BELAS, DESBOCADAS E DO BAR

Por José Elias Mendes

Vivi pra ver o dia em que o mercado da música sertaneja no Brasil cederia espaço para personagens que, por muitos anos, eram improváveis nesse cenário: as mulheres. Claro, sem desconsiderar grandes nomes raros e esporádicos como Inezita Barroso, Roberta Miranda e Paula Fernandes, a música sertaneja sempre foi um produto exclusivo do universo masculino.

Para muito além de apenas “ganhar espaço”, artistas como Marília Mendonça, Maiara & Maraisa e Simone & Simaria, entre outras, já foram batizadas como “as Rainhas do Sertanejo” e apresentam números impressionantes durante todo o ano de 2016: não há uma semana do ano em que pelo menos uma das cantoras não figurava no Top 5 das músicas mais tocadas pelo país. O fenômeno não passou despercebido e tem sido explorado por grande veículos de mídia, como o jornal O Globo e até mesmo o Fantástico:

O sertanejo, popularmente chamado de “música de corno” por aqueles que não curtem o ritmo, é um gênero totalmente brasileiro nascido no ambiente rural do país e seu sucesso nacional pode ser considerado relativamente recente. Geralmente melancólica, a música sertaneja tem seu principal foco nos sofrimentos e desilusões amorosas do eu-lírico musical. Intimamente relacionados, temas recorrentes nesse gênero são o sexo e o álcool – daí já podemos ter uma ideia do porquê de as mulheres, até então, não terem espaço nesse meio.

Sexo e bebedeiras são assuntos amplamente explorados nos trabalhos das cantoras já citadas. “E quando a gente se encontrar de novo vai ter show completo / na cama, no chão, no teto / do jeitinho que a gente quer”, cantam as gêmeas mato-grossenses Maiara & Maraisa em uma das letras de “Ao Vivo em Goiânia“, dvd que as alçou ao sucesso. Em “10%“, carro-chefe da dupla que têm chegado a fazer 8 shows semanais, uma mulher sofre enquanto bebe todas em um bar ao lembrar de um grande amor (“e esse garçom não me ajuda, já trouxe a 20ª saideira”).

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As irmãs baianas Simone & Simaria vão além. Com 20 anos de carreira no forró, decidiram partir para o sertanejo (e finalmente atingir sucesso nacional) com um dvd de título bastante sugestivo: “Bar das Coleguinhas“. Especializadas no sertanejo “sofrência”, a ideia é sofrer por amor e “beber até cair e, se cair, continuar bebendo deitada”. Entre outras frases ao estilo locução de rodeio entoadas nos intervalos entre as músicas, Simaria sempre evoca a bebedeira, como em “é melhor viver embriagado do que viver iludido nessa miséria” ou “hoje eu não tô boa pra beber, hoje eu tô excelente”.

Vivi pra ver o dia em que o brasileiro aceitaria com naturalidade uma mulher (ou duas) cantando abertamente sobre temáticas espinhosas e culturalmente proibidas ao gênero feminino. Em tempos em que ainda tem gente exaltando a mulher “bela, recatada e do lar“, as Rainhas do Sertanejo chegam chutando a porta e, sem nenhuma espécie de pudor, são belas – cada uma à sua maneira –, desbocadas e do bar.

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