MAIS ARDIDA QUE PIMENTA

Por Maysa Vilela

“Eu já sou a maior cantora do Brasil” – entoava Elis Regina aos 20 anos enquanto caminhava pela orla de Copacabana, no Rio de Janeiro, pouco tempo depois de deixar sua cidade natal, Porto Alegre (RS), em busca do reconhecimento de seu talento nato, uma consequente carreira de sucesso. Sua segurança chegava a intimidar os que viviam a sua volta. “A convicção de Elis nascia de sua falta de opção. No contexto em que se encontrava, era vencer ou vencer”.

O trecho supracitado foi retirado de “Nada Será Como Antes”, biografia escrita pelo jornalista Julio Maria e publicada em abril de 2015. O livro evidencia parte da personalidade rebelde dessa mulher intensa que, em sua breve existência, marcou a música brasileira e deixou como legado uma obra que ultrapassa o tempo. Em 417 páginas, Julio traça a trajetória de Elis costurando nuances de sua carreira e vida pessoal com maestria.

Relatos de sua adolescência já repleta de apresentações em concursos de rádios locais, sua mudança para o Rio de Janeiro e rápida consagração na Era dos Festivais, a fase dos programas musicais de televisão, o reconhecimento como a principal intérprete da música brasileira. Através de suas interpretações, Elis trazia à luz compositores que viriam a ser conhecidos pelas músicas que compunham, às quais, diversas vezes, eram fruto do estranho fascínio que ela mesma exercia sobre eles.

Tanto os holofotes quanto o fundo do poço visitados por Elis ao longo de sua vida são contados de forma respeitosa. O que soma na construção de um perfil fiel de uma mulher que foi firme e ao mesmo tempo repleta de inseguranças. Em meio ao seu perfeccionismo e intolerância, foi precoce em quase tudo. Como afirma o produtor musical Zuza Homem de Mello no prefácio do livro, Elis teve “urgência de viver”.

“Até que ponto uma cantora pode ser temperamental, franca, impulsiva? Até que ponto um ídolo pode deixar de fazer média com o público e com os críticos? Quando Elis Regina diz o que pensa, grita, briga, agride, provoca as mais desencontradas reações, mas… ninguém discute o seu talento”, dizia o apresentador do Fantástico antes de anunciar a performance de “Como Nossos Pais” durante o programa dominical em 1976. A fala do jornalista resumia com clareza a personalidade da cantora que foi minuciosamente explorada pela obra de Julio Maria: Elis não se conformava com o que incomoda.

Uma interessante passagem da vida da cantora que representa bem sua essência resistente, foi quando – ao saber que uma certa cantora de nome Rita Lee, então grávida, havia sido presa – ela decidiu ir até o presídio tentar fazer justiça. Rita ainda não era muito conhecida pelo Brasil e o peso do nome de Elis, que ameaçava chamar a imprensa, conseguiu livrá-la das grades. O episódio culminou em uma grande e improvável amizade que durou até o fim da vida de Elis Regina. Rita Lee chegou a escrever para a amiga a canção “Doce de Pimenta” que, mais uma vez, ressaltava o caráter insubordinado de Elis.

NA PAREDE DA MEMÓRIA

Recém-chegada ao Rio de Janeiro, em 1964, Elis Regina foi assunto na imprensa local ao ser vista como a mais nova promessa do mercado fonográfico no momento. Com dois discos gravados em sua fase gaúcha, aqueles que a ouviam identificavam algo único em sua voz, uma forte personalidade artística.

Ao ser contratada pela TV Rio, Elis passou a aparecer esporadicamente em programas de televisão que uniam cantores da bossa nova, como Wanda Sá e Dorival Caymmi. Ser vista entre eles, experientes da bossa, fez com que Elis fosse bombardeada de críticas.  Críticas com relação à sua interpretação dura, seu ligeiro estrabismo, figurino e cabelo antiquados.  Para alguns, ela não passava de uma “gauchinha” que, além da baixa estatura, ainda era vesga. Para outros, Elis era um assombro de voz que precisava ser repaginada.

De layout repaginado ou não, Elis estreou nos palcos no Rio de Janeiro no Beco das Garrafas, local pequeno e intimista que unia diferentes músicos e uma dúzia de espectadores. Tendo em vista as poucas conquistas e as dificuldades encontradas no Rio até o momento, ter “uma lasca de palco para cantar” significava muito. Mesmo com os ventos soprando em direções contrárias, Elis sempre soube a que veio.

As noites no Beco das Garrafas fizeram com que ela fosse vista por produtores musicais que acreditaram em sua singularidade. A verdade transmitida em suas interpretações musicais únicas lhe rendeu participações em festivais, nos quais – sempre inconformada – chegou a apresentar algumas das canções mais notórias de afronta à Ditadura Militar no Brasil, como é o caso de “O Bêbado e a Equilibrista” e a já citada “Como Nossos Pais”. Outra marca do sucesso alcançado foram os contratos para trabalhar em programas televisivos como o “Dois Na Bossa”, na TV Excelsior, que apresentou durante três anos na companhia de Jair Rodrigues (futuramente o programa passaria para a TV Record e seria renomeado como “O Fino da Bossa”).

O QUADRO QUE DÓI MAIS

A guinada na carreira de Elis Regina foi rápida. Ao se ver detentora do sucesso que almejava, ela buscava entender de onde vinham suas angústias. Se enxergava como uma mercadoria e via todos ao seu redor correndo atrás de números e mais números.  O salário volumoso lhe permitia tudo. Era capaz de bancar a família, comprar um apartamento luxuoso e montá-lo da maneira que quisesse, mas isso tudo só fazia com que a cantora se sentisse cada vez mais como uma máquina de fazer dinheiro.  Uma mulher de talento e confiança inquestionáveis, no ápice de sua carreira, ao olhar para si só via “um fantoche nas mãos dos homens das gravadoras, do showbiz, das emissoras de TV”.

Elis vivia assim. Na tentativa de equilibrar seu mundo interior, enfrentar suas crises enquanto sua carreira caminhava. Como uma intérprete, ela buscava composições para serem gravadas. Presença marcada em reuniões na casa de músicos como Vinícius de Moraes, Nelson Motta, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Elis ansiava por boas composições que se tornariam interpretações em potencial em sua voz. E o resultado era tão especial que alguns compositores tinham receio em gravar suas próprias canções após Elis as ter interpretado. Depois de vê-la cantando “Se Eu Quiser Falar Com Deus” em um show, Gilberto Gil se perguntou como cantaria aquela música agora.

Elis não suportava a ideia de ficar pra trás. De personalidade competitiva, buscava sempre sair na frente de outras cantoras de sucesso da época. Para ela, isso não era tarefa difícil. Bastava fazer. Tanto que ela só aceitava regravar uma canção já lançada se estivesse certa de que sua voz acabaria com a versão anterior. “Você acha que alguém vai gravar isso melhor do que eu?”, questionava. Em certos momentos Elis se sentia Deus.

Foto: FM Hits

Foto: FM Hits

Em meio à superconfiança estavam seus desgostos, que diversas vezes eram transformados em interpretações magníficas. Elis viveu com a alma em conflito. Aquela que sempre foi contra o uso de drogas – ela chegou até a tirar toda a sua equipe de um hotel no qual haviam acabado de se instalar, graças a um grupo que fumava maconha na sacada ao lado – repentinamente se envolveu com cocaína. Dez meses após ter experimentado os efeitos da droga pela primeira vez, após uma briga com o então namorado, o advogado Samuel Mac Dowell, Elis se trancou no quarto e fez uso de álcool com cocaína, uma combinação fatal.

Na manhã do dia 19 de janeiro de 1982 chega ao fim o reinado que havia durado 17 anos: Elis Regina Carvalho Costa foi encontrada morta, aos 36 anos, no chão de seu apartamento no Jardim Paulista, na cidade de São Paulo. Deixando os três filhos que brincavam naquela manhã como o faziam em qualquer outra, sem imaginar o que estava acontecendo. João Marcelo, aos 11 anos, Pedro Mariano, aos seis e Maria Rita, aos quatro. A morte da Pimentinha chocou a todos naquele dia e nos que se seguiram. A maior cantora do Brasil não gravaria mais nenhuma canção. Não lutaria nem mais um dia contra a angústia que a perseguiu até o fim. “Dentre todas as mulheres que viviam em Elis, uma não conseguia encontrar a felicidade”.

Quatorze dias antes de morrer, Elis deu sua última entrevista ao programa “Jogo da Verdade” e eternizou suas opiniões fortes e personalidade naturalmente rebelde. Assista à entrevista completa aqui.


O NOVO SEMPRE VEM

Na toada de “Nada Será Como Antes”, chega aos cinemas em 2016 a cinebiografia que pretende retratar a trajetória de Elis Regina. A cantora foi interpretada pela atriz Andréia Horta, que precisou sofrer uma transformação para incorporar Elis. Com direção de Hugo Prata, “Elis” ainda não tem data de estreia definida, mas a promessa é que seja exibido ainda no segundo semestre do ano.

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