O MEDO E SUAS MÚLTIPLAS NUANCES

Por David Rodrigues e Giovanna Tedeschi

Popularmente posto sob conotação negativa, porém de forma equivocada, o medo é uma das emoções mais básicas e primitivas do ser humano e de todos os animais, cuja função principal é nos proteger, nos preparar para situações de perigo, nas quais estaremos diante de algum tipo de ameaça. Enquanto mecanismo de defesa, o medo é tido como perfeitamente normal e saudável por especialistas como psicólogos e psiquiatras. No entanto, este temor se torna patológico quando, desproporcional ao tamanho do perigo e desconectado de sua função primária, causa algum tipo de limitação na vida de um indivíduo.

Todos os dias milhares de pessoas passam por situações extremas, em que precisam enfrentar o pânico para realizar tarefas aparentemente simples. Esses impasses patológicos causados pelo medo são chamados de fobias, as quais correspondem a uma resposta exagerada do corpo humano em relação a um objeto ou situação que não possui tanta relevância.

No campo da psiquiatria, a fobia é entendida como um sentimento de apreensão perante algo que não representa perigo real, uma ansiedade excessiva que causa alguma forma de limitação na vida do indivíduo. Não necessariamente advindas de experiências traumáticas, elas quase sempre têm motivos inconscientes. Também podem ser aprendidas, assimiladas pela pessoa dependendo do ambiente ao qual a mesma está exposta.

Segundo o psiquiatra Alfredo Demétrio Jorge Neto, estudos recentes afirmam que algumas destas fobias podem ser hereditárias, além de herdadas através da convivência. Por exemplo: se uma mãe demonstra extremo medo de baratas perto do filho, é bastante possível que a criança também apresente esta fobia. Uma curiosidade acerca das fobias é a variada gama de medos que elas abrangem e os nomes curiosos que estas recebem. Por exemplo, há a gefirofobia e a coulrofobia, respectivamente os medos de cruzar pontes e de palhaços.

Outro importante tipo de medo a ser citado é aquele representado pelos traumas, cuja causa provém de situações e acontecimentos inesperados aos quais o sujeito foi submetido e os efeitos do ocorrido ainda têm um impacto nocivo sobre ele mesmo depois de muito tempo, como no caso do transtorno de estresse pós-traumático. Experimentar momentos semelhantes àquele em que o trauma se originou desencadeia uma série de reações, ligadas à ansiedade excessiva, no corpo humano. Aumento da frequência cardíaca, tremores, falta de ar, arrepio nos pelos corporais, mãos e pés frios, tensão muscular e liberação da glicose na corrente sanguínea.

O psiquiatra Luiz Carlos de Oliveira Jr., professor na Universidade Federal de Uberlândia em Minas Gerais, afirma que o medo também pode se tornar prazer, mencionando o sucesso de filmes e séries de terror, além de esportes radicais. “Estas são situações em que vamos experimentar uma forte sensação corporal, primitiva, de grande excitação, mas em um ambiente controlado. É um medo ‘seguro’. Nos tempos antigos o medo era medo e estava associado a mecanismos de luta e fuga, enquanto hoje se tornou uma sensação consumível. Podemos controlar o medo, provocá-lo deliberadamente para tirar prazer dele. Experimentar o limite do perigo sem correr o risco”.

O medo se apresenta de diversas formas. De maneira saudável ou não, representa uma parte significativa da vida e sem ele, se tornaria bastante perigoso conviver em sociedade. Por isso, é necessário que se observe de perto a maneira com que o medo afeta a vida, assim percebendo se é preciso algum tipo de terapia ou se ele está desempenhando seu papel básico. É imprescindível considerar que a grande maioria dos sustos é necessária para conscientizar o ser humano do perigo, por isso não é necessário se alarmar por causa daquele friozinho na barriga: ele pode trazer, muitas vezes, a emoção necessária para o momento.

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