INSTANTANEIDADE INDESEJADA (OU NÃO)

Por Leandro Fernandes

“Quem, eu?” Foi o que Dona Nilva de Lourdes Aguzzoli perguntou ao ser avisada que estava fazendo aniversário na festa surpresa do seu último ano. Diagnosticada com o Mal de Alzheimer em 2008, ela passou a sofrer todos os sintomas da doença degenerativa que ataca o cérebro e provoca a perda das funções cognitivas. O problema começa com a perda de memória e avança progressivamente.

A “Vovó Nilva” se foi em dezembro de 2013, antes de completar seus 80 anos, mas sua história ganhou destaque antes mesmo dela falecer. O enredo da vida real foi contado dia-a-dia por seu neto Fernando Aguzzoli, pelo Facebook. Fernando trancou a faculdade de Filosofia, largou o emprego e as festas com os amigos para se dedicar em tempo integral a quem tão bem cuidou dele na infância, sua avó.

O espaço no Facebook serviu para compartilhar as experiências de se conviver com alguém com Alzheimer e descrever situações engraçadas, vídeos, fotos, dicas e aventuras fantasiosas e características de um paciente que sofre desse mal. Além da internet, a história de Fernando e da avó ganhou as páginas de um livro. “É muito mais do que um livro pra mim. É a última homenagem que eu podia fazer para a minha avó”, disse Fernando em uma palestra em novembro de 2014 no TEDx Fortaleza.

Foto: Divulgação/Editora Belas Letras 

Lançado em julho e intitulado “Quem, eu?” – expressão que Vovó Nilva sempre dizia –, a biografia incentivada a ser escrita pelos seguidores da fanpage (hoje mais de 121 mil) traz, além da história, os esclarecimentos de 25 profissionais. Psicólogos, psiquiatras, neurologistas, geriatras e até advogados e arquitetos falam sobre questões pertinentes para orientar a família e o paciente que convivem com o Alzheimer.

Segundo o Relatório sobre a Doença de Alzheimer da Alzheimer’s Disease International publicado em 2009, estima-se que existam no mundo mais de 35 milhões de pessoas com a doença. No Brasil podem existir mais de 1 milhão de casos, sendo que a maior parte deles ainda não tem diagnóstico. Em 2030 calcula-se que sejam 65 milhões e 115 milhões em 2050.

O Alzheimer é um desafio para a ciência, uma doença sem cura e ainda não se sabe porque ela ocorre. Os números devem nos preocupar, já que é um doença de grande impacto na sociedade e os especialistas dizem que pode ser considerada uma epidemia que aumenta a cada dia na população grisalha do mundo todo.

Instantaneidade Desejada

Com o intuito de alertar a população para este mal, no ano passado, a ONG portuguesa Alzheimer Portugal criou a campanha “Instantes” para promover a divulgação e sensibilização da doença. O aplicativo Snapchat, que é febre no mundo, tem mais de 200 milhões de usuários e foi a inspiração para que tudo fosse feito. Assista ao teaser da campanha:

Imagens de momentos importantes – instantes – como casamentos, aniversários e viagens são compartilhados por alguns segundos, depois somem. É assim que funciona a cabeça dos vovôs e vovós que amamos e que são acometidos pela doença. O aplicativo é famoso justamente por ter seus momentos “esquecidos” depois de segundos. Isso para lembrarmos que próximo de nós pode haver alguém que vive essa realidade com sua própria memória. O Snapchat é a instantaneidade desejada e o Alzheimer, a não desejada.

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