DÉSPOTAS MIRINS

Por Gabriela Zanca

Educar os filhos não é uma tarefa fácil. Não faltam sugestões de todos que observam a relação entre os pais e suas crianças. Mas a verdade é que, independente do que digam, quando uma criança chega, a rotina muda e os adultos, responsáveis por transmitir valores e educação, já não sabem o que fazer. Qual a hora de impor limites e não deixar que a criança que, por nove meses esperaram ansiosamente, comande o ritmo da casa?

Dentre as discussões que surgem sobre o tema, um termo tem sido utilizado: a infantolatria. Segundo Ana Paula Tosetto, psicóloga especialista em terapia cognitiva, essa conduta é a tendência dos filhos assumirem o controle da rotina familiar, pelo fato dos pais ou responsáveis adequarem os horários e atividades em função dos filhos, mesmo que isso traga prejuízos.

É necessário ressaltar que há momentos da vida de uma criança em que ela é inteiramente dependente dos adultos e é normal que, por essa condição, a família esteja a postos para atendê-la. “Do nascimento aos dois anos de idade, aproximadamente, a criança depende inteiramente do adulto para atender às suas necessidades de sobrevivência e afeto”, afirma Ana Paula.

A infantolatria pode começar a ser observada a partir do primeiro ano de vida da criança, quando já existe uma independência de locomoção e o bebê se encontra em fase de grandes descobertas. Mas perceber nitidamente a transição de uma fase para a outra não é fácil. Como vivente dessa realidade, Fabiana Barcelos, jornalista e mãe de Luiza, de três anos, e de Pedro, nascido em janeiro último, está até hoje aprendendo a ser mãe e a conviver com as características próprias da geração dos filhos. “Acredito que a mãe deve ser observadora para conhecer o filho a fundo e saber as estratégias que vai usar para educar”.

Consequências e reversão

Os comportamentos oriundos da infantolatria geram reflexos para toda a família. Ana Paula afirma que a relação do casal pode começar a ser afetada já no momento em que há conflito de opinião em relação à educação dos filhos. Começa a haver falta de tempo ao cônjuge e ausência de programas e atividades que não sejam diretamente ligadas às crianças. Além dos problemas conjugais, os pais começam a se ausentar de compromissos particulares e com os outros filhos: consultas médicas, compromissos do trabalho, cuidados com a casa e com os irmãos maiores, que podem desenvolver crenças de não estima pela ausência dos pais nos acontecimentos de sua vida.

Os que pareciam ser os beneficiários, as crianças mais novas, levam consigo marcas da infantolatria. Passam a não aceitar regras, não ter tolerância à frustração, ter insegurança e revolta quando são contrariados e dificuldades de tomar decisões e lidar com mudanças. Isso acontece porque, em casa, estão acostumados a ter um falso controle de tudo a sua volta e, ao se deparar às regras impostas pela sociedade, têm dificuldade de interação social.

Para contornar a situação, Ana Paula explica que é importante entender que não há uma “receita” para educar as crianças, mas que o primeiro passo é a compreensão de que cada uma tem seu ritmo próprio de aprendizagem e que cabe aos pais ou responsáveis serem o modelo. É necessário que seja aplicado às crianças regras e normas, para que elas se enquadrem ao ritmo da casa e cresçam em um ambiente de paz e respeito.

Escola

Os reflexos da infantolatria estão presentes também no ambiente estudantil e, nesse contexto, questiona-se qual o papel das escolas na educação das crianças. Para Ana Laura Janolio Pardinho, professora da rede municipal de ensino de Ribeirão Preto, São Paulo, a escola se responsabiliza pela formação pedagógica e pela inserção ao debate social, mas não pela educação.

O comportamento dos pequenos na escola é reflexo do que eles são em casa. Se, com os pais, assumem todas as rédeas, com professores e colegas tendem fazer o mesmo. Prova disso é a resistência em obedecer a regras e ordens.

Apesar dos comportamentos típicos da infantolatria se destacarem, eles não estão majoritariamente presentes entre as crianças. Ana Laura afirma que é normal que os pequenos desrespeitem uma ou outra regra e que possam ter, em algum momento da infância, uma mudança no comportamento, reflexo de algum problema que a família possa estar passando.

Quando, na escola, se detecta essa dificuldade, é preciso uma ação conjunta com a família para que o quadro possa ser revertido. Muitas vezes, a escola pede a intervenção de uma psicóloga ou psicopedagoga para fazerem atividades e dinamizar o processo de mudança. Ana Laura acrescenta ainda que leva pelo menos seis meses para que os efeitos possam ser notados.

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