SER EM CONSTRUÇÃO

Por Aline Carrijo, Camila Romão, Iury Machado, Jhyenne Gomes e Mariana Marques

É interessante essa coisa do gênero e da apresentação social.
Tipo, uma coisa não depende da outra mas também estão muito ligadas.
Eu me considero masculino mas uso coisas que são femininas”

—  João Galvão

Foto: Jhyenne Gomes

Foto: Jhyenne Gomes

A CONSTRUÇÃO DO GÊNERO

Desde pequenos somos divididos entre menino e menina, azul e rosa, carrinho e boneca. Os padrões de gênero nos são determinados assim que nascemos. Os padrões de beleza são determinados enquanto nos constituímos enquanto sujeitos. Sair desse determinismo é um processo longo e doloroso que, por vezes, é marcado por olhares tortos, preconceitos e discursos de ódio.

Apesar da discussão sobre padrões de beleza e gênero ganharem espaço, ainda há um intenso debate, como o que ocorreu nas mídias sociais digitais, onde um grupo de pessoas apoiaram um boicote à loja de departamentos que lançou uma campanha publicitária para o dias dos namorados de roupas agênero.

Participando ou não desse debate, você já parou para pensar porque nunca questionou sua identidade de gênero ou porque algumas pessoas questionam?

O QUE É IDENTIDADE DE GÊNERO?

Segundo o manual de comunicação LGBT, criado pela Associação Brasileira de Lésbicas, Gays,
Bissexuais, Travestis e Transexuais
(ABLGBT), “é uma experiência interna e individual do gênero de cada pessoa, que pode ou não corresponder ao sexo atribuído no nascimento, incluindo o senso pessoal do corpo (que pode envolver, por livre escolha, modificação da aparência ou função corporal por meios médico, cirúrgico e outros) e outras expressões de gênero, inclusive vestimenta, modo de falar e maneirismos”.

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Identidade de gênero é a percepção que uma pessoa tem de si como sendo do gênero masculino, feminino ou de alguma combinação dos dois, independente de sexo biológico. “Trata-se da convicção íntima de uma pessoa de ser do gênero masculino (homem) ou do gênero feminino (mulher)”.

GÊNERO E SEXUALIDADE

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O gênero é constantemente associado com a sexualidade. Para alguns, é incabível questionar seu gênero, uma vez que “é homem, porque gosta de mulher”. Precisamos desconstruir essa ideia, GÊNERO E SEXUALIDADE NÃO ESTÃO LIGADOS! Esse é o primeiro passo para melhor entender esse leque que envolve a construção enquanto sujeitos.

QUEBRANDO PADRÕES DE GÊNERO

Diariamente convivemos (ou conhecemos alguém que convive) com pessoas que vão contra os padrões de gênero. João Galvão, 18 anos, representa quem quebra esses padrões. Ele, homem cis, é livre para escolher suas roupas em qualquer sessão da loja, livre para usar maquiagem, e é assim que ele se apresenta.

Com roupas despojadas e a unha esmaltada chegou para um bate papo conosco. Ele afirma que muitas pessoas perguntam sobre o seu gênero devido às suas vestimentas. “As minhas roupas mesmo, de usar muito vestido, saia. É interessante essa coisa do gênero e da apresentação social. Tipo, uma coisa não depende da outra mas também estão muito ligadas. Eu me considero masculino, mas uso coisas que são femininas”.

Foto: Jhyenne Gomes

Foto: Jhyenne Gomes

Pablo Urias, 22 anos, também é uma representação dessa quebra de padrões. Ele, que foi diagnosticado com ‘transtorno de identidade de gênero’, nos contou sobre esse processo. Após ser diagnosticado, começou a pesquisar para saber como ia se sentir bem com o próprio corpo. “Ninguém tira um dia para falar ‘nossa vou procurar saber sobre gênero na internet’, eu também tenho amigos que tem isso e tal. Aí eu comecei a conhecer pessoas, pessoas trans, pessoas não binarias, e foi aí que me identifiquei”.

Pablo não se incomoda em ser chamado no masculino, pois foi chamado assim durante toda a sua vida; mas também não se incomoda em ser chamado no feminino. A questão de qual pronome utilizar, porém, é um assunto delicado. Uma das principais teóricas da questão contemporânea da teoria queerJudith Butler já dizia que com a nomeação se produz corpos e sujeitos. Então, se você não souber como a pessoa se identifica, procure utilizar uma linguagem neutra, como ensinado nesta postagem no Facebook.

Foto: Jhyenne Gomes

Foto: Jhyenne Gomes

Pablo, que se identifica como não binário e também é Drag Queen, explica que essa é uma forma de expressão artística e não está relacionada a questões de gênero, mas admite que se sente mais confortável por ser “do jeito que é”. Segundo ele, no meio LGBT existe muita gente que se incomoda com esse não-padrão.

Ao falar sobre sua relação com a moda, diz que há algum tempo não consegue se vestir como menino e por esse motivo tem investido em peças que não seriam classificadas como femininas, mas também não necessariamente masculinas. “Eu acho que roupa não tinha que ter essa coisa de masculino e feminino porque gênero é completamente diferente. E as pessoas têm de quebrar isso de que gênero tá ligado à sexualidade, igual pensar que a pessoa trans foi uma pessoa tão gay que quis ser mulher, entendeu? Que é uma ‘digievolução’ do gay. Tem muita gente que pensa assim”.

Pablo enfatiza sua preocupação com a educação e com a opressão que se vive devido a essa falta de informação e afirma que muitos problemas e “muito bullying” poderiam ser evitados se as escolas ensinassem sobre gênero e sexualidade e desvinculassem a ideia de moda desses dois fatores.

Diante de todas essas questões, ele decidiu lançar sua própria marca de roupas, que tem como objetivo não se encaixar nos gêneros, tanto em modelo quanto em cor – diferentemente de marcas que recentemente tentaram lançar coleções não-gênero, como a C&A. Em 14 de maio de 2016, a marca publicou em sua página no Facebook a campanha “Misture, Ouse e Divirta-se”, onde supostamente não deveria haver regras de gênero. Porém, o que se pode perceber é que as roupas possuem cores neutras e as divisões entre feminino e masculino ainda permanecem. O site BuzzFeed fez uma matéria tentando criar looks com essa coleção sem gênero e o resultado foi desastroso.

Foto: Jhyenne Gomes

Foto: Jhyenne Gomes

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