DE UMA PONTA A OUTRA

Por Carolina Rodrigues

Muitas pessoas vão se identificar com esta rotina, por inúmeros motivos. “É movimentada. Se eu tiver comendo eu tenho que parar, não tenho hora pra mim”. É movimentada porque ela cuida da filha criança e da avó idosa; os dois contrapontos da vida. “Cuidar de um idoso dá quase o mesmo trabalho que cuidar de uma criança, quando não dá mais trabalho”. Daiana se desdobra da melhor forma para tomar conta das “crianças” que Deus lhe deu.

Foto: Carolina Rodrigues

Foto: Carolina Rodrigues

Daiana Soares da Silva tem 27 anos. Ela mora com o marido, o pai, a filha e, há dois anos, a avó Maria Francisca também está sob seus cuidados. Dona Maria morava em Patos de Minas, em Minas Gerais, com outra filha, mas a neta teria mais cuidado e paciência para cuidar dela a partir de então.

Todos os dias, Daiana aprende e reaprende as histórias que datam de 1922. “Ela pegou as revoluções, as guerras. Ela podia ter conhecido Hitler; ela podia ter sido filha da Tarsila do Amaral; ter estudado com Getúlio Vargas. É muita história. A velhice é rica nesse sentido, é muito carregada de história. Ela tem um amadurecimento que a gente não tem”.

Os idosos possuem uma sabedoria que só as vivências e experiências explicam. “Eles sabem o momento de calar, não brigam por qualquer coisa, escutam muito, não falam coisas que não têm proveito. Eu aprendo muito isso com a minha avó. Contradizer alguém é perda de tempo, querer mostrar que sabe mais”.

Dona Maria Francisca teve 13 filhos e apenas cinco ainda estão vivos. Dois morreram quando bebês e os outros já casados e com netos. Ela, realmente, não precisa confirmar ou provar para alguém que sabe alguma coisa. Ela se recorda mais do passado e das situações que viveu quando era solteira e gosta de contar essas histórias para aqueles que estão dispostos a ouvir e viajar em outros tempos, um pouco distantes da atual realidade.

No decorrer da entrevista, as divagações de Daiana são interrompidas pelo choro típico de criança que quer a mãe ou leite ou os dois ao mesmo tempo. “Criança é assim, não espera, tem que parar tudo e ir. Minha avó já espera, tem coisa que ela espera”. Há um ano, Laís decora a casa com a alegria típica de criança e já escuta as vivências da bisavó.

São duas “crianças”. “Eu cuido da Laís porque ela não sabe se cuidar, mas ela está aprendendo e, daqui a pouco, vai saber se cuidar sozinha. A minha avó já não é assim. Hoje eu cuido dela, amanhã eu vou ter que cuidar mais ainda, porque a cada dia ela vai não sabendo se cuidar. Um trabalho vai ficando leve e o outro vai pesando mais”.

Foto: Carolina Rodrigues

Foto: Carolina Rodrigues

Cuidar das duas ao mesmo tempo não é tarefa fácil. O rosto de Daiana reflete isto. Ela está cansada, mas em vários momentos reforça que não é um fardo o que ela faz. As duas ficaram doentes ao mesmo tempo; talvez isto explique o semblante mais triste. Outra vez, Laís quer mais atenção da mãe. Daiana a embala na rede e canta para espantar os males que lhe atormentam. “Tudo passa, então você tem que fazer o seu melhor hoje, porque amanhã minha filha já não vai querer mais estar no meu colo. A gente atura o chorinho, porque a gente vai sentir saudade até das madrugadas acordadas”.

Dona Maria também canta para Laís e isso faz Daiana se lembrar do primeiro mês de Laís, quando a vovó a pegou nos braços e começou a desenhar sua vida, com tudo que ela gostaria de ter e não conseguiu e que já não tem a esperança de ver, nem nos passos da bisneta:

– É, minha filha, você está crescendo agora. Você vai poder estudar. Daqui uns dias vocês vai crescer, vai estar correndo pela casa. Aí, de repente, vai estar na escola, vai aprender a escrever, vai aprender a ler…

Infância e velhice, os extremos da vida humana juntos. O que se passa entre os dois é vida que segue corrida e muitas histórias que encantam, emocionam, entristecem, resplandecem e fazem o coração vibrar, de quem viveu e de quem escutou.

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