GENÉTICA SUBVERSIVA

Por Leandro Fernandes

“Mas padre, o senhor nunca deu um tijolo… por que quer a chave da igreja?” – foi a frase que desencadeou a confusão homérica daquele dia. Teve até quem sugerisse que treinaram a menina pra constranger o padre! Dandara tinha apenas seis anos e só disse o que disse porque estava incomodada e triste com aquela situação.

O espaço construído pelos seus pais e pela comunidade em Justinópolis era muito mais que só igreja. Era um espaço para a Pastoral da Criança fazer multimistura e cuidar das crianças em situação de risco, funcionava como sede da Associação de Moradores e também era um local de encontro para as pastorais se reunirem e tratarem os problemas do bairro. Nas décadas de 1970, 80 e 90, existiam movimentos que envolviam questões políticas dentro da igreja, grupos que representam frentes de pensamentos se reuniam para discutir problemas e encontrar soluções.

Com a troca de padre e mudanças ideológicas da Igreja Católica a nível mundial, a igreja não era mais o lugar fundamental para discussões de problemas político-sociais, como do Grupo da Teologia da Libertação, que a família de Dandara fazia parte. O barracão construído na raça estava com os dias contados, mas a primeira manifestação de participação e engajamento da menina conseguiu postergar, pelo menos um pouco, seu fim. Ali não seria mais palco de grandes debates nem um espaço para a comunidade, apenas igreja, como o novo padre queria.

Foto: Acervo Pessoal de Dandara

Foto: Acervo Pessoal de Dandara

Foi um pouco difícil encontrar a casa de número 150. Era a primeira vez que eu entrava no novo endereço da família Bento de Castro. Mesmo no novo lar, se eu não já fosse “de casa”, dificilmente outro jornalista seria recepcionado com pasteizinhos de carne, pizza e cerveja. A mudança de endereço se tornou necessária, a antiga casa não era mais a mesma desde que Anita se foi. Ela, a quem Cristiane não se cansa de citar como mãe e Dandara como avó. É a ela que as duas dedicam a sua força e militância.

Desde sempre, a família foi muito envolvida nas causas sociais. Lusmiro, Cristiane e Dandara são de Gurinhatã, Minas Gerais, mas o caçula da família, Lusmiro Filho, é de Belo Horizonte, capital do mesmo estado. E foi no distrito de Justinópolis, em Ribeirão das Neves, na região metropolitana de BH que a família iniciou a sua caminhada atrelada à política e causas sociais. “Reunião de partido e igreja, Dandara ia desde que estava na minha barriga. Por isso virou isso aí”, brinca Crisbaby, como gosta de ser chamada.

Foto: Acervo Pessoal da família

“E quando me perguntam de onde eu vim, eu respondo: de dentro dela. […] Obrigada por me fazer Dandara!”, legendou Dandara em suas redes sociais. (Foto: Acervo Pessoal da família)

Crisbaby sempre participou ativamente do Partido dos Trabalhadores (PT), desde uma época em que ninguém falava isso abertamente. Na foto de 1985, ela comemora a fundação do partido em Ituiutaba, Minas Gerais. Trata-se de uma das primeiras fotografias ou registros de demonstração de pertencimento ao partido, logo depois da Ditadura Militar no Brasil. Ela lembra com pesar desse tempo em que se vivia sem poder dispor de suas manifestações políticas e que tinha amigos que viviam escondidos, outros presos.

Crisbaby se graduou em Pedagogia com ênfase em Ensino Religioso ainda em Belo Horizonte, na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Depois que os meninos cresceram, a família se mudou pra Uberlândia, também em Minas Gerais. Nova cidade, velhos costumes. A família logo se filiou ao PT local e se integrou à comunidade religiosa e à Associação de Moradores do Bairro São Jorge, onde moravam na época.

Em Uberlândia, Dandara – já adolescente – estudava na mesma escola em que Crisbaby dava aulas. Ela não tinha tempo pra lazer, ir ao cinema, sair com os amigos. Já estava saturada de tantos compromissos, mas quando chegou o tempo da votação do grêmio escolar, as outras crianças decidiram por ela: “a filha da Crisbaby!”. O grêmio foi o primeiro gostinho do que se tornaria quando entrasse na universidade. Relutante, Dandara encarou o desafio e gostou.

Mais tarde, já no ensino médio, ela participou ativamente da campanha da primeira eleição da presidenta Dilma Rousseff. Em 2011, ingressou na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) – Pedagogia. Foi ali que conheceu o Movimento Estudantil. Participou de diversos congressos da União Nacional dos Estudantes (UNE) e se apaixonou, cada vez mais pelo movimento. A partir daí, nunca mais abandonaria a luta pelas causas nas quais acredita.

Foto: Acervo Pessoal de Dandara

Foto: Acervo Pessoal de Dandara

Seu engajamento com o Diretório Acadêmico do curso de Pedagogia da UFU lhe rendeu participação nos Conselhos em que representava os estudantes. Não demorou para que ela participasse da gestão do Diretório Central dos Estudantes (DCE), quando foi Coordenadora Geral em 2012. Os alunos de Pedagogia, que quase não votavam nas eleições do DCE, fizeram deste o curso que proporcionalmente mais votou naquele ano.

Em 2013 e 2014, Dandara foi Diretora de Políticas Educacionais da União Estadual dos Estudantes de Minas Gerais. E foi tendo o contato com essas formas de política e representação que ela se interessou por uma política mais “macro”, pra fora da universidade, uma política de “disputar corações e mentes”. Seu gênero e cor da pele a levaram ao despertar para a militância feminista e negra, depois de experimentar os agouros da misoginia e do racismo dentro até mesmo das instituições em que se envolvia politicamente.

DAS BOMBAS DE 1964 ÀS DE 2013

Hoje, Dandara é representante do Coletivo Enegrecer no Conselho Nacional de Políticas por Igualdade Racial (CNPIR), que propõe políticas de promoção da igualdade racial, com ênfase na população negra e outros segmentos raciais e étnicos da população. Em uma das suas últimas reuniões, o conselho – que hoje está suspenso à espera do fim do processo de impeachment da presidenta eleita – apresentou o relatório de uma CPI que reconhece a morte de jovens negros. O documento oficial do Estado Brasileiro reconhece o extermínio e o genocídio destes jovens.

Não foi daquela vez, no barracão da favela em Justinópolis, que a menina Dandara conseguiu mudar a realidade com sua indignação. Também não foi naquele dia que conseguiram calar a sua voz. “Nós duas já sentimos o cheiro de bombas de efeito moral, eu em 64 e Dandara em 2013”, comenta Crisbaby. Militância e rebeldia, pelo menos pra essa família, é genética.

Fotos: Acervo Pessoal de Dandara

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