ASSOMBRADAS E SILENCIADAS

Por Mirna Tonus

Do que as mulheres têm medo? De baratas, diriam alguns. De aranhas, diriam outros. A lista de bichos é extensa. É que, diante desse tipo de medo, alardeamos, mostrando logo o objeto do temor e pedindo socorro, caso não tenhamos coragem de nos livrarmos dele. É um medo do qual só nos lembramos quando ameaçadas pela presença desses pequenos seres. Só que esse medo não é exclusivamente feminino. Tem homem com medo de barata também. E de cobra, sapo, rato, escorpião, até borboleta.

Longe desses bichos, conseguiríamos viver normalmente, sem temer nada… ou quase nada. Quase porque sempre tem um medo que nos acompanha e que independe da presença do objeto ameaçador, embora possa aumentar diante dele. É o medo de andar pela rua à noite sem saber se tem alguém à espreita, de avistar determinados seres cujos olhares incomodam pela intenção que sinalizam, de ouvir vozes que indicam a proximidade desses mesmos seres. Medo do assédio, da violência disfarçada de elogio, de palavras que fazem torcer o estômago. Medo com que dormimos e acordamos todos os dias.

Foto: Vix

Foto: Vix

É um medo sobre o qual não fazemos alarde. E é por não ouvirem nossos gritos, silenciados também pelo medo – de sermos julgadas, desacreditadas ou ofendidas –,  que não enxergam esse medo em nós. Quem diria que vivemos amedrontadas pelo fantasma do assédio? Somente nós, que conhecemos tão bem tal sensação, conseguimos identificá-lo.

O assédio – com suas consequências – não é uma barata que pode ser esmagada com um chinelo ou imobilizada com um inseticida. Nem conseguimos aprisioná-lo em um pote de vidro. Pelo contrário, quando mais tentamos contê-lo, mais força damos a ele, pois não gritamos e, assim, ninguém pode ajudar a pegá-lo.

Está na hora de expormos esse medo. Só assim as pessoas verão que os bichos que nos assustam são outros e estão mais próximos do que imaginam.

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