VIVENDO E APRENDENDO

Por Bruna Pratali

Hélio tinha 16 anos quando um engenheiro carioca do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER) bateu à sua porta. Filho de pai mecânico e mãe do lar, Hélio vivia com muita dificuldade em Uberlândia, Minas Gerais, quando recebeu o convite para ir trabalhar para a empresa. Pegou o ônibus e foi para a Cidade Maravilhosa. Era época da Ditadura Militar e se recorda de todos os “poréns” daquela ida ao Rio de Janeiro. Ele estava com 17 anos e ainda não havia servido ao exército.

Com uma carta de próprio punho, escrita pelo engenheiro do DNER, foi ao encontro do primeiro marinheiro que viu na vida – pronto para justificar seu não-alistamento. Hélio não sabe se foi por destino ou má sorte, mas, quando chegou para entregar a carta ao comandante, era justamente o dia da aplicação das provas de recrutamento. Mais um imprevisto: naquela época de conturbação política, não dispensavam ninguém. “Se você pudesse ficar de pé era admitido”, lembra. Foi assim que o oceano separou Hélio da vontade de trabalhar e estudar.

Separados pelo oceano

Foram muitos anos longe de casa. 35, somando o serviço militar, o trabalho, casamento e criação dos filhos. Depois foi a hora da aposentadoria. A vida militar e de trabalho proporcionou a Hélio as mais variadas viagens. De Uberlândia ao Rio de Janeiro, do Rio de Janeiro ao mundo todo. De volta ao Rio, foi para Brasília. Voltou para o Rio, onde residem os dois filhos, já adultos. Talvez seja verdade aquela máxima de que não existe lugar como o nosso lar. Hélio decidiu voltar para o dele: em Uberlândia.

Mesmo depois de tudo, a vontade de fazer um curso superior ainda era grande. Hélio estava aposentado e, depois do cursinho, fez o vestibular três vezes antes de passar para História. Mas o que o fisgou mesmo foi o curso de Ciências Sociais, onde continua até hoje. A desaprovação do pai foi grande: naquela idade o melhor a fazer era se tornar advogado. Para Hélio, que está com 63 anos, o curso de Ciências Sociais veio como uma forma de aproximar duas paixões: a igreja, gosto que veio de sua avó, e a escola.

A pouca presença de pessoas idosas nas universidades existe por alguns motivos, segundo o estudante. “A pessoa, quando já está mais velha, vai perdendo o entusiasmo por muitas coisas. E pra voltar aos estudos você tem que ter muita força de vontade, muita determinação, porque você está fora do contexto de uma faculdade”. Hélio é sempre confundido enquanto funcionário ou professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

Já para a psicóloga e especialista no processo de envelhecimento, Marineia Crosara, é a meta de vida do idoso que justifica a sua entrada na universidade. Isso porque, depois da experiência no mercado de trabalho, a realização pessoal pode vir de alguma outra forma que não seja o estudo. Para a especialista, existe uma separação cultural normativa entre jovem, adulto e idoso, fazendo com que exista o sentimento de que ser estudante não é para pessoas mais velhas.  “O idoso entrar na universidade não é o mais difícil. A aceitação que ainda tem muitas barreiras”.

Mesmo que, em 2013, o número de pessoas acima de 60 anos no ensino superior tenha crescido em 77%, ainda é baixa a sensação de pertencimento de pessoas idosas nos ambientes acadêmicos. Hélio já teve que superar algumas crises e, hoje, mesmo orgulhoso de si mesmo, evita falar para as pessoas de seu convívio que é um estudante.

“Eu sempre fico pensando: ‘caramba, eu to tirando a vez de um garoto ou garota de 17 anos’, mas ao mesmo tempo eu me olho no espelho e digo: ‘mas eu briguei por isso aqui, eu corri atrás’”. Depois de tudo, Hélio não quer ficar parado e aproveita o tempo que tem para estudar.

Nós do tempo

Flávio Muniz havia acabado de assistir a uma aula de História Contemporânea. Estava com seus livros em cima da carteira, a pasta cheia com mais papéis. Estar ali, na universidade, era sonho antigo e, há alguns anos, um pouco distante. Como garoto negro de periferia, sua adolescência foi marcada pelo sentimento de que concluir o ensino médio público já estava de bom tamanho. Mas não. Aos 39 anos, Flávio cursa História e divide o espaço acadêmico com mais 62% de alunos que, segundo pesquisa de perfil realizada pela UFU, em 2014, têm entre 18 e 22 anos.

Flávio faz parte da minoria de pessoas que, depois de muita vivência, resolveram persistir em um sonho antigo. Dentro da UFU, ele estuda ao lado de uma maioria jovem, composta até mesmo por seus dois filhos adolescentes – algo não muito comum. Mas não se abala. “Quando eu entrei na sala, consegui apreender melhor algumas coisas do que os meninos mais novos. Talvez pelas formações anteriores também, mas também pelo fato de que existe um conjunto de informações que eu já tinha e que os meninos não tinham”. Flávio é exemplo de que idade não deve limitar sonhos.

Quando entrou na universidade, eram ele e mais nove alunos mais velhos em uma sala de 40 pessoas. Flávio é pai de família de três filhos e acorda todos os dias cedo para estudar. Depois do almoço, mantém o trabalho de tutor particular, colaborando na formação profissional de vários estudantes com dificuldades em exatas e redação. Paralelo a isso, a coordenação da ONG Escola da Vida também ocupa espaço na agenda, deixando a ele as madrugadas para os estudos.

É longa a linha do tempo. O atual estudante passou de técnico de enfermagem, quando adolescente, para administrador nos anos 2000. Chegando ao fim do curso, se aproximou da área de Treinamento e Desenvolvimento em Corporações. Mas a linha do tempo é cheia de fazer nós e todos os caminhos o levaram para a educação formal. Em 2007, abriu seu próprio escritório de consultoria educacional e manteve o trabalho de educador social na ONG Escola da Vida. “É nessa ONG que desenvolvemos vários projetos sociais na área de educação. Então eu tinha que melhorar minha percepção do trabalho que a gente estava desenvolvendo. Eu senti a carência de uma formação específica que me permitisse pensar melhor a sociedade”.

Não se trata de perda de tempo. A oportunidade de ter outra formação faz brilhar os olhos do estudante de História. “Acho que algumas pessoas mais velhas podem se sentir um pouco tímidas em relação aos outros por pensar que nós estamos aqui porque perdemos tempo. Não, pelo contrário. Acredito que estamos aqui porque estamos aproveitando melhor o tempo que nos foi dado. E o tempo é o tempo de agora, não é o tempo que passou”. Fazer um curso de graduação é contribuir melhor para a sociedade em que se vive, independentemente da idade. O bom é manter a juventude na alma. Seja com 18, 39 ou 63 anos, não é só vivendo que se aprende, mas aprendendo que se vive.

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