DÉCADAS DE AMOR

Por Mariely Dalmônica

Qualquer um que assista ao filme “Up – Altas Aventuras“, dos estúdios Disney/Pixar, se emociona desde o início com a história de amizade e amor do casal de idosos, Ellie e Carl, que se conheceram na infância e, desde então, não se desgrudaram. Não é só em filme que narrativas assim acontecem. Maria Francisca e Otávio se conheceram em uma fazenda quando crianças. Ela se mudou para Uberlândia, em Minas Gerais, e ele foi atrás, já pensando em se casar. Há dois anos, o casal celebrou suas Bodas de Ouro.

Foto: Mariely Dalmônica

Foto: Mariely Dalmônica

Os dois foram “arteiros”, apanhavam dos pais de vez em quando por conta das peripécias e ambos trabalharam desde muito jovens. Assim foi a infância desse casal que se conheceu em tempos difíceis e achou uma forma de lutar contra todas as dificuldades: juntos!

Era uma vez

Vizinhos de fazenda, se conheceram quando a irmã dela e o irmão dele namoraram e se casaram, na época em que os dois ainda eram bem novos. Maria com oito anos e Otávio, com 13. Nesse tempo, a mãe de Maria Francisca levava a menina e a irmã nos bailes que aconteciam perto da propriedade em que moravam. Otávio ia junto e ajudava a cuidar dela no fim da festa, já que Maria estava cansada e dava trabalho na hora de voltar para casa. Ela se lembra do carinho e das festas como se fosse ontem. “Tem hora que ele ainda pegava na minha mão pra ajudar, eu numa ‘soneira’, e ele com aquela caridade”.

Aos 11 anos, Maria Francisca se mudou para morar com a irmã e o cunhado em outra fazenda, deixando seu amigo para trás. Otávio ficou trabalhando de capinar milho e arroz. Pouco tempo depois, Maria já havia arrumado emprego perto do novo lar, na Fazenda da Mata, onde ficou por pouco mais de dois anos, até que sua irmã e o marido resolveram viver em Uberlândia. Foi aí que Maria se mudou de vez pra cidade. Otávio não perdeu tempo, ficou sabendo da novidade e se deslocou, sem volta, para a zona urbana ao encontro de seu amor de infância.

A União

Otávio era galã e namorou com três primas de Maria enquanto ela esteve fora, mas, segundo ele, “não foi nada sério”. Quando pensava em se mudar para a cidade, dizia para si: “Eu vou mudar pra Uberlândia e vou casar com aquela menina”. Ela, pelo contrário, conta que “nunca pensava em namorar, porque ele tinha uma fama de bravo. Mas a gente veio a namorar nos anos 60”.

Rapidamente, estavam juntos pra nunca mais se largarem. Namoraram por um ano e oito meses e, no dia 20 de julho de 1963, se casaram. Maria Francisca com 16 anos e Otávio, com 21, davam início a uma grande família. No começo da vida, moravam numa pequena casa que fazia fundo com outra. Maria era babá e lavadeira de roupa e Otávio trabalhava num frigorífico.

Foto: Acervo Pessoal de Maria Francisca e Otávio

Foto: Acervo Pessoal de Maria Francisca e Otávio

Adotaram seu primeiro filho e, depois, tiveram mais três. Além disso, criaram mais quatro filhas do irmão e da cunhada de Maria que faleceram cedo. “Tive muito sofrimento pra criar esses filhos, o ‘ordenado’ era muito pouco na época, aí sempre foi uma ‘peleja’”, recorda Otávio. Maria, sempre muito otimista, completa: “’Toda vida’ eu tive um ‘negócio’ de ajudar os outros, eu ‘num’ preocupo muito comigo, preocupo com quem tá em volta de mim”.

O tempo passou e, enfim, conquistaram sua própria casa, com poucos cômodos e muita gente pra morar. Montaram seu negócio, um bar em frente a um colégio. Quando Maria soube o que seria construído tão próximo a sua casa, não pensou duas vezes: “Já sei, vou fazer um ‘barzin’. E, em 73, fiz um ‘barzin’ de tábua”. Toda manhã, com a ajuda dos filhos, Maria e Otávio carregavam as mercadorias para o bar e, no fim da noite, levavam o que sobrava de volta para casa.

Hoje e Sempre

Foto: Mariely Dalmônica

Hoje o casal diz que só não trabalha tanto como antigamente por falta de força. Maria resume sua vida ao lado de Otávio e fala em nome dos dois: “A gente tem força de viver porque tem os filhos e os netos”. Após tanta história, Otávio faz um apanhado e diz que a vida só deu certo desse jeito porque ele e sua esposa combinam muito e nunca brigam. Pra finalizar, Maria sintetiza: “Eu encontrei um companheiro que não tem nem como agradecer, ele não foi só um marido, ele é pai, é mãe, é tudo! Amigo, nem se fala”.

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