DAS REDES ÀS RUAS

Por Ana Eliza Barreiro, Elaíny Carmona, Samantha Loren e Samantha Verhaeg

Nos últimos anos, a internet e as redes sociais têm se mostrado grandes suportes para a organização de mobilizações, discussões políticas e divulgações de causas. Essa forma de ativismo online é conhecida como ciberativismo e tem sido amplamente utilizada por diversos indivíduos com o intuito de colocar em pauta algum assunto, provocar discussões ou mobilizar um grupo. Um dos maiores exemplos de movimento social que utiliza do ciberativismo e, na maioria das vezes, obtém êxito é o movimento feminista.

A criação da hashtagMeuPrimeiroAssédio” nas redes sociais digitais Twitter e Facebook é um exemplo claro do ciberativismo utilizado pelas mulheres e pelo movimento feminista. Quando uma mensagem de assédio sexual direcionada a uma garota de 12 anos participante do programa de TV MasterChef Junior se espalhou pelas redes, várias mulheres se organizaram e lançaram a campanha, com o intuito de denunciar algum tipo de assédio vivido por elas.

O ciberativismo, apesar de ter como suporte a internet, não se limita apenas à esta. A onda de movimentos femininos que ficou conhecida como “Primavera das Mulheres” ou “Primavera Feminista”, ocorridos em 2015, foi uma forma de protesto contra a PL 5069 proposta pelo deputado Eduardo Cunha, que dificultaria a profilaxia e o tratamento de mulheres vítimas de estupro, além de proibir a compra da pílula do dia seguinte, por ser considerada abortiva. Esses protestos, que tomaram conta das ruas de inúmeras cidades do Brasil, foram organizados por mulheres através da internet e, principalmente, do Facebook, pela criação de eventos que divulgassem os atos nas cidades e mobilizassem a população, para que fosse possível realizar um ato que tomasse proporções grandiosas.

Com isso, após o recente e lamentável caso em que uma adolescente de 17 anos foi estuprada e teve as imagens do crime vazadas na internet, as mulheres se organizaram mais uma vez através das mídias sociais digitais e foram para as ruas, puxando um ato nacional para o início de junho, na tentativa de tornar esse mês o “Junho Feminista”, lutando contra a cultura do estupro.

Fonte: Superinteressante

Vale ressaltar a importância educativa dessas mídias sociais, já que nem todas as pessoas possuem meios de se manifestarem nas ruas ou tomarem conhecimento de assuntos como esses através das mídias tradicionais. O objetivo desta reportagem é tentar reconstruir o percurso da internet até a rua e explorar a importância do ciberativismo para o emponderamento das minorias politicas.

ciberativismo

Em entrevista com a ativista Eloíse Moreno, voluntária da ONG SOS Mulher e Família, pudemos ter acesso a um ponto de vista de quem trabalha diretamente com o ativismo e o ciberativismo. Ela nos contou desde como utiliza as redes sociais para divulgação dos movimentos até como se tornou uma referência para as mulheres, que muitas vezes a procuram em busca de ajuda.

Foto: Elaíny Carmona

Foto: Elaíny Carmona

Durante a entrevista, perguntamos sobre a opinião da ativista sobre a influência das redes sociais nos movimentos, como o feminismo, por exemplo. Ela não hesitou em falar da importância não apenas das redes, que ajudam a proliferar as informações, mas também do cuidado que devemos ter na hora de expressar as ideias, uma vez que dentro da internet há a livre interpretação daquilo que é escrito e postado, sem, necessariamente, haver uma compreensão exata da forma e do tom que as coisas foram faladas.

Além de participar dos protestos e dos movimentos propostos pela ONG, Eloíse também ajuda no compartilhamento de outros movimentos, buscando aumentar a visibilidade de todos, um outro aspecto importante do uso das redes sociais nos grandes movimentos. Ela frisa a necessidade de haver discussões que sejam pacíficas, de forma a tentar fazer com que o outro compreenda o que está acontecendo sem que haja a imposição de nenhuma ideologia. Uma conversa sem violência e que, com o tempo, faça você perceber as pessoas com quem vale a pena discutir e com quem não vale. “Infelizmente ainda têm pessoas que realmente não querem mudar, que você pode apresentar todos os argumentos científicos possíveis que for e ela vai continuar com a mesma ideia dela”.

A humildade e a paciência são duas características cuja a importância é inegável, o que Eloíse deixou bem claro na entrevista. “O que eu mais critico nessa militância de internet é a imposição, as pessoas querem impor muito e escutar de menos. Só que ninguém nasceu sabendo das coisas. Até eu, que sou feminista, tenho que me desconstruir todos os dias, eu não sou perfeita. Ninguém é perfeito! A gente tem nossos preconceitos, todo mundo tem seus preconceitos. A gente nasceu nessa sociedade que impõe coisas e que normalizou coisas pra gente, que a gente vai ver que não são normais depois. Então a gente tem que ter humildade pra saber que outras pessoas podem não ter acesso às informações que a gente tem e tentar ser o mais democrático possível pra disponibilizar e levar essas informações pras pessoas da forma mais pacifica possível”.

internet

A funcionalidade das mídias digitais para a organização de movimentos sociais foi colocada em prova nos últimos anos, mesmo a partir de atos simples, como a mudança de uma foto no perfil de uma rede social. Relacionando ao feminismo, podemos citar a onda de protestos da Primavera das Mulheres que tomou as principais capitais brasileiras – e algumas cidades do interior – no fim de 2015 e que foi totalmente organizado pela web, além dos protestos em repúdio ao estupro coletivo que uma jovem de 17 anos sofreu em maio de 2016.

twibbon

Printscreen: Twibbon

Os meios de protesto se multiplicaram com a internet. Um deles, muito utilizado recentemente é a adição de filtros às fotos do perfil das redes sociais, através do site Twibbon. Tal ação foi popularizada pelo próprio Facebook, quando o casamento igualitário foi aprovado nos Estados Unidos e viu-se a rapidez de como uma informação pode ser propagada. Em poucas horas, quase todas as pessoas que se identificavam com a causa já tinham adicionado o filtro colorido às suas fotos. Isso faz com que as pessoas que não sabem sobre o assunto se informem e desperte a curiosidade para buscar mais a fundo.

Como exemplo mais recente, vimos o espantoso caso de estupro coletivo que ocorreu no Rio de Janeiro em maio de 2016 só chegar às mídias tradicionais por movimentos como esse. O filtro “Eu luto contra a cultura do estupro” acompanhado de um símbolo feminista tomou conta das redes sociais e pressionou os meios tradicionais de comunicação para que adicionassem o fato à sua agenda que, mesmo com a pressão, só noticiou dias depois de ter acontecido.

Entretanto, esses movimentos não ficam necessariamente apenas na internet. Como exemplo, a Primavera das Mulheres chegou ao município de Uberlândia, Minas Gerais, em outubro de 2015. O ato foi organizado por mulheres independentes e utilizava o Facebook como principal meio de divulgação. O movimento aconteceu na Praça Tubal Vilela, uma das principais praças da cidade, e contou com cerca de 100 mulheres que protestavam contra a PL 5069, do Deputado Eduardo Cunha.

Foto: Jhyenne Gomes

Foto: Jhyenne Gomes

Já no dia 17 de junho de 2016, outro ato, também organizado pelas mídias sociais, tomou as ruas de Uberlândia. A Praça Tubal Vilela mais uma vez foi o centro da aglomeração e, dessa vez, as mulheres foram às ruas protestar contra a cultura do estupro no ato “Por Todas Elas”. As manifestantes usaram batuque e hinos feministas para chamar atenção das pessoas, que passavam apressadas pelo ponto de encontro.

novos olhares

Edição: Ana Eliza Barreiro, Elaíny Carmona, Samantha Loren e Samantha Verhaeg

CONTEXTO: CLIMA MEDIEVAL

O ano era 1484. Na Europa, uma atmosfera cinza unia-se ao clima de medo. O horror estava decretado: sobre o aval do Papa Inocêncio VIII, a caça às bruxas foi apoiada em bula papal. Mulheres inocentes eram assassinadas brutalmente – queimadas ou afogadas. A acusação de bruxaria era uma desculpa para matar em massa a figura feminina (e seu “pecado original”). Milhares de mulheres foram torturadas até a morte na Idade Média. O crime? Ser mulher.

A morte abria suas asas vinda pelo ódio. Características como encontros femininos, mulheres pedintes ou, opostamente, com liberdade econômica (como as parteiras), ou apenas velhas ou novas demais eram apontados como possibilidade de bruxaria e culto ao satanás. Qualquer uma estava sujeita a ser julgada.

Foto: Elaíny Carmona

Foto: Elaíny Carmona

Esta última frase te soa familiar? Hoje, o mundo pós-moderno ainda tem situações medievais. Qualquer uma está sujeita a ser julgada. Mulheres são violentadas, machucadas ou humilhadas simplesmente por não pertencerem ao gênero dominante. A culpa novamente retorna às vítimas, desta vez não queimadas vivas, mas com o silêncio imposto. Reagir aos paradigmas de masculinidade é ser uma bruxa feminista.

O ano é 2016. No Brasil, uma atmosfera cinza une-se ao clima de medo. O horror continua decretado: uma moça de 17 anos foi violentada por mais ou menos 33 homens. Sua violação foi gravada e divulgada em redes sociais. A culpada, para muitos, era a menina. A ideia de que ela, bruxa puta, devia ser queimada socialmente (afinal ousou sair de casa e deixou de ser bela, recatada e do lar). Seu crime? Ser mulher.

Mas desta vez algo diferente aconteceu. Esta moça tão machucada viu que não estava sozinha. Pelas redes sociais, inúmeras brasileiras se colocaram no lugar daquela menina e resolveram dizer “Basta!”. Basta de uma violência que tem ares medievais. Séculos de opressão foram desmascarados e atos contra uma cultura machista foram marcados país afora.

É preciso colocar o dedo na ferida. A internet é um espaço que revela cada vez mais a união das mulheres. As nativas digitais são adeptas a um meio de comunicação que as permitem se reconhecer como parte silenciada do passado e transformadoras do futuro.

ATIVISMO NA ERA DIGITAL

O ciberfeminismo é um fenômeno recente. Nunca antes a visibilidade de movimentos sociais foi tão intensa como na era digital. A possibilidade de interação no universo da internet é uma forma de dar voz aos marginalizados. O movimento feminista é uma dessas ondas de ciberativismo que vem conquistando cada vez mais adeptas.

As violências que meninas, jovens e idosas sofrem formaram um ciclo resistente ao tempo e gerações. A submissão é algo naturalizado. O feminismo é necessário para salvar mulheres que diariamente são violentadas, agredidas ou assassinadas.

As polêmicas ao redor do feminismo também envolvem o espaço virtual. A divulgação de textos e imagens feministas vem se popularizando e isto incomoda um sistema opressor. A igualdade de gênero ainda é vista como discurso exagerado para quem acostumou-se ao privilégio. Conflitos à parte, o fato é que, pela comunicação virtual, as mulheres não se sentem mais tão sozinhas.

FEMINISMO PARA TODAS

Não se pode negar a necessidade de um diálogo feminino para rever os conceitos de gênero e poder. Hoje, a internet é um espaço que permite a união deste movimento social. Porém, não podemos deixar de mencionar que empoderamento ainda é algo longínquo em grande escala. Isso porque grande parte do problema deve-se à falta de educação crítica e de acesso à informação.

Os atos feministas ganham ajuda pela comunicação simultânea que as redes sociais proporcionam. Entretanto, quem são as mulheres que embarcam nestas manifestações concretas? Parte da polêmica deve-se à pergunta: afinal, o feminismo digital alcança as mulheres nas ruas?

Foto: Elaíny Carmona

Foto: Elaíny Carmona

Pensar ciberfeminismo libertário é pensar inclusão digital. Milhares de pobres morrem por feminicídio sem terem acesso às mesas de debate de gênero. Milhares morrem em abortos clandestinos sem nunca terem discutido sobre a sexualidade e direito ao corpo da mulher. Muitos pontos devem-se pela falta do conhecimento do poder feminino. E isto precisa ser revertido.

A internet é uma galáxia recém-explorada. Se, por um lado, as mensagens feministas mobilizam inúmeras manifestantes, por outro, não chegam a todas. A discussão de gênero deve ser digital e também concreta, dar conta de conversar com mulheres com filhos e turnos pesados de trabalho. É pela comunicação que se chega ao empoderamento; o ponto principal é saber enxergar com empatia a outra mulher.

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