VAMOS FALAR SOBRE ETARISMO?

Por Jhonatas Silva

É uma palavra estranha: etarismo. Seguindo definições encontradas na internet, trata-se de um tipo de discriminação contra pessoas ou grupos, baseada na idade. Conforme pensamos melhor sobre o assunto, percebemos que este ainda é um tema “estranho”, pouco abordado, mas tão importante para nosso mundo atual quanto o racismo, homofobia e outras formas de preconceito.

Talvez seja possível que um dia, alguns de nós – agora jovens e despreocupados com relação a nossas idades e limitações – ouçamos coisas como: “Isso está errado!”, “A senhora não limpa direito!” ou “O senhor não tem mais idade para isso!”. Agora façamos um exercício de empatia: pare e pense no seu ente mais querido e tente imaginá-lo dizendo isso para você. Doeu? Se estiver ao menos incomodado, estaremos no caminho certo.

Digo isso pela experiência de alguém que, às vezes, observa o cotidiano de duas mulheres de meia idade encarregadas de cuidar de sua mãe, de 82 anos, portadora do mal de Alzheimer. Porém, ao contrário do que muitos pensam, tal doença não significa o fim – assim como a própria idade avançada não significa o fim, seja dentro ou fora de casa; apenas, talvez, um recomeço. Uma nova forma de olhar a vida.

– Ela precisa de exercícios físicos, inclusive para distração da mente – diria, em outras palavras, o médico que, mesmo não conhecendo de perto a situação, fazia um diagnóstico mais do que correto, uma vez que a senhora já tinha sido uma mulher extremamente ativa em seus mais de oitenta anos de vida. Agora, fosse por cuidado exacerbado ou simples discriminação, uma das filhas tratava de impedir a mãe de fazer quase todas as atividades que ela praticava quando ainda vivia sozinha.

Se lava uma louça, não lavou direito, se varre a calçada, também não está certo. Com isso a senhora cai em um limbo, assim como tantos outros idosos. Porque são excluídos da nossa sociedade pautada por padrões psicossociais que endeusam a juventude e a beleza, como sinônimos de liberdade e diversão em detrimento da experiência e da sabedoria de uma vida, em muitos casos, bem vivida.

É certo que, no caso citado, de uma portadora de Alzheimer, as limitações existem, porém isso não é motivo para isolá-la em uma bolha, seja por proteção ou comodidade. Muitas famílias tendem a colocar seus idosos em asilos – palavra aqui empregada da forma mais sincera possível, uma vez que “retiro”, ou mesmo “clínica”, raramente descrevem o interior desses locais –, quiçá lembrando de lhes fazer visitas uma ou duas vezes ao ano. Isso, sim, é o fim!

E, conforme nossa própria sociedade “progride”, descobrimos cada vez mais que o número de idosos em todo o mundo tem aumentado. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a participação de brasileiros com mais de 60 anos de idade em 2055 será superior ao número de indivíduos com menos de 29 anos. Isso, sem levarmos em conta o fato de que alguns países europeus e asiáticos (como Grã-Bretanha e Japão) já possuem uma população majoritariamente idosa. Contraditoriamente, têm surgido tratamentos para doenças como o próprio Alzheimer e uma melhora considerável na qualidade de vida dessas pessoas, porém, com ele, tem aumentado também nosso estranhamento em relação a esta palavra e a este sentimento.

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