SOBRE RUGAS, CICLOS E FINAIS

Por Thatiana Angeli

Use protetor solar. Repasse a cada três horas. Jamais durma sem tirar a maquiagem. Beba água. Muita água. A partir dos 25, já é bom começar a usar cremes antirrugas. Depois dos 35, isso se torna quase obrigatoriedade. Para estimular a produção de colágeno: laser. Peeling. Para as manchas: luz pulsada. Dói. Queima. Mas resolve. A partir dos 40, um botox já é bem válido. Preenchimento. Pele flácida? Mais colágeno. Pilates. Musculação. Tudo isso pra quê, mesmo? Ah é, a idade. Sempre ela. Chegando sem avisar, depressa. Num piscar de olhos, foram-se quase 10 anos, bons momentos e alguns pés-de-galinha no canto do olho.

Envelhecer, na sociedade atual, se tornou praticamente um tabu. Com as revoluções tecnológicas acontecendo em uma velocidade absurda, os mais velhos passaram a adquirir a necessidade de se adaptarem às novas situações e transformações, com a mesma velocidade. Além disso, também perderam o posto de serem os mais sábios, já que os mais jovens dominam com mais facilidade essas novas tecnologias. Porém, uma das preocupações relacionadas à velhice que mais gera discussões é a estética.

Em novembro deste ano, uma mulher foi fotografada no aeroporto, chamando a atenção pela sua aparência. Por incrível que pareça, ela não estava usando uma roupa diferente ou chamativa, muito menos exibindo algo que poderia justificar este fato. Estava com um vestido casual e confortável, sem maquiagem. Nada fora do normal para alguém que está indo viajar. O problema em questão é que essa mulher é Vera Fischer, atriz brasileira que ganhou o título de Miss Brasil em 1969, e que, na data da foto, estava prestes a completar 65 anos. Até então, nada com que se espantar. Porém, a designada foto deu origem à seguinte manchete em diferentes veículos, com as devidas variações: “Vera Fischer aparece irreconhecível em aeroporto”.

Foto: Ig/Divulgação

Foto: Ig/Divulgação

A referida notícia contava que a atriz fizera uma aparição em um aeroporto, sem maquiagem, estando irreconhecível. Além disso, não parecia se importar com a aparência, tendo ainda tirado fotos com fãs. Utilizando o argumento de Cora Ronai, incluso em um texto que fez sobre esta notícia, questiono: se Vera estava irreconhecível, como tirou fotos com fãs? Pois é, eles a reconheceram. E, provavelmente, qualquer indivíduo com um bom estado de visão que cruzasse o caminho dela teria reconhecido, pois a atriz não mudou de corpo, não fez transplante de rosto, apenas envelheceu. Para piorar, para ilustrar a matéria, utilizaram uma montagem que incluía, de um lado, a foto do aeroporto e, de outro, uma foto da atriz há 20 anos.

Temos, atualmente, grandes problemas e doenças relacionadas a estética corporal. Anorexia, excesso de cirurgias plásticas e casos de depressão, entre outros, estão cada vez mais comuns, sustentados por uma indústria da beleza que idolatra o corpo jovem e magro. A velhice uniu-se à obesidade no quesito de temor e repúdio da sociedade, principalmente entre as mulheres. Porém, com um problema: evita-se a obesidade com hábitos saudáveis mas, em relação à velhice, a única saída seria… a morte?

Caímos em um ponto que fora esquecido nas últimas décadas: se há vida, a velhice se torna inevitável. Faz parte do ciclo e deve ser respeitada, como uma conquista. Atualmente, a lógica consiste em: se morre jovem, uma pena; se fica velha, coitada. Leandro Karnal, historiador da Universidade Estadual de Campinas, falou a respeito do assunto, em uma palestra, este ano. Em meio à temática sobre ter ou não medo da morte, ele foi enfático: “O fato de que os jovens dominam uma tecnologia que os mais velhos não dominam e, pela primeira vez na história, os velhos não são os detentores do saber da tribo, mas os mais jovens, faz com que nós, inclusive, nos submetamos a coisas absolutamente estranhas para parecermos mais jovens”.

Karnal ressalta, ainda, sobre ser recente o fato de atribuirmos a velhice a um defeito e não apenas a um estágio de vida e essa é a grande questão que nos faz querer prolongar a juventude a qualquer custo. Com intervenções estéticas, mudança de hábitos e uma forte rejeição à aparência do velho. Coisas absolutamente estranhas.

O que nos falta é lembrarmos do verdadeiro sentido da velhice: um estágio, algo comum e inevitável, que não deve ser visto como um castigo, mas sim como uma parte vital do ciclo da vida, na qual teremos uma bagagem de histórias, experiências e lembranças como nunca antes; a qual deve ser comemorada, assim como todos os outros estágios e, mais importante, vivida, ao extremo, pois será o fim e, nas palavras do historiador, “é exatamente o fim que torna algo mais importante”.

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