MAIS UMA MARIA

Por Clarice Rodrigues

Em uma pequena fazenda de Minas Gerais, na cidade de sete mil habitantes, nascia no dia 12 de fevereiro de 1944, Maria de Fátima da Silva. Mais uma Maria, dentre tantas que foram batizadas dessa forma na época do seu nascimento e mais uma dentre os cinco irmãos que moravam na casa apertada do interior. Seus pais, José e Julieta, foram os responsáveis pela escolha do nome de todos os filhos. E, como se dizia, os irmãos formavam uma escadinha, tinham diferença de pouco mais de um ano. “Isso era bom, nós brincávamos todos juntos, pois todos tinham quase o mesmo tamanho. Até nossos pais, quando não estavam no campo na sua ‘lida’ diária brincavam conosco”, recorda.

Foto: Clarice Rodrigues

Foto: Clarice Rodrigues

As brincadeiras de criança eram para gastar as energias, ninguém sentia cansaço, nem mesmo ficava parado. Jogar peteca, pular corda, chicotinho queimado, barra manteiga e até jogar pedrinhas para o alto, eram algumas opções. Mas a brincadeira que animava todo mundo era a bandeirinha estourada. “Era divertido ter adultos e crianças brincando da mesma coisa e da mesma maneira. Dividíamos os times, mas sempre um ficava com um integrante a mais, pois éramos sete no total”, lembra. Com os dois times preparados, cada um ocupava um lado na varanda da casa de Maria. Os participantes usavam um galho do pé de mamona para ser a bandeirinha e ela ficava sempre no chão, o mais longe possível da equipe adversária. A missão de ambos os times era conseguir capturar a bandeira do time oposto sem ser pego. Quem fosse pego, ficava congelado no local até ser salvo por outro membro de sua equipe.

“Ai ai, tempos bons esses. Ser criança foi a melhor fase da minha vida”. Mas quase no finalzinho dela aconteceu uma tragédia que ficou marcada de uma maneira que a menina Maria gostaria de esquecer. “Perdi meu pai quando ainda era menina e, pouco tempo depois, minha mãe também se mudou para o céu, os dois se foram pelo mesmo motivo, as ‘doenças da idade’ tiraram os dois de mim”, lamenta.

Além de Maria, ficaram mais quatro crianças que precisavam de comida e de cuidados e, para sobreviver e não pesar no orçamento dos familiares, que também eram pobres, cada criança foi morar com um parente. “Foi triste ter que viver longe dos meus irmãos e, o pior, longe dos meus pais. Recordo-me até hoje dos meninos e meninas, e também da mãe e do pai brincando com a gente na varanda da fazenda, correndo para lá e para cá para proteger a bandeirinha e ainda cantando ‘bandeirinha estourada, quem roubar não vale nada’,” conta.

Durante a semana, a menina trabalhava limpando as casas das fazendas vizinhas e lembrando as cantigas que a mãe ensinava quando mocinha. “Os anos se passaram e acabei me casando, constituindo minha família e levando para meus oito filhos as mesmas cantigas e brincadeiras do tempo que morei na roça”, diz Maria, “roça mesmo, de casinha simples, pequena, muito humilde, porém, rodeada de alegria e de visitas”.

Foto: Clarice Rodrigues

Depois de 30 anos vivendo no campo, o corpo já não é mais o mesmo e a saúde pede atenção. Os filhos também foram partindo um a um e hoje a cidade é a morada de Maria. Os netos e bisnetos estão chegando e – também se assemelhando aos filhos de dona Julieta – estão fazendo uma nova escadinha, só que desta vez, Maria é a vovó, a responsável por organizar as brincadeiras. “Confesso que, se deixar, a criançada só quer me mostrar como funciona um celular, como mexer em um computador, mas digo que não tenho mais idade para isso, que essas coisas não existiam na minha época e, logo, eles querem saber como eu e meus irmãos nos divertíamos quando crianças”. As brincadeiras do tempo de menina começam a ser ensinadas aos netos e vão passando de geração em geração. “Aí eles esquecem o videogame, esses joguinhos que só os fazem ficar presos nos quartos e vão todos para os fundos da minha casa, começam a brincar e se encantam com as brincadeiras de mais de cinquenta anos atrás”.

Essas crianças são crianças da cidade, já nasceram nela e tinham tudo para nem sequer gostar do campo, reflete Maria. No entanto, parece que o amor pela roça está no sangue. “É só verem um cavalo que elas fazem fila para cavalgar. É só tocar moda sertaneja na rádio que elas começam a dançar, dizendo que é a música da vovó. E, a melhor de todas as frases que já ouvi dos meus netos, eles me pedindo um café e um biscoitinho que aprendi a fazer com a minha mãe”. Na época da infância de Maria, toda mocinha devia saber cozinhar e tomar conta do lar e todo menino devia saber cavalgar e cuidar da plantação. Mesmo assim, as crianças ainda encontravam tempo para as brincadeiras. “Todos se sentam ao meu redor, fazendo surgir uma enorme roda e aqui a tecnologia não tem vez, o videogame, os joguinhos de carros ou de futebol, nada disso! Eles estão concentrados e com os olhinhos, ainda pequeninos, bem fixos nos meus lábios, pelos quais relato toda a minha infância e como era a bisavó deles, minha mãe”. Maria conta que podem ficar nessa roda o dia todo, ela como ícone da geração ‘velhinha’ e os netos como geração de ‘bebês’. Enquanto esses olhinhos brilharem ao ouvir os “causos”, ainda haverá uma Maria para contar essa história, mais uma história.

Anúncios