O QUE DIZEM OS GRITOS DA JUVENTUDE?

Por Clarice Rodrigues, Gustavo Medrado e Natália Spolaor

Na sociedade, é comum as pessoas serem rotuladas de acordo com os estereótipos que estão presentes. Um deles é o do indivíduo chamado de “rebelde” que, de acordo com o senso comum, é uma pessoa revoltada com os padrões impostos – seja por sua família, escola, trabalho ou religião. Mas será que essa é a verdadeira definição de rebeldia?

Em busca de entender o verdadeiro significado do indivíduo “rebelde”, primeiramente foi necessária uma pesquisa nos dicionários para tentar compreender a sua definição. Sendo assim, com a ajuda da Linguística, encontrou-se o seguinte resultado em alguns dicionários, como no caso do Michaelis Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa que define o termo como:

Comparando a opinião comum e a definição encontrada nos dicionários, é perceptível que existem semelhanças entre elas, pelo menos superficialmente. Porém, deve-se pensar que elas sofrem alterações até mesmo dentro da própria língua, como conta o doutor em estudos linguísticos, Ariel Novodvorski:

Para entender melhor as variações do vocábulo “rebelde” ao longo do tempo, o recurso corpus do português permite buscar o termo e entender os contextos em que a palavra foi empregada, seja em cartas até jornais. Neste software online, é possível ver desde os primeiros registros do termo dentro da língua portuguesa até os mais atuais. Entretanto, essa ferramenta agrega apenas um pedaço da história, com 45 milhões de contextos identificados e também muitos volumes de dicionários diversos. Vale a pena lembrar que, para se entender cada definição, é necessário compreender primeiramente o seu contexto.

Ao se observar a definição do termo pôde-se perceber que ele sofreu modificações com o passar dos anos. No início da história, a palavra “rebelde” estava associada a algo ruim, a atos que desacordavam com as leis de Deus. Ao longo do tempo, houve transformações nessas definições até se chegar nas características que se tem hoje.

Atualmente, se digitarmos “rebelde” na caixa de buscas do Google, todas as primeiras definições encontradas na página inicial do buscador referem-se à telenovela mexicana “Rebelde”, um sucesso de audiência no Brasil e no México que ficou datado na memória de quem era adolescente entre os anos de 2004 e 2009. Da teledramaturgia, cuja trama relacionava vários episódios de conflitos familiares, escolares, religiosos e amorosos que são parte do cotidiano de um adolescente, surgiu um grupo musical – “RBD“. Composto por três rapazes e três moças, o “RBD” atingiu seu auge de sucesso após a transmissão da novela, conquistando o coração dos jovens da época.

No auge da fama, era possível identificar com clareza a influência da banda sobre os jovens e adolescentes, gerando não somente mudanças externas, como tendências de moda, mas também comportamentos sociais. Um dos maiores sucessos da banda foi o hit “Rebelde”, que descreve o comportamento de um jovem que não se conforma com o seu estado atual em versos como: “Y soy rebelde cuando no sigo a los demás” (e sou rebelde quando não sigo aos demais, em tradução livre).

De certo modo, por influência dessa banda, ser “rebelde” para os jovens e adolescentes se tornou algo positivo, um comportamento a ser imitado, pois as atitudes de inconformismo, impulso e imediatismo geram mudanças nas estruturas da sociedade, quebram os padrões que foram estabelecidos há muito tempo e que, para o jovem atual, não têm mais sentido. Entretanto, esses comportamentos não são um marco do século XXI. Sua origem ainda é desconhecida, mas com alguns estudos podemos voltar ao passado e entender que o ápice da rebeldia foi um marco que deixou influências no comportamento dos jovens.

A raiz da rebeldia surgiu no século XX no período pós-Segunda Guerra Mundial que gerou uma grande angústia juvenil. A sociedade contemporânea construiu uma imagem sobre o que é ser rebelde e essa imagem tem conexão com as décadas de 1950 e 1960. Contudo, com o passar do tempo, a figura do rebelde extrapolou os interesses da própria rebeldia, dando origem à atividades econômicas e comerciais.

Um dos fenômenos de venda do século XX que permanece até os dias de hoje, foi o jeans Stone Washing, um produto criado para a identidade jovem. A calça fabricada pela Levi’s trouxe uma novidade no mercado têxtil, pois diferente das outras calças, este modelo chegava às lojas com seu tecido desbotado, sem que se precisasse usa-lá até que ficasse desgastada.

A calça jeans, hoje, pode parecer mais uma mera peça de roupa, mas o seu significado no contexto das décadas de 1950 e 1960 simbolizava uma identidade jovem que buscava uma autoafirmação, um anseio em mudar o mundo, notoriedade e principalmente uma quebra do que era considerado tradicional. Esses jovens se sentiam obrigados a se adequar aos moldes impostos, principalmente no de suas famílias, que eram extremamente tradicionais e recatadas, mas existia um sentimento de “deslocamento” nesses jovens, como relata a historiadora Mônica Campo:

O “American Way Of Life” descrito pela historiadora, é visualizado na obra “A História da Vida Privada 5: Da Primeira Guerra a nossos dias”, organizado por Antonie Prost e Gérard Vincent. No livro, encontra-se a descrição exata das transformações que ocorreram na vida privada dos indivíduos e como os jovens se sentiam incompreendidos dentro de suas próprias casas pelos seus pais.

Aqui se chega a uma transformação fundamental para a vida privada. Se é possível discutir a divisão dos poderes entre o marido e a mulher na sociedade pré-1950, o poder dos pais sobre os filhos é inquestionável: os filhos não tinham qualquer direito a uma vida privada. O tempo livre deles não lhes pertencia: cabia aos pais, que os encarregavam de mil tarefas. Eles vigiavam minunciosamente as relações de seus filhos e mostravam uma grande reticência quanto às amizades extrafamiliares, mesmo quando anódinas” — Antonie Prost

Na sequência, o livro mostra uma foto (ao lado) com a seguinte legenda: “Em cima, um salão burguês em 1958. A empregada serve o café. Livros, mesas, tapetes orientais, flores. Uma televisão, objeto raro na época. Em baixo, a peça única em que mora um casal de lavradores com seus seis filhos, em 1985, perto de Moyon. Notem-se os dois berços, o fogão novo, o guarda-comidas junto à parede, a prateleira suspensa com os enfeites … O século XIX não morreu”.

Esses jovens se encontram em uma situação em que não possuem autonomia alguma, todas as decisões são tomadas pelos seus pais, além de não se sentirem encaixados socialmente, devido aos locais onde residiam não terem nenhuma forma de diversão e entretenimento, exceto os aparelhos eletrônicos que se têm em suas residências. Sendo assim, essa juventude deslocada começa a fugir desse espaço pré determinado.

Uma nova maneira de se expressar, fugindo dos padrões impostos pela sociedade, originada por jovens estadunidenses que buscavam mostrar sua visão de mundo, principalmente no meio literário, representa essa juventude deslocada. Mônica Campo relata que surge nesse momento a chamada geração beat. “Por que eu tenho que me comportar dessa maneira? Daí você vai assistir aqueles filmes da década de 50: ‘Juventude transviada’ e ‘O selvagem da motocicleta’. São filmes que colocam em questões o que é esse ‘American Way Of Life’ e, ao mesmo tempo, nos anos 60, que cidadania é essa que somente alguns têm direito?”, afirma a historiadora.

Durante as décadas de 1950 e 1960, a retratação do estereótipo do rebelde é fortemente impregnada no cinema americano. Nos filmes citados pela historiadora, encontramos cenas que insistentemente vemos um jovem insatisfeito, deslocado e que busca transformar algo sem saber como obter este fim.

De certa forma, o cinema de Hollywood acabou influenciando e reforçando a imagem do “rebelde”. Todavia, a indignação e a movimentação dos jovens por causas populares acabou por se dispersar globalmente, não se restringindo apenas à América do Norte. Em cada país, a contestação desses jovens ocorreu por motivos distintos, mas paralelamente ao mesmo momento histórico, como nos conta Mônica Campo:

O desejo por mudanças sociais esteve muito ligado às causas de revolução dos jovens e adolescentes. Devemos nos atentar ao fato de que, na maioria das vezes, a rebeldia está associada com este período da vida. Então, quais seriam os motivos fisiológicos e psicológicos que contribuem para esse comportamento? De acordo com a psicóloga Arlete Bertoldo, este período é um momento de transição na vida do indivíduo em que ele está deixando de ser criança para se tornar um adulto e a autoafirmação surge como posicionamento de conduta.

É possível concluir que não são todos os jovens que possuem esse desejo de mudança e de ruptura dos padrões. Já outros, não conseguem se desvincular de sua essência revolucionária. É notável que alguns dos comportamentos que a sociedade dita como “rebeldes”, provenham de objetivos pessoais ou por lutas em prol da sociedade, como observamos em algumas das causas pelas quais a juventude lutou ao longo da história. Mas afinal, quem é esse “rebelde”?

Como explica o historiador Marcelo Mahl, não se pode tirar conclusões precipitadas, pois são vários fatores que interferem na maneira como a sociedade vê a figura do “rebelde”. Vai depender do olhar que se tem sobre uma determinada figura e também do momento, pois a imagem do rebelde não é estática, assim, o que é considerado para alguns como rebeldia, para outros não é.

Sendo assim, a real figura do “rebelde” não existe e pode ser considerada fictícia, já que não é possível encontrar um indivíduo que seja intitulado rebelde por todos. De fato, o comportamento de rebeldia tem estado presente na sociedade por muito tempo e tem sido uma engrenagem de mudanças e transformações. Com o passar dos anos, continuaremos a ver uma juventude que tem anseio por rupturas nos padrões e, apesar das alterações que a modernidade proporciona, o importante é que as causas dos comportamentos rebeldes sejam em prol de um progresso social.

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