DOS MONSTROS QUE NÃO ESTÃO EMBAIXO DA CAMA

Por David Rodrigues

“Você não tem liberdade pra decidir como e com quem vai passar seu tempo livre”

“Você começa a achar que tudo que acontece de ruim no relacionamento é culpa sua”

“A pessoa joga a culpa de todas as brigas pra cima de você, fazendo com que se sinta um lixo”

“Ele te ridiculariza quando você expõe suas ideias e opiniões”

As frases supracitadas são apenas alguns exemplos do que você iria encontrar se decidisse pesquisar, agora, a #ÉRelacionamentoAbusivoQuando na internet. A tag repercutiu fortemente, no mês de novembro de 2016, nas redes sociais digitais, em especial o Twitter – onde chegou a figurar nos Trending Topics da ferramenta. Criada e difundida com o intuito de denunciar episódios de violência psicológica, o rápido sucesso da hashtag é facilmente compreendido: infeliz e aparentemente todo mundo tem uma história dessas pra contar.

Pessoas até então silenciadas – não apenas por seus agressores, mas também pela sociedade em si – tentaram esmagar seu medo com as próprias mãos e erguer suas vozes. Nesse contexto, torna-se cada vez mais perceptível que emerge, das mídias sociais, uma necessidade de dar espaço a assuntos como esse – há muito tempo ignorados de propósito, enterrados no imaginário popular.

As vítimas, no entanto, ainda carregam consigo um estigma muito grande. Uma parcela considerável da população acredita que elas permanecem nesse tipo de situação por vontade própria. Falta empatia por parte destes indivíduos para entender a natureza conflituosa dessas relações.

É fácil enxergar certa semelhança entre os relacionamentos abusivos e a chamada Síndrome de Estocolmo. Enquanto, na segunda, a pessoa sofre intimidação por um longo período de tempo e desenvolve simpatia por seu sequestrador – podendo também nutrir sentimentos como amizade e amor –, em um relacionamento abusivo o vínculo afetivo entre os envolvidos já existe previamente e esta ligação emocional, além de ameaças psicológicas e físicas, impede que a vítima se afaste de quem a hostiliza.

Não bastasse o medo constante do agressor, um outro temor esmagador acomete às vítimas de relacionamentos abusivos: a preocupação pela reação dos seus principais grupos de convívio, como família e amigos, caso eles venham a descobrir. O indivíduo se torna refém não apenas de uma situação de abuso nos mais diversos níveis, mas também de seus próprios pensamentos.

“O que as pessoas vão pensar se descobrirem que aceitei uma situação assim sem fazer nada?” é somente uma das coisas que passam pela cabeça e essa pergunta martela ainda mais quando esses relacionamentos terminam. Aquele sentimento ruim ao qual elas não sabem denominar ecoa, se perpetuando.

E o que acontece se alguém descobre ou você decide contar?

Primeiro, seu corpo se estagna, tomado pelo pavor.

Suas mãos se juntam instintivamente e os dedos pressionam cada centímetro delas de forma agitada, inquieta. Quando seus lábios se comprimem, um peso maior desaba sobre seus ombros. Lágrimas dadas como certas, iminentes. Sua visão se encontra fixa em algum ponto distante ou, se você estiver cabisbaixo, em suas próprias mãos. Seus olhos nunca estarão na pessoa por causa de um sentimento incrustado nesse medo. O que antes era medo se converte em outro sentimento. A vergonha por ter vivenciado uma experiência abusiva sem ter feito nada a respeito, por ter arranjado desculpas para defendê-lo quando todo mundo sabia que ele te fazia mal, pelas vezes em que aceitou ele te dizer que ninguém gosta de você e que deveria agradecer por ele estar te suportando, por sempre omitir partes das histórias para os outros. Vergonha…

“Mas não foi minha culpa?”

Não foi sua culpa.

Eis que seus lábios começam a se mover. Talvez compartilhando pela primeira vez com outra pessoa os detalhes sombrios daquele relacionamento. Porém, aquelas palavras já lhes são inaudíveis. Você conhece cada mínimo detalhe, cada cicatriz deixada depois de uma agressão física, cada crise de ansiedade depois dos abusos psicológicos.

Socos, chutes e tapas se repetem em um compilado de lembranças.

“Como pude aceitar isso?”

Vergonha termina por se moldar em nojo, repulsa consigo mesmo.

Lágrimas, antes represadas, formam linhas quentes e úmidas que começam abaixo dos olhos e acabam no queixo. A voz trêmula continua contando as histórias que guardara para si, as quais eram seu autoflagelo todos os dias.

Às vezes, sua única vontade é suprimir a dor que nunca se cala, que continua afundando suas garras, arranhando por dentro. O medo, envolto por vergonha e nojo, acaba se tornando um fardo pesado demais para suportar. E em alguns casos, deixar tudo para trás é a melhor saída encontrada, mas não um “deixar para trás” positivo.

No fim das contas, sempre se arranja um motivo para culpabilizar a vítima. Em um relacionamento abusivo, dizem que havia uma escolha, que era possível ter abandonado aquela relação. Assim, dia após dia, cultiva-se o medo no coração dos indivíduos. O medo da reação, do julgamento. O medo que culmina em silenciamento. O medo de todos, o medo de nós.

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