PEQUENOS CIBORGUES

Por Laura Nobre

O termo “ciborgue” significa um organismo que tem tanto partes orgânicas, como cibernéticas. São pessoas que utilizam tecnologia para reparar ou superar deficiências físicas e mentais em seus corpos. Mas o termo foi ressignificado nos dias atuais e passou a abranger a relação homem-máquina, já que a tecnologia é tão presente, funcionando, inclusive, como uma extensão do corpo humano.

A tecnologia avança e os lançamentos estão no mercado tecnológico à disposição de todos. Cada vez mais, as crianças mostram um interesse e facilidade maior que os adultos para interagir com os novos aparelhos e mídias digitais. A questão a se fazer é se essa inserção tão precoce no mundo da tecnologia é benéfica para os pequenos.

“As crianças devem ter acesso à tecnologia na fase escolar após os três anos. Ela facilita o aprendizado, estimula o conhecimento, mas também é um ambiente muito perigoso. É necessária a supervisão de pais ou responsáveis. Muito tempo no computador também prejudica a visão”, explica a psicóloga Glória de Souza, especialista na saúde da criança e do adolescente. Glória também alerta que as crianças devem interagir pessoalmente com outras. “Dos sete aos onze anos, a criança passa por uma fase de desenvolvimento de ideias críticas, é necessário monitorar com o quê e quanto tempo ela terá contato”.

Segundo uma pesquisa realizada pela AVG Technologies, 57% das crianças de até 5 anos usam, com facilidade, aplicativos em smartphones, mas somente 14% sabem amarrar os sapatos, uma tarefa que antigamente as crianças aprendiam na primeira infância. Hoje, os pequenos têm acesso à tecnologia de várias formas. Eles brincam com o celular dos pais, ganham um novo tablet no Natal, ligam e desligam videogames e usam computador com maior facilidade que alguns adultos.

Tiago Brant Xavier tem nove anos e, aos três, ganhou seu primeiro videogame. Desde então, decidiu qual profissão quer seguir: inventor de games. “Eu gosto de jogos porque eles são muito divertidos, quero trabalhar criando novos games porque esse trabalho faz meu raciocínio aumentar”. Gabriel Brant Xavier, irmão mais novo de Tiago, tem sete anos, usa a internet para pesquisar e conta: “Eu gosto de jogos da minha idade e de pesquisar sobre animais e planetas. E o Google Tradutor uso para conhecer outras línguas”.

A mãe de Gabriel e Tiago, Tereza Brant, disse que foi o marido quem apresentou a tecnologia para as crianças e, no início, ela não gostou da ideia, pois achava que era cedo. Depois, notou que a tecnologia estimulou um rendimento escolar maior. “Acho importante as crianças terem contato com a internet, mas deve ser algo ponderado. Nós monitoramos e marcamos tempo, se não vira um vício e o que pode ser bom, acaba prejudicando futuramente”. Ela critica o uso dessas ferramentas sem o devido controle. “Muitos pais oferecem a internet para os filhos pelo comodismo, como uma babá virtual para a criança ficar quieta. Isso é irresponsabilidade dos adultos, deve ter horário e limite para ser uma questão educacional”.

Para Maria Fernanda Araújo, 7 anos, a maior diversão desde que ganhou seu primeiro tablet aos 4, é assistir vídeos na internet e brincar em jogos online. “Eu tenho vontade de ter meu canal no Youtube e redes sociais. Todas as blogueiras têm Instagram e Snapchat, mas minha mãe ainda não me deixa ter celular. Quando chego da escola sempre assisto ‘Bel para Meninas’, ‘Manoela Antelo’ e também adoro sites de jogos de culinária, ‘Spa da Barbie‘ e aqueles de vestir e maquiar a boneca”. O desafio da família e da escola é direcionar toda essa interação tecnológica para o aprendizado e desenvolvimento da criança. “Minha filha quer ser cineasta, adora fazer vídeos caseiros e editar com os aplicativos, mas acho nova para ter Facebook ou um canal. Deixo ficar na internet por, no máximo, duas horas por dia, mas só terá um celular na adolescência”, explica Ellen Araújo, mãe de Maria Fernanda.

É cada vez mais comum ver menores de dez anos utilizando as redes sociais para interagir, postar seus gostos e compartilhar fotos, mas, uma vez na rede, não se sabe até onde aquela postagem pode chegar. “O assédio a menores em redes sociais e aplicativos ocorre em tempo integral. Pesquisas afirmam que, no Brasil, 60% de fotos infantis publicadas na rede social Facebook acabam indo parar em sites pedófilos estrangeiros”, afirma a psicóloga e advogada especialista em cyberbullying, Cristina Sleiman.

Essa ligação criança e tecnologia acaba gerando muita polêmica, já que pode ser boa ou ruim. O fato é que os menores, principalmente os de dez anos, não têm capacidade de, sozinhos, analisarem o que é prejudicial ou não. Os pequenos imitam o comportamento do adulto e, se os smartphones e tablets fazem parte da rotina da família, não é difícil imaginar porque eles exercem tanto fascínio entre as crianças. Certamente, as novas tecnologias são ferramentas riquíssimas de ensino e aprendizagem, desde que usadas de maneira correta. Com a tecnologia, surgem novas formas de ensinar e aprender, mas a escola e os pais devem estar preparados, já que cada um tem um papel importante. E cabe aos pais, em casa, controlar o uso excessivo.

Para Giselle Maria Ribeiro, psicopedagoga responsável pela educação infantil e fundamental de um colégio particular, a tecnologia é fundamental no aprendizado. “Os nossos alunos têm aula de informática e estudam no tablet desde a fase introdutória. Fazem pesquisa nos laboratórios e montam suas apresentações de slides sozinhos. É importante dominarem o computador e usarem a internet para o estudo, pois não dá para viver nos dias de hoje distante da tecnologia”.

Tudo na vida é questão de equilíbrio e essa é uma das maiores dificuldades do ser humano. É necessário saber lidar com a tecnologia que faz parte do dia a dia desde cedo, mas só é saudável até o ponto em que o virtual não interfere no real. Criança não pode deixar de exercer seu maior trabalho que é brincar porque está em um chat online. É um terreno perigoso que requer muita atenção dos responsáveis. A maldade pode não aparecer na tela do computador, mas atrás da tela ela existe e enxerga a criança como ela mesma não se enxerga. É necessário refletir a faixa etária dos usuários tecnológicos e encontrar o equilíbrio, não deixando que uma inovação interessante possa acabar trazendo mais prejuízo do que benefício.

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