POESIA É RESISTÊNCIA

Por Gabriel Valera

Foi-se o tempo em que poesia falada no microfone se centrava exclusivamente em palcos de rap e hip hop. Nascida no ano de 1984 em Chicago, nos Estados Unidos, a relativamente jovem Poesia Slam (ou Slam Poetry, no original) é considerada uma arte literária e se espalhou em diversos países ao redor do globo. Também chamada de Spoken Word (palavra falada, em tradução livre), o gênero se popularizou entre adolescentes e poetas independentes que enxergaram um caminho de inovação nessa nova forma de se fazer literatura.

O termo “Slam” não pode ser traduzido já que remete a um grande estrondo, como quando o vento forte bate uma porta, por exemplo. Daí, infere-se que as poesias deste gênero são naturalmente “barulhentas”, fortes e agitadas. A Poesia Slam se manifesta, na maioria das vezes, no formato de batalhas em que poetas recitam seus trabalhos originais e, em seguida, sua performance é julgada pela plateia.

Prática cada vez mais comum ao redor do mundo, o Brasil também tem ganhado seus participantes e interessados. Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília são exemplos de cidades que já contam com grandes grupos do movimento, como o “Clube da Luta”, a “Guilhermina” e a “Roça”. Mas foi na cidade de São Paulo que um desses grupos surgiu pequeno e cresceu até atingir visibilidade nacional, através de sua fanpage no Facebook: trata-se do Slam Resistência.

Foto: Slam Resistência

Foto: Slam Resistência

Muito mais que poesia falada e manifestações artísticas, o Slam Resistência surgiu no final de 2014, em reuniões de movimentos sociais entre líderes e advogados ativistas chamados de “Quinta Resistência”. Ali eram realizadas intervenções poéticas pelo idealizador e integrante da equipe organizadora, Del Chaves, e outros parceiros e adeptos ao Slam trazidos por ele. Daí para a implantação do Slam Resistência com direcionamento para a chamada “poesia de guerrilha” foi apenas um passo.

Hoje, os encontros acontecem especificamente na primeira segunda-feira de cada mês na Praça Roosevelt, no escadão da Roosevelt com a Rua Augusta na grande São Paulo. Nascido do enfrentamento político e urbano, o foco do movimento está nas lutas sociais num dos países referências no assunto e demais assuntos de  alcance global. “Somos o primeiro coletivo de mídia-ativista-poético de longo alcance no Brasil e esperamos despertar mais pessoas para integrar o movimento e enfrentar o sistema desigual no qual vivemos”, ressalta Del Chaves.

Qualquer pessoa que escreva e interprete poesias de forma decorada pode participar. Lembrando que as apresentações ocorrem em locais públicos, sem qualquer tipo de instrumento musical ou objeto cênico, no tempo máximo de três minutos. “Só você, a palavra e a poesia”, completa Del, que destaca a regra das citações serem autorais. Depois de alcançarem conhecimento nacional graças à página do projeto no Facebook, o Slam Resistência foi matéria da Tv Carta:

Fonte: Tv Carta

Desde sua criação, o projeto ganha cada vez mais adeptos. Sempre repleto de palavras sem censura, produzidas no interior da revolta de uma sociedade desigual, o Slam Resistência vem na sintonia dos protestos, dos movimentos sociais e do enfrentamento político ativo em defesas culturais, sociais, socioambientais e contra truculência do estado para com os manifestantes. Del Chaves entende que a página no Facebook foi o impulso necessário para a divulgação das apresentações dos jovens. “Colocávamos vídeos e matérias de cunho político mundial. ‘Seja mídia’, um lema nosso. Poesia de resistência”.

Robson de Almeida, palestrante e integrante do Slam Resistência desde 2015, explica o funcionamento da competição. “O foco é sempre se destacar com a melhor poesia e performance em relação aos demais, pois o vencedor pode ir pra à França, disputar a Copa do Mundo de Poesia”. Para ele, a importância do movimento está na superação, conhecimento, respeito e gratidão por cada poesia ouvida. “E também por ouvirem a minha. A poesia transforma, revoluciona. Se cada um usasse essa arte, nem que seja uma vez por mês, estaríamos melhores em relação a tudo”.

PLURALIDADE DE CAUSAS

Poetisa Slam há 10 anos, Mel Duarte também é produtora cultural na cidade de São Paulo. Com “Verdade Seja Dita”, escrita em 2014, Mel mostrou toda sua indignação referente às declarações do deputado Jair Bolsonaro sobre o estupro, e principalmente, pela forma de os brasileiros lidarem com o tema. “Após o político dizer que estupraria a deputada Maria do Rosário porque ela não merecia, me indignei pela forma com a qual os brasileiros levam o assunto, sem a devida seriedade. Precisei revidar da minha forma”.

Em participação na Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP), Mel Duarte recitou três de seus poemas slam, incluindo “Verdade Seja Dita”

Mel Duarte tem se tornado uma referência da Poesia Slam no Brasil e, frequentemente, é convidada a participar de eventos de cunho tanto nacional quanto internacional com seus poemas. Trabalhando com diversas temáticas, com destaque para o feminismo e a causa negra, a poetisa também participa de vários outros grupos de Slam ao redor do Brasil. Destes, o “Slam das Minas – SP” é organizado por ela e é o primeiro destinado exclusivamente para mulheres no país. “As pessoas estão aprendendo que a poesia é algo que liberta, uma arte a ser praticada por todos e que pode abrir muitas oportunidades. Participar desses movimentos te faz amadurecer e pra quem escreve é uma escola e tanto”.

“Eu sou viado mesmo e acho muito bom que vocês estão me reconhecendo”, brada um dos versos do poema de outro poeta dedicado ao Slam, Henrique Marques. Indignado com os dados que mostram que o Brasil é um dos países que mais mata LGBT’s no mundo, o poeta foca suas apresentações na temática da homotransfobia e é ovacionado pelo público presente. Assista ao poema citado:

 

Anúncios