você não ia querer que o Saci-Pererê, uma das criaturas mais traquinas do folclore brasileiro, atenda ao seu pedido e apareça pra queimar seu feijão ou esconder seus objetos.

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