NO CÉU TEM INTERNET?

Por Flahana Pfeifer

E morreu. Sorrateira, silenciosa e discreta, a morte chega sem aviso prévio, como aquela visita na manhã de domingo em que você ainda está de pijamas, jogado no sofá, com o celular na mão e de repente escuta a campainha tocar. Em seguida, você propaga pela casa um longo suspiro e calça os chinelos bem devagar ao mesmo tempo em que bate o olho rapidamente na última postagem que está naquele instante no seu feed de notícias. No caminho entre o abandono do seu confortável estofado e a maçaneta prestes a ser girada você se lembra de estampar o sorriso para logo depois abrir a porta e entoar, com a voz ainda rouca, o clássico “Que surpresa! Vamos entrando que a casa é sua!”.

Enquanto côa um café, o papo oscila entre os acontecimentos do final de semana e os afazeres do dia seguinte, sem antes pedir licença e enviar um áudio pelo Whatsapp respondendo o “bom dia” que seus amigos e familiares enviaram em todos os grupos que você possui no aplicativo. A conversa segue e, quando o café fica pronto, você o despeja na xícara que está guardada bem no fundo do armário, mas que é a mais apresentável diante dos copos vazios de requeijão que costuma usar no dia a dia.

Pires, xícara, toalha de mesa rendada e nenhuma foto? Só mais uma licença para que você possa capturar aquele momento na sua câmera de 8 megapixels, colocar o filtro vintage no Instagram, pensar em uma legenda criativa, adicionar uns emoticons, marcar sua visita na publicação, direcionar para o Facebook e voilá, está feito o primeiro post do dia.

Quando o relógio se aproxima do meio dia e o cheiro de feijão do vizinho começa a chegar aos olfatos da visita, a mesma decide ir embora preparar o almoço. Até chegar à porta, vocês combinam de tomar uma cerveja na sexta-feira lá pelas cinco e convidar os amigos mais chegados pela internet, já que esse mês os créditos do celular acabaram mais rápido, impedindo eventuais ligações. Dois “até logos” são pronunciados e a porta se fecha enquanto você pensa se comprou molho de tomate essa semana e quantas pessoas podem ter curtido a foto do café.

Depois de ter passado três horas conversando, sentado à mesa da cozinha, a bexiga pesa e você vai até o banheiro com a pretensão de urinar e já tomar um banho. Coloca a playlist apropriada no Youtube, tira a roupa e entra no box cantarolando um típico Bon Jovi dominical, porém interrompido por uma dor no peito capaz de fazer o ar desaparecer, a pulsação interromper e a vida cessar. Em questão de minutos, o que resta é um corpo nu entre o vapor do chuveiro, um síndico estranhando a fumaça que sai pela janela e um bocado de redes sociais, com senhas esquisitas, para serem administradas por alguém que não é mais você.

Seu tempo de vida físico pode ser pouco, mas no virtual pode ser eterno graças aos memoriais criados pelo Facebook. Seu perfil continua existindo, só que agora recheados com fotos suas, nem tão boas assim, gifs simuladores de paraísos e mensagens daqueles que sentem sua falta e que, por uma razão de fé contemporânea, imaginam que onde você esteja exista internet e que deve estar acompanhando toda a movimentação fúnebre na sua linha do tempo.

blog6

Ilustração: Amarildo (editada)

A solicitação para criação de um memorial pode ser feita por um amigo ou parente que possui o mesmo arbítrio para pedir a remoção da conta, sem ter acesso à sua senha pessoal, o que torna tudo um pouco mais privativo e menos constrangedor (no céu a gente sente vergonha?).

Caso você já tenha em mente o desejo quanto ao futuro das suas redes sociais, aproveite a visita do domingo e sirva sua opinião junto com o café, garantindo um mínimo de certeza e tranquilidade para quando se “deslogar” de vez.


Entenda melhor como definir seu contato herdeiro no Facebook clicando aqui.

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